24 julho, 2009

Julião: O último lance

Pacto da Galiléia pôs no mesmo palanque Julião, líderes do PFL e usineiros pernambucanos, pela reforma agrária. Não deu certo
Vandeck Santiago
vandeck.santiago@diariodepernambuco.com.br

O que diabos Francisco Julião está fazendo nesta foto, acompanhado de antigos adversários e inimigos? Ao seu lado estão o então candidato a governador pelo PFL, José Múcio Monteiro, o governador Gustavo Krause (discursando), o ministro-chefe da Casa Civil, Marco Maciel, o candidato ao Senado Roberto Magalhães e alguns dos principais usineiros do estado. O ato ocorreu em 18 de outubro de 1986, no Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão (PE) - o mesmo local onde em 1955 surgira o movimento das Ligas Camponesas. Foi um comício para o anúncio oficial da assinatura do Pacto da Galiléia, idealizado por Julião e pelo qual os usineiros pernambucanos comprometiam-se a doar 10% de suas terras para a reforma agrária.

O Pacto tornou-se o gesto mais incompreendido da história de Julião, o maior fracasso eleitoral da vida dele e um dos motivos que contribuiu para o ostracismo a que foi relegado nos anos seguintes - candidato a deputado federal, foi humilhado nas urnas, obtendo menos de 3.500 votos. José Múcio perdeu a eleição para Arraes, que elegeu também os dois candidatos ao Senado (Antonio Farias e Mansueto de Lavor). Mas, ao mesmo tempo, o Pacto representou uma vitória da pregação de Julião em favor dos camponeses - uma vitória retórica, mas, enfim, vitória.

O desenlace do episódio foi retratado em matéria publicada pelo Diario em 25 de novembro, sob o título "Pacto da Galiléia não mais será cumprido". Um dos signatários do acordo, Gérson Carneiro Leão, pediu ao repórter que o procurou na época: "Vamos falar de outra coisa". Como o repórter insistisse, Gérson completou: "O Pacto não existe mais. Era um acordo de José Múcio com Julião. Só teria validade se Múcio fosse eleito. Como não foi..."

Para contar esta história - que encerra o ciclo da atuação política de Julião e complementa a série do Diario sobre Julião - a reportagem consultou documentos e textos da época, ouviu personagens daqueles acontecimentos e entrevistou o autor do único texto acadêmico sobre o Pacto, o cientista político Eliezer Queiroz de Souto ("A reforma agrária pelo dízimo: proposta de Francisco Julião aos usineiros", incluído na coletânea Atos retóricos, livro organizado por Tereza Lúcia Halliday, publicado em 1988 e hoje esgotado).

O texto do Pacto seguia uma retórica típica de esquerda. "É chegada a hora das grandes reformas sociais", afirmava um dos trechos do documento. "É inaceitável um país rico com o povo pobre. É inaceitável a permanência de contrastes sociais que comprometam o futuro do país". Era assinado pelo próprio Julião, representando os sem-terra, e por José Ranulfo (do Sindicato dos Usineiros), Gérson Carneiro Leão (da Associação dos Cultivadores de Cana) e pela cúpula do PFL: José Múcio, Gustavo Krause, Maciel, Roberto Magalhães e Margarida Cantarelli (o segundo nome do partido na disputa pelas duas vagas para o Senado). "O Pacto não foi compreendido nem à esquerda nem à direita", afirma José Múcio, que hoje é ministro das Relações Institucionais do governo Lula. "Mas se tivéssemos ganho iríamos fazer a reforma agrária que Julião queria".

O Julião do pleito de 1986 é um "Julião reciclado", na opinião de Eliezer Queiroz . Não é que ele renegasse o passado, mas naquela eleição vislumbrava outros caminhos para atingir seus objetivos, entende o cientista político.

Julião regressara do exílio em 1979, com a anistia. Integrara-se ao PDT, de Leonel Brizola, que vivia disputando espaço com o PMDB, legenda à qual pertencia Arraes. Em 2 de maio de 1986 lançou a "Carta aberta aos usineiros", uma tentativa de convencer os usineiros a aceitar a reforma agrária por consenso. A princípio, eles foram contra; depois, à reboque de José Múcio e desejosos de derrotar Arraes, concordaram - aí está a vitória mencionada no início dessa matéria: depois de passar décadas pregando na esquerda, Julião conseguia entronizar sua bandeira de reforma agrária entre os liberais e a direita. "Foi na Zona da Mata que edificastes vossos domínios, graças à vossa diligência, dizeis com orgulho, enquanto euvos digo que sem o braço do escravo e do servo que explorastes até a inanição jamais seríeis o que sois", diz ele na "Carta".

O Pacto da Galiléia parece ter sido o último lance -- desesperado? - do antigo agitador desejoso de ver suas ideias de reforma agrária virar realidade.

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17 julho, 2009

Bibliografia - da edição especial - Julião

Assim falou Julião…, Gondin da Fonseca (Fulgor, SP, 1962)

Ascensão e queda de Miguel Arraes, Adirson de Barros (Editora Equador , RJ, 1965)

O apoio de Cuba à luta armada no Brasil, Denise Rollemberg (Mauad, RJ, 2001)

“Brazil and the myth of Francisco Julião”, Anthony Leeds, em Politics of change in Latin America (Frederick A, Praegers. Publisher, EUA, 1965)

Caminhos e descaminhos dos movimentos sociais no campo, Cândido Grzybowski (Fase, RJ, 1987)

Os camponeses e a política no Brasil, José de Souza Martins (Vozes, RJ, 1995, 2ª edição)

Camponeses em marcha, Cezar Benevides (Paz e Terra, SP, 1985)

Camponeses: sua participação no Brasil, Shepard Forman (Paz e Terra, RJ, 1979)

Livro da Comissão especial sobre mortos e desaparecidos (edição digitalizada no site www.memoriasreveladas.arquivonacional.org.br, 2007)

Combate nas trevas, Jacob Gorender (Ática, SP, 6ª ed., 1999)

Construindo o sindicalismo rural, Maria do Socorro de Abreu e Lima, Editora Universitária, UFPE (PE), 2005)

Cuadernos nº 31 -- Reprodução do jornal “Liga”, 1962-1964 (Cidoc, 1969, México), edição digitalizada no site www.armazemmemoria.com.br

O despertar do campo, Cláudio Roberto de Souza (LivroRápido, PE, 2005)

Direita, volver - O golpe de 1964 em Pernambuco, Fernando Coelho (Bagaço, PE, 2004)

Em busca do povo brasileiro - artistas da televisão, do CPC à Era da TV, Marcelo Ridenti (Record, SP, 2000)

The end of the peasantry - The Rural Labor Movement in Northeast Brazil, 1961-1988, Anthony W. Pereira (University of Pittsburgh Press, EUA, 1997)

“Entering History: Paulo Freire and the Politics of the Brazilian Northeast, 1958-1964”, Andrew J. Kirkendall (Luso-Brazilian Review, 2004, University of Wisconsin System, EUA)

A esquerda e o Golpe de 64, Dênis de Moraes (Espaço e Tempo, RJ, 1989)

Francisco Julião, as Ligas e o golpe militar de 1964, Vandeck Santiago (Comunigraf, PE, 2004)

Francisco Julião - Vida, paixão e morte de um agitador, Vandeck Santiago (Assembléia Legislativa de Pernambuco, 2001)

O grande irmão - O governo dos Estados Unidos e a ditadura militar brasileira, Carlos Fico (Civilização Brasileira, RJ, 2008)

História dos movimentos sociais no campo, Leonilde Sérvulo de Medeiros (Fase, RJ, 1989)

“Isso aqui né nosso! Isso é da gente!”. O perigo comunista e os índios ignorantes: a participação dos Xukuru nas Ligas Camponesas (Pesqueira-PE, 1961), Edson Silva (Texto apresentado no XXIV Simpósio Nacional de História,
São Leopoldo, RS)

Horizonte do desejo, Wanderley Guilherme dos Santos (FGV Editora, RJ, 2006)

Os industriais da seca e os “galileus” de Pernambuco, Antonio Callado (Civilização Brasileira, RJ, 1960)

Julião, Nordeste, Revolução, Leda Barreto (Civilização Brasileira, RJ, 1963)

As Ligas Camponesas, Fernando Azevedo (Paz e Terra, SP, 1982)

As Ligas Camponesas, Élide Rugai Bastos (Vozes, RJ, 1984)

“Ligas camponesas e sindicatos rurais em tempos de revolução”, Antonio Torres Montenegro, em O Brasil republicano (v. 3), Jorge Ferreira e Lucília de A. N. Delgado (org.), Civilização Brasileira (RJ), 2003

A luta armada contra a ditadura militar, Jean Rodrigues Sales (Editora Perseu Abramo, SP, 2007)

Memórias do exílio, Pedro Celso Uchôa e Jovelino Ramos (Coord.), Editorial Livraria Livramento Ltda. (SP), 1978

Movimento de cultura popular - Impactos na sociedade pernambucana, Letícia Rameh Barbosa (Bagaço, PE, 2009)

1964 - O golpe passado a limpo, Rita de Cássia Araújo e Túlio Velho Barreto (Orgs.), Massangana (PE), 2007

Pesadelo - Rememorando uma prisão política, José Nivaldo (Bagaço, PE, 2003)

A questão agrária no Brasil (V. 4), João Pedro Stédile (org.), Expressão Popular (SP), 2006

A Revolução que nunca houve, Joseph Page (Record, RJ, 1982)

“Revisitando as Ligas Camponesas” (Fernando Antônio Azevedo), em O golpe de 1964 e o Regime Militar (EDUFSCar, SP, 2006), João Roberto Martins Filho (org.)

Sete palmos de terra e um caixão, Josué de Castro (Brasiliense, SP, 1965)

A sociologia crítica de Octávio Ianni - uma homenagem, Marcos Costa Lima (Org.), Editora Universitária, UFPE, 2005

Terra de ninguém, Rudá Ricci (Editora da Unicamp (SP), 1999

A vida e a luta do comunista Manoel Lisboa, Edições Centro Cultural Manoel Lisboa (PE), 2008

Elogio aos revolucionários, Edições Centro Cultural Manoel Lisboa (PE)

A vitória dos vencidos - Partido Comunista Brasileiro e Ligas Camponesas, 1955-1964, Bernadete Wrublevski Aued (Editora da UFSC, 1986)

A vida e a luta do comunista Manoel Lisboa, Depoimentos, Edições Centro Cultural Manoel Lisboa (PE), 2008

DE FRANCISCO JULIÃO: Cachaça (1951); Irmão Juazeiro (1961); Que são as Ligas Camponesas? (1962); Até quarta, Isabela (1964); Cambão - A face oculta do Brasil (1968)

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Por que fomos os mais prejudicados

1 - A região perdeu imediatamente personagens cujo trabalho tinha dimensão nacional e internacional: Miguel Arraes; Josué de Castro (principal nome do país no estudo e combate da fome); Celso Furtado (economista e superintendente da Sudene); Paulo Freire (que se tornaria referência internacional como educador) e Francisco Julião. São perdas que fariam falta até a um país, quanto mais a uma região pobre e necessitada de desenvolvimento. Se o golpe tivesse cometido apenas esta violência, já seria motivo suficiente para condená-lo.

2 - O desenvolvimento do Nordeste era prioridade nacional e tudo indicava que continuaria a ser, independente de quem fosse o presidente eleito nas eleições marcadas para 1965: Juscelino Kubitschek (o mais provável) ou Carlos Lacerda. Em vez disso, a região sofreu uma série de medidas que drenaram seu peso na agenda nacional. A Sudene, que era vinculada diretamente ao presidente, sendo uma espécie de ministério para o Nordeste, foi rebaixada, tornando-se uma mera entidade vinculada aum ministério.

3 Uma geração inteira de políticos e profissionais submissos à ditadura ascendeu ao poder nas repartições, entidades de classe, municípios e estados, com reflexos que se estenderam por décadas, tornando a região base de apoio do novo regime. Numa analogia com futebol, seria algo assim como se de repente todos os times da primeira divisão fossem afastados e em seu lugar entrassem os da Segunda Divisão. Ou seja, saíam Corinthians, Atlético Mineiro, Sport - e em seu lugar entravam (com todo respeito) Brasiliense (DF), Vila Nova (GO), Bragantino (SP), Duque de Caxias (RJ)...

4 - Com a oposição limitada, presa ou exilada, a ditadura pôde implantar sem contestação seu modelo de desenvolvimento, caracterizado pela concentração de renda - característica que, conforme Furtado, foi mais danosa para o Nordeste, região necessitada de maior distribuição de renda.

5 - O debate sobre a desigualdade regional, com as consequentes reivindicações para reduzi-la, foi sufocado durante os 21 anos da ditadura. Nunca mais foi retomado - nem mesmo após o período da redemocratização - com o vigor de antes. O resultado é que, apesar do inegável crescimento que a região teve nos últimos 45 anos, a desigualdade mantém-se com incômoda semelhança àquela do início dos anos 60. Os dados mais recentes do IBGE (alusivos a 2006), nos quadros ao lado, comprovam isso. Anotem aí: o Nordeste continua com o pior PIB per capita do Brasil, R%$ 6.029. Valor equivalente a apenas 16% do melhor PIB per capita do Brasil (o de Brasília), a 35,6% do PIB per capita do Sudeste e a 47,5% do PIB per capita brasileiro. O que isso significa? Deixemos que o professor Francisco de Oliveira, com sua experiência e credibilidade responda: "Não temos uma federação, é impossível tê-la com esse desequilíbrio. E esse não é um problema do Nordeste, é do Brasil".

6 - Houve um desmonte de toda a política social em curso na região, como o programa de alfabetização idealizado por Paulo Freire, e foram extintas organizações que haviam se tornado exemplo nacional, como o MCP (Movimento de Cultura Popular). "Ali se estava construindo uma sociedade que ganhava musculatura social, gestava-se um projeto de reforma que ia modernizar e democratizar o estado brasileiro. E isso foi abortado", afirma a economista Maria da Conceição Tavares.

7 - Esse rosário de mazelas não quer dizer que o Nordeste não cresceu. Iindustrializou-se, ganhou uma potente rede turística, teve o seu parque agroindustrial modernizado e sua economia recebeu uma injeção de dinamismo. Mas a agenda social e a do desequilíbrio regional ficaram praticamente intocadas - estão hoje ainda vivas e resistentes. "O Nordeste que a ditadura forjou é uma mistura de velho e novo Nordeste", diz o historiador Denis Bernardes (UFPE), no ensaio "Notas sobre a formação social do Nordeste" (2007)

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"Região pagou o pato"

O sociólogo Francisco de Oliveira estava no olho do furacão em 1964. Era superintendente-adjunto da Sudene. Acompanhou por dentro as lutas da época, ao lado do amigo Celso Furtado. Mora hoje em São Paulo, onde seguiu carreira como escritor e professor - aposentou-se como professor titular de Sociologia da USP. Tem a mesma opinião de Furtado sobre o fato de o Nordeste ter sido o mais prejudicado pelo golpe. "A região estava num processo de transformação muito interessante, e o golpe abateu-se sobre as forças que estavam fazendo a mudança: as Ligas Camponesas, a própria Sudene, a Igreja, governos estaduais", argumenta ele. "O golpe não foi um movimento feito a partir do Nordeste nem muito menos pelo Nordeste. Era um conflito já no Sudeste, em São Paulo sobretudo, devido ao novo papel das multinacionais. Mas o Nordeste pagou o pato".

A própria burguesia nordestina acabou sendo tragada pela situação que ajudou a criar. "Ela apoiou o golpe descaradamente, mas foi destruída como classe. Não existe hoje. Classes dominantes do Nordeste, as antigas, não há nenhuma hoje", afirma ele. "Você quando liquida o adversário, está-se auto-liquidando. Aquela burguesia não tinha se dado conta que a Sudene era sua salvação". O crescimento econômico da região deu-se sem nenhuma reforma, avalia o professor. "A situação na região melhorou em parte porque as pessoas foram para a cidade. Por pior que sejam as cidades, e elas são péssimas, a situação aí muda de configuração. Depois, os governos são obrigados a fazer nelas algumas obras, hospital, educação", completa ele. "Só o fato de ter água encanada já reduz a mortalidade infantil em 50%".

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Golpe prejudicou mais o Nordeste

A partir de análise de Celso Furtado, último dia da série sobre Francisco Julião conta por que os efeitos da ditadura foram mais danosos na região
Vandeck Santiago
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Para o Nordeste, o que se seguiu ao golpe militar de 1964 nunca foi uma "ditadura envergonhada" nem muito menos uma "ditabranda", expressões que nos últimos anos têm sido utilizadas para definir uma suposta face "flexível" do regime militar ou de fases dele.

Desde os seus primeiros dias o golpe no Nordeste afastou dos governos, repartições, instituições e entidades de classe aqueles nomes considerados "subversivos", como Francisco Julião; fechou organizações, como as Ligas Camponesas e o MCP (Movimento de Cultura Popular), e prendeu, torturou e matou adversários do novo regime. Além disso, truncou todo um processo de desenvolvimento econômico e social que vinha sendo efetuado na região.

"A região de maior atraso social era o Nordeste. E o atraso aumentou ainda mais"
Celso Furtado - Economista

"O Nordeste foi a região mais prejudicada pelo golpe", afirmou décadas depois a pessoa que mais credibilidade tinha para dizer isso: Celso Furtado. "A região do país que havia acumulado maior atraso social era o Nordeste. O atraso aumentou ainda mais com a mudança.O movimento de 1964 passou desapercebido em várias partes do país. Foi um golpe a mais, mesmo em São Paulo houve atendimento de certos interesses econômicos e a região se acomodou". Furtado -- que fora superintendente da Sudene, afastado pelo golpe -- fez esta afirmação em entrevista de 2004. Reproduzia o que já escrevera em um dos livros de suas memórias, A Fantasia Desfeita, de 1982. A singularidade dos prejuízos do Nordeste com o golpe é compartilhada por outros integrantes da elite intelectual brasileira, como o sociólogo Octavio Ianni, a economista Maria da Conceição Tavares e o economista e sociólogo Francisco de Oliveira (veja entrevista abaixo).

"Sob vários aspectos, a Questão Nordeste foi posta de uma forma direta, clara e brutal em 1964", considerou Octavio Ianni em análise sobre a região (A sociologia crítica de Octavio Ianni: uma homenagem, 2005). "A ditadura instalada no País elegeu o Nordeste como uma região particularmente importante, perigosa, na qual desencadeou uma repressão política selvagem". Exemplos não faltam para confirmar a tese. Os primeiros desaparecidos políticos da ditadura são dois camponeses das Ligas Camponesas de Sapé (PB): Nego Fuba e Pedro Fazendeiro. Eles haviam sido presos na Paraíba, foram soltos em setembro de 1964 - e nunca mais foram vistos. Em Vitória de Santo Antão (PE) outra ativista das Ligas, a professora primária Maria Celeste Vidal, liderou a tomada da emissora de rádio local e fez apelos para que o povo resistisse ao golpe. Foi presa e torturada, num dos primeiros casos de tortura do novo regime.

Nos arquivos deixados pela advogada de presos políticos Mércia Albuquerque (falecida em 2003) há um relato inédito sobre o caso: "[Maria Celeste] foi presa no dia 10 de abril, conduzida na carroceria de um caminhão onde foi estuprada várias vezes".

Na prisão , segundo o mesmo relato de Mércia, que defendeu quase todos os presos políticos de Pernambuco, ela "teve as partes pudendas queimadas com pontas de cigarro, as coxas perfuradas com agulhas de crochet. Quando fui visitá-la acabava de ser esbofeteada" . Em outro texto do arquivo há nova referência a Maria Celeste (morta em 1998): "Foi uma das mulheres mais torturadas. Teve muita coragem. Enfrentou tudo com dignidade". Depois do AI-5, em 1968, a ditadura recrudesceu e a repressão mais violenta verificou-se no Sudeste. Neste período a reação ao autoritarismo no Nordeste já fora abafada.

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(Francisco Julião) O escritor que poderia ter sido

Literatura // Penúltimo dia da série sobre Francisco Julião mostra como militância encerrou precocemente a carreira literária dele
Vandeck Santiago
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A militância política de Francisco Julião sufocou uma vocação dele que, saudada por críticos e escritores nacionais nos anos 1950/1960, hoje é praticamente desconhecida - a de escritor de ficção. São de sua autoria dois livros no gênero: Cachaça, de contos, lançado em 1951 (quatro anos antes do movimento das Ligas), e Irmão Juazeiro, romance, de 1961. As obras receberam elogios de nomes como Gilberto Freyre, Fábio Lucas e Roberto Simões.

A julgar pelos comentários, tudo indicava que a literatura regional iria ganhar um novo integrante de destaque - ele chegou a ser comparado a José Lins do Rego. Mas Julião não tornou a escrever ficção. Foi preso, exilou-se, voltou - e nada. Caiu no esquecimento. "A história parece ter olvidado a contribuição do escritor Julião, que lançou seu primeiro livro bem antes de tornar-se o conhecido líder político popular", afirma Marcelo Ridenti no livro Em busca do povo brasileiro - artistas da revolução, do CPC à era daTV (Record, 2000).

O escritor Claudio Aguiar, que está concluindo uma biografia de Julião, na qual vem trabalhando há seis anos, tem uma explicação para o caso: "Hiatos nas recepções de certas obras literárias fazem parte da própria história de cada autor e da literatura". Isso não significa que o autor esteja condenado ao desaparecimento para sempre. "Obras aparentemente esquecidas hoje", argumenta Aguiar, que é autor de um festejado romance (Caldeirão, de 1982) e tem uma carreira marcada pelo elogio da crítica, "poderão ressurgir com força amanhã e permanecerem, assim como outras, sem lastro estético no tempo e no espaço, mesmo fazendo muito sucesso por ocasião de seu aparecimento, desaparecem e jamais retornarão às futuras gerações de leitores". Dá o exemplo da coletânea de contos Cachaça, que foi reeditada pela Editora Universitária da UFPE em 2005 - sinal, na visão de Aguiar, da "sobrevivência literária" da obra: "A meu ver, este foi um dos melhores livros de contos aparecidos na década de 1950".

A sugestão do título e o prefácio de Cachaça foram do sociólogo Gilberto Freyre. "Não é comum encontrarem-se contos assim entre os muitos que hoje escrevem e publicam no Brasil", diz Freyre. "No sr. Francisco Julião talvez esteja surgindo alguém capaz de dar ao conto brasileiro, ou regional, novo interesse, nova atração, novo sabor".

Em 1962, comentando Irmão Juazeiro para a prestigiada Revista Brasiliense (edição nº 41, de 1962), o crítico Roberto Simões o considera como "o primeiro romance realmente ruralista do Brasil". Diz que a experiência de Julião com os camponeses "municiou o romancista de um tema fibroso, que gera ânsias e inquietações".

Os contos de Cachaça versam sobre o vício do alcoolismo entre as populações rurais; já Irmão Juazeiro aborda os conflitos humanos na zona rural. Mas não são obras de proselitismo, como nota o crítico Fábio Lucas, em O caráter social da ficção no Brasil (Ática, 1985): "Interessante observar que as teses de Irmão Juazeiro não são radicais nem se apresentam com traços demagógicos exagerados, ou utópicos como em tantas outras obras de inspiração socialista".

Julião é autor de Que são Ligas Camponesas? (1962); Até quarta, Isabela (1964) e Cambão - A face oculta do Brasil (publicado originalmente no México em 1968 e que teve a primeira edição no Brasil lançada no último dia 10, no Recife, em homenagem aos 10 anos da morte dele). Escreveu também cartilhas para o movimento camponês e é autor do Hino do Camponês, musicado pelo maestro pernambucano Geraldo Menucci e que era cantado pelos integrantes das Ligas nas manifestações. Até quarta, Isabela foi a única obra redigida na prisão durante o regime militar. Julião a escreveu em forma de carta para a filha, que tinha nascido em maio de 64 e seria levada para visitá-lo pela primeira vez numa quarta-feira. Num dos trechos, ao falar "de uma criança morta de fome ou de um velho abandonado feito trapo, nas ruas", ele afirma que se a filha um dia lhe perguntasse "Que fizeste, papai?", responderia: "Clamei por toda a parte. Agitei, sacudi,dei tudo que tinha de mais caro: a mocidade, o sossego, o ócio, os bens materiais e a liberdade, para ajudar a abolir esta servidão". Izabela (com z, diferente do que grafa o livro) mora hoje no Rio. É filha de Regina Castro, a segunda mulher de Julião.

A ideia do escritor que poderia ter sido e não foi perseguiu Julião a vida inteira. "Pensei em escrever os romances ou novelas que poderia ter escrito e não o fiz porque a realidade quis diferente", diz ele em Até quarta, Isabela, num lamento que repetiria ao longo dos anos.

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14 julho, 2009

Entrevista // Claudio Aguiar

Escritor Claudio Aguiar, no Rio de Janeiro: biografia de Julião deve sair até o fim do ano. Foto: Claudio Aguiar/Arquivo Pessoal


"Ele foi o Nabuco dos camponeses"

O escritor Claudio Aguiar está concluindo as últimas páginas de uma biografia na qual vem trabalhando há mais de seis anos - a de Francisco Julião. Com mais de uma dezena de prêmios literários na carreira, Aguiar é cearense, viveu em Pernambuco e hoje mora no Rio de Janeiro, onde nos concedeu a entrevista abaixo (a primeira que dá sobre o assunto). Formado em Direito pela UFPE, fez doutorado na Universidade de Salamanca (Espanha) e é autor de uma obra de 13 títulos, como Caldeirão, lançado em 1982 e que lhe valeu elogios de críticos e escritores, como Wilson Martins e Jorge Amado. Entre 1962 e 1964, Aguiar foi chefe no Recife da sucursal do jornal das Ligas Camponesas ("Liga"), criado por Julião. Conheceu o movimento e seu biografado na intimidade:

O que é esta biografia e quando ela será lançada?

O livro Francisco Julião: Uma biografia talvez seja editado ainda este ano. Há mais de seis anos venho trabalhando nele, mas é um projeto pensado desde o ano da morte de Julião, em 1999. A principal imagem resultante do retrato final que fiz de Francisco Julião é a de um revolucionário utópico. Ele foi um revolucionário não no sentido pragmático, isto é, aquele que toma as armas em suas mãos e parte para o confronto com o afã de mudar a realidade social de seu tempo. Suas ações, nitidamente marcadas pela utopia - e também um certo tom místico -, abraçadas durante toda a vida, concentraram-se no trabalho sem descanso pela redenção dos camponeses. Nesse sentido, quando vemos a figura de Julião num contexto histórico, é forçoso admitir que ninguém se parece mais com Joaquim Nabuco (1849-1910) do que ele.

Que semelhanças o senhor vê entre eles?

Ambos têm origem no mesmo berço ou cenário do heroísmo pernambucano; ambos nasceram de famílias de senhores proprietários de terras e renunciaram à vida tranqüila que essa herança poderia lhes dar; ambos estudaram direito e se transformaram em grandes advogados e oradores memoráveis; ambos foram escritores de talento; ambos exerceram a política com honestidade e dignidade patriótica irrepreensíveis; ambos defenderam causas profundamente humanas: Nabuco, a liberdade do negro escravizado ao trabalho aviltante; Julião, a liberdade do camponês "escravizado" ao trabalho da terra alheia, isto é, do senhor. Há, porém, uma grande diferença entre eles: Nabuco conseguiu comemorar a vitória de sua causa, enquanto Julião, em seu tempo, amargou a derrota de seu projeto, embora montado no cavalo da História, porque penso que a redenção do Brasil virá no dia em que não tenhamos o uso da terra como o maior entrave ao desenvolvimento brasileiro.

Que contribuição o "revolucionário utópico" Francisco Julião deixou?

A grande contribuição dele foi criar um clima de conscientização sobre o problema agrário nacional. Dessa conscientização surgiu uma política pragmática do governo, entendida como resposta à retórica de Julião, que terminou criando o salário mínimo e outras vantagens legais para os trabalhadores do campo, como, por exemplo, a sindicalização rural e, mais tarde, a previdência rural etc. Se não fosse esse movimento, a situação do trabalhador rural brasileiro, ainda hoje, estaria bem pior.

A idéia da criação do jornal das Ligas foi de Julião?

O jornal "Liga" foi criado por Julião para dar sustentação política e ideológica ao movimento camponês. Era um hebdomadário, com circulação nacional, vendido em bancas, no formato tradicional, diagramado em seis colunas, impresso em preto e branco, sempre trazendo na primeira página manchetes "quentes" sobre o movimento camponês. Curiosamente era rodado nas rotativas da Tribuna da Imprensa (RJ), de Carlos Lacerda, grande inimigo do movimento camponês.

Como era trabalhar no jornal?

Recordo de vários episódios, mas citemos apenas um. Certa vez tive que cobrir alguns acontecimentos em També - cidade limitada por uma rua com Pedra de Fogo, na Paraíba -, numa época em que os senhores proprietários de terra ameaçavam reagir com armas nas mãos às iniciativas dos líderes que atuavam ali: o estudante Jeremias e o acadêmico de Direito Joel Câmara, ambos meus amigos. Numa tarde, quando cobria algumas ações dos camponeses, eu e Joel fomos cercados no terreiro de uma casa-grande. Joel, num lance de rápida observação, notou que aqueles homens nos espreitavam ameaçadoramente. Diante do perigo iminente, alertou aos presentes que ele estava ali acompanhado de um repórter do jornal "Liga", com sede no Rio de Janeiro, e, se por acaso, acontecesse algo a nós, de imediato todo o Brasil tomaria conhecimento. A seguir, o clima mudou e inclusive fomos convidados para a sala-de-estar da casa-grande e nos serviram um gostoso café. Três dias depois, na mesma região, vários camponeses foram emboscados e assassinados no mesmo caminho por onde, a pé, fizéramos a caminhada até a casa-grande. Entre os mortos estava o meu amigoJeremias [codinome do trotskista Paulo Roberto Pinto, que viera de São Paulo para atuar na zona canavieira. O crime ocorreu em agosto de 1963]. Todos foram atingidos com balaços pelas costas. A perícia constatou que os calibres pertenciam a armas privativas das Forças Armadas. O promotor público Murilo Barbosa, por denunciar tal circunstância nos autos do inquérito, foi preso e cassado logo após o Golpe Militar de 1964.

Como o senhor conheceu Julião?

Por acaso, em fins de janeiro de 1962, no Recife. Curiosamente, no dia em que o governo Cid Sampaio rompia sua aliança com a Frente do Recife e a polícia política invadia o escritório do jornal Folha do Povo, empastelando tudo. Eu fora ali falar com David Capistrano, quando, de repente, Julião chegou para, na condição de deputado, vistoriar in loco a ação policial. Fizemos, a partir de então, uma boa amizade e me vinculei ao movimento. Nosso relacionamento, ao longo de 37 anos, sempre foi o melhor possível, mesmo durante as fases mais difíceis de sua vida - a resistência logo após o Golpe Militar, a prisão, o exílio, seu retorno ao Brasil e retorno voluntário ao México, onde morreu. Nossa amizade era alimentada pelo mútuo respeito intelectual e pela admiração que eu mantinha por sua conduta de homem público, honesto, patriota e, sobretudo, pela sua incondicional dedicação à causa em defesa dos trabalhadores rurais brasileiros.

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Memórias inéditas estão no México

Francisco de Oliveira datilografou último livro do amigo Julião. Foto: Raimundo Paccó/Folha Imagem

Descobertas // No segundo dia da série sobre Francisco Julião, reportagem traz revelações sobre obras que ele escreveu no México
Vandeck Santiago
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A última mulher de Francisco Julião, a mexicana Marta Rosas Julião, guarda as memórias inéditas que ele vinha escrevendo havia anos. Em entrevista ao Diario por telefone, do México, onde vive, ela disse que "ainda não é hora" para a publicação dos textos. "Ainda não chegamos ao momento em que ele seja compreendido", afirmou.

Julião acordava cedo, fazia o café da manhã (tarefa que tinha prazer em cumprir, segundo Marta) e começava a escrever. "Muita coisa ele escrevia, lia e rasgava. Lia e rasgava, lia e rasgava", conta ela. "Às vezes, enquanto estava escrevendo, dava grandes gargalhadas". O casal vivia em Tepoztlán, pequena cidade do México, a 90 quilômetros da capital. "Nós líamos poesias juntos. Ele me conquistou com um poema", diz ela. Diante da insistência do repórter em obter mais informações sobre ele, Marta recitou os últimos versos do poema Elegia nº 2, do pernambucano Mauro Mota (1911-1984), poeta que diz ter aprendido a gostar por influência de Julião: "Que palidez na face! Inutilmente / busco abraçar-te. Foges, que és somente / sombra, perfume, ressonância, imagem". E a conversa - reveladora e simpática, porém breve - encerrou-se por aí.

Na trilha de Julião fizemos outra descoberta, agora em São Paulo. Em 1968, quando estava exilado no México e casado com sua segunda mulher, Regina Castro (com quem teve a filha Izabela, em 1964, que mora hoje no Rio), Julião publicou lá uma espécie de embrião de suas memórias, no calor do exílio: Cambão: La Cara Oculta de Brasil (1968). Em São Paulo encontramos o amigo que datilografou as cerca de 300 páginas da obra e debateu com ele o conteúdo - é o hoje economista e sociólogo Francisco de Oliveira, professor titular aposentado da USP e um dos principais representantes do pensamento de esquerda no Brasil. Quando os dois se encontravam, a conversa era de Chico para Chico, termos com os quais se tratavam. Chico de Oliveira trabalhava na capital, Cidade do México, e Chico Julião morava em Cuernavaca, a cercade 75 quilômetros de distância.

"Fui muito amigo dele. A gente se via todas as semanas", conta Chico, o de Oliveira, que também é pernambucano e foi superintendente-adjunto da Sudene antes do golpe militar. "A gente ia para um lugar na casa dele, ficávamos observando o horizonte, ele olhava para uma certa direção e dizia: 'Por ali é o Nordeste'". Julião escrevia à mão e não sabia datilografar. "Eu tive a honra de bater à máquina o primeiro texto de Cambão", torna Chico. "Izabela [a filha de Julião] era bem novinha, ficava correndo por entre as pernas da gente. É um livro que nunca vi depois de publicado, infelizmente. Relata a vida do camponês e tem lances de muita dramaticidade. Camponês se suicidando cortando a barriga, quase como japonês#". [Cambão foi traduzido para 16 idiomas. Sua primeira edição no Brasil saiu apenas na última sexta-feira, por uma editora pernambucana, Bagaço.]

O repórter pergunta se ele demonstrava alguma amargura no exílio. "De jeito nenhum", retruca Chico, no seu estilo de mal deixar a pergunta acabar para já ir respondendo. "Era um homem brincalhão, conversador de primeira. Se você quisesse passava o dia conversando potoca com ele. Era um homem muito bem humorado, afável, cordial". Professor, agora falando como sociólogo, o senhor acha que as Ligas Camponesas, com Julião à frente, radicalizaram demais? "Radicalizaram de menos", garante Chico. "O Brasil era um país de latifundiários. Foram as Ligas que trouxeram os camponeses para a agenda política brasileira. O caminho que ele achou para intervir tinha de ser muito radical mesmo, porque a estrutura brasileira não acolhia nenhuma demanda dos camponeses. Eles, que não tinham voz nem voto, tornaram-se um ator social de primeira. Esse trabalho é claro que não foi o Chico só quem fez, mas em grande medida deveu-se à sua atuação". E a conversa do repórter com este outro Chico - reveladora, simpática e felizmente longa - encerrou-se por aí.

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Comunista no campo

Epitácio Ferreira andava de engenho em engenho puxando conversa. Cumpria tarefa partidária. Procurava encontrar outros camponeses com quem o PCR pudesse iniciar uma aproximação - aqueles que aparentassem uma personalidade mais rebelde e sensibilidade para uma possível aceitação das teses do partido. "Eu primeiro tinha que ver a tendência do povo, né?", recorda hoje, aos 80 anos. Para disfarçar as andanças, Epitácio se passava por vendedor de perfumes. Nessa condição, distribuía panfletos contra a ditadura no campo e nas cidades. "Eu deixava os panfletos nas porteiras dos engenhos, nas pontas de ruas. O povo passava e pegava", diz ele.

Durante a ditadura chegou a abrigar em casa o próprio Manoel Lisboa, maior liderança do PCR e homem a quem a ditadura adoraria pôr as mãos. A quem tivesse curiosidade sobre aquele rapaz, que não parecia camponês, Epitácio desconversava: "É meu sobrinho". Outro dirigente do partido, Amaro Luiz de Carvalho, o "Capivara", por várias vezes também escondeu-se da polícia em sua casa. Os dois se conheciam desde a adolescência.

Sua militância começou cedo. "Eu fiz o curso Stálin em 1954", recorda, citando um curso de formação de militantes do PCB. Em 1962 um setor das Ligas, do qual fazia parte Clodomir Morais e Amaro, optou pela luta armada (à revelia de Julião, que era contrário à decisão). A ideia era criar oito dispositivos de guerrilha, um deles em São João dos Patos (MA) - Epitácio foi para lá, seguindo Amaro. A opção militar das Ligas acabou desbaratada pelas Forças Armadas. Epitácio fugiu do Maranhão para Pernambuco em cima de um caminhão de arroz. Em sua militância, nunca foi preso; em compensação, diz que várias vezes teve que largar o emprego e fugir - deixando para trás benefícios a receber: "Se eu ficasse, seria preso".

"Minha quizília era a ditadura"

José Nivaldo Jr. é hoje um bem- sucedido publicitário, bacharel em Direito, mestre em História e diretor da Makplan, agência que fez o marketing político das campanhas de Leonel Brizola a presidente (1989), Eduardo Suplicy a senador por São Paulo (1998), João Paulo a prefeito do Recife (2000) e Paulo Maluf a prefeito de São Paulo (2004), entre outras. Entre 1971 e 1973 ele teve participação na luta clandestina
contra a ditadura em Pernambuco, época em que tinha os codinomes "Hilário" (por estar sempre bem humorado) e "Alfinete", por ser magro, duas características que mantém ainda hoje. "Eu nunca fui comunista", diz ele, em entrevista ao Diario. "Mas nunca deixei de sê-lo".

Foi amigo de Manoel Lisboa, a quem deu carona algumas vezes em viagens para a Zona da Mata. "Ele tinha uma admiração quase mítica pelos camponeses. Era no campo que ele imaginava instalar a guerrilha", conta José Nivaldo, que era então estudante de Direito e professor de cursinho. Em 1973 o PCR executou uma ousada investida na Base Aérea do Recife, para pegar armas. Precisou de um motorista. José Nivaldo aceitou a tarefa. Acabou preso mais tarde, e torturado. Passou quase dois anos na cadeia. "Se o tempo pudesse voltar, nas mesmas circunstâncias faria tudo outra vez", escreveu ele em um texto de homenagem a Manoel Lisboa, ano passado.

José Nivaldo nunca foi militante do PCR ou de qualquer outra organização de esquerda. Juntamente com o amigo Leonardo Cavalcanti fundou o agrupamento PND - Partido de Nós Dois, que definiam como "armorial e esquerdista". Não seguiam orientação de nenhum partido, mas faziam alianças com diversos grupos clandestinos. "Minha quizília era a ditadura. Eu queria lutar contra a ditadura", afirma. Quase 40 anos depois, ele avalia a luta armada de forma positiva, como "uma circunstância necessária, que exacerbou as contradições da ditadura".

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Antes e depois do golpe, a luta armada

Terceiro dia da série sobre Francisco Julião mostra efeitos da radicalização da luta no campo
Vandeck Santiago
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Dois anos depois do golpe militar de 1964, camponeses das Ligas e militantes universitários fundaram em Pernambuco um partido comunista que defendia a luta armada e considerava que a revolução brasileira deveria ser desencadeada a partir do Nordeste.

Era o PCR, Partido Comunista Revolucionário, uma cisão do PCdoB. Compraram um sítio (o "Borboleta") em Água Preta, na Zona da Mata, com a intenção de torná-lo um local para treinamento dos militantes. Defendiam uma guerrilha sob a tática celebrizada pela Revolução Chinesa de 1949: "cercar a cidade pelo campo". No caso, a "cidade" seriam as áreas mais industrializadas do país, localizadas no Sudeste; e "campo" seriam as áreas menos desenvolvidas, como o Nordeste.

Para contar esta história a reportagem localizou um camponês que participou das atividades do partido na época (Epitácio Afonso Ferreira, de Joaquim Nabuco, Zona da Mata); consultou documentos no arquivo do Dops e entrevistou um dirigente nacional da fase atual do partido (o sociólogo Edival Nunes da Silva, Cajá) e um simpatizante que foi preso pela ditadura acusado de participar de uma ação armada em 1973 - o hoje publicitário José Nivaldo Jr.

Há pelo menos duas singularidades na história de criação do PCR. Primeira, a da regionalização da sua estratégia - foi a primeira agremiação política de esquerda a optar pela prioridade revolucionária no Nordeste; segunda, a participação de camponeses entre os dirigentes. Em maio de 1966 o partido lançou a "Carta de 12 pontos aos comunistas revolucionários", escrito por um antigo militante comunista das Ligas, Amaro Luiz de Carvalho, conhecido como "Capivara", e por Manoel Lisboa, estudante de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). No item 4 da "Carta" está a justificativa da opção pela revolução a partir do Nordeste. "Aonde se manifesta de modo mais agudo a contradição entre o imperialismo norte-americano e nosso povo? Nossa resposta é o Nordeste", afirma o texto. "Nessas condições o Nordeste éa região mais explorada do país e o seu desenvolvimento teria como consequência a perda de um mercado e de uma fonte de matérias primas".

Todos mortos - "Nós fazemos questão de cultuar a memória desses companheiros. Eles são heróis da causa revolucionária", afirma Cajá, integrante e porta-voz do comitê central do partido. O PCR foi reorganizado em 1995. Não tem mais o foco regional da "Carta dos 12 pontos", está agora organizado em todas as regiões do país e continua defendendo a revolução. "A emancipação do povo não acontecerá pela via parlamentar. Somos defensores da teoria marxista-leninista da luta armada", diz Cajá, que conversou com a reportagem na sede do Centro Cultural Manoel Lisboa, no Recife, onde a lembrança dos "heróis da causa revolucionária" está por todos os cantos. Como em dois quadros na parede: em um deles aparecem dois antigos militantes das Ligas ("Capivara", e Manoel Aleixo, o "Ventania") e os líderes estudantis Emmanuel Bezerra e Manoel Lisboa de Moura - este, o principal dirigente doPCR. Ao lado, em outra parede , um segundo quadro retrata um terceiro camponês do Partido, Amaro Félix.

Um episódio da história do Partido liga Cajá diretamente a Manoel Aleixo, chamado de "Ventania" pela rapidez com que realizava suas tarefas. Era conhecido também por ser um grande cantador de coco. Em 1973 foi preso e submetido a torturas. Tinha um encontro - chamado de "ponto", no jargão das organizações de esquerda - com um integrante do partido na igreja de Ribeirão (Zona da Mata). Cajá foi a pessoa designada para o encontro. "Era o dia 6 se setembro de 1973. Entrei na igreja e não havia ninguém. Pensei que a polícia tivesse descoberto tudo e que eu fosse ser preso. Mas a polícia também não estava lá. Ou seja: 'Ventania' enfrentou a tortura com dignidade, não entregou ninguém", relembra Cajá. O camponês é um dos nomes que constam da lista de desaparecidos políticos. Cajá seria preso anos depois, em 12 de maio de 1978, quando trabalhava sob orientação do arcebispo D. Helder Câmara, na Comissão de Justiçae Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife. A acusação: tentar reorganizar o PCR. Foi solto em 1 de julho de 1979, depois de uma ampla mobilização nacional.

Amaro Luiz de Carvalho, o "Capivara", foi preso em novembro de 1969. "Acabou a subversão em Pernambuco", comemorou o secretário de Segurança de Pernambuco ao anunciar a prisão. Do grupo do PCR era o de maior experiência de luta armada. Fizera treinamento político e militar em Cuba e na China. Ainda no tempo das Ligas, integrara o grupo do movimento que em 1963 tentou montar a guerrilha no país (veja matéria ao lado). Faltando dois meses para ser libertado, foi morto na Casa de Detenção no Recife, em 1971. Emmanuel e Manoel Lisboa foram presos em agosto de 1973 e mortos sob tortura.

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13 julho, 2009

Político e revolucionário russo: Lênin (Vladimir Illitch Ulianov)

22/4/1870, Simbirsk, hoje Ulianov, Rússia
21/1/1924, Gorki, perto de Moscou, Rússia.

Da Página 3 Pedagogia e Comunicação

Lênin era filho de Ilia Ulianov, um alto funcionário do governo russo, quase um membro da nobreza. Sua origem familiar, tanto pelo lado paterno quanto materno, foi sempre um grande embaraço aos biógrafos da Rússia pós-Revolução Soviética, pois além da posição social, o fundador da União Soviética tinha ascendência de mongóis e judeus.

Durante a adolescência, orgulhava-se das suas origens nobres, segundo o historiador Orlando Figes, da Universidade de Cambridge, um dos maiores estudiosos da história da Rússia. Somente com a execução do irmão Alexandre - envolvido em um grupo terrorista que tentou assassinar o czar - foi despertada a ira de Vladimir Ulianov contra o regime autocrático em seu país.

Sua atividade revolucionária teve início na década de 1890, quando formou um grupo marxista em São Petersburgo (depois Petrogrado), no qual conheceu Nadejda Krupskaya, que viria a se tornar sua esposa. A tarefa que Lênin tomou para si, inicialmente, foi adaptar a teoria marxista do século 19 à realidade russa do século 20 e provar que - ao contrário das teses de Marx - uma revolução comunista era possível também num país como a Rússia, onde o capitalismo mal dava seus primeiros passos.

Além disso, propôs a tese do "centralismo democrático", segundo a qual os marxistas podem discutir livremente entre si antes de agir, mas, na hora da ação, sua obrigação é obedecer, com disciplina militar, à liderança partidária.

Eram vários os grupos revolucionários que atuavam na Rússia no início do século 20. Lênin tentou promover a união dos marxistas russos, mas suas posições duras e radicais acabaram por dividir o Partido Social Democrata Russo em duas facções, o grupo menchevique, de caráter mais moderado, e o grupo bolchevique, leninista e radical.

A chamada revolução russa, de 1917, aconteceu em meio à Primeira Guerra Mundial, da qual a Rússia participava e de maneira desastrosa. Esse foi o grande estopim do descontentamento popular contra o governo czarista, que viu seus próprios soldados se voltarem contra si. Foram os jovens soldados, mais do que os camponeses e operários, que promoveram a revolução democrática de março de 1917, que acabou levando ao poder o líder menchevique Alexander Kerensky, que, sob o título de Ministro-presidente, proclamou a República na Rússia.

O governo provisório de Kerensky, no entanto, não retirou o país da guerra, de modo que ele permaneceu num estado anárquico, marcado pela disputa de poder entre os sovietes (conselhos populares), pelas greves, pelas manifestações de protesto e pelos motins dos soldados. Nessa atmosfera, Lênin e seus partidários, Stálin e Trotsky, reivindicavam "todo o poder aos sovietes "e comandaram uma insurreição que depôs Kerensky e elegeu o primeiro governo soviético, constituído exclusivamente por bolcheviques.

Era o início da ditadura de um partido único, que esmagaria com violência qualquer oposição. Para isso, Lênin criou a Tcheka - uma polícia política secreta, cujos espiões não só tinham plenos poderes como deles usavam e abusavam.

O novo regime promoveu o armistício com a Alemanha, em março de 1918, mas a Rússia já se encontrava em estado de guerra civil, com os "brancos" (contra-revolucionários) enfrentando os "vermelhos". Para enfrentar a situação, Lênin instituiu o chamado "comunismo de guerra" (1918-1921), mas a situação só começou a se amenizar quando ele organizou a NEP (Nova Política Econômica), que marcou um retorno parcial à economia capitalista.

Em maio de 1922, Lênin foi acometido por uma crise de hemiplegia e teve de se afastar do poder, pelo qual competiam seus companheiros mais próximos, Stálin e Trotsky, adversários ideológicos e pessoais. Lênin morreu dois anos depois.

Atribuídos exclusivamente a seu sucessor, Stálin, pelos intelectuais ocidentais durante décadas, o caráter ditatorial e os crimes políticos do governo de Lênin só foram revelados (e ainda parcialmente) com o fim do regime soviético em 1991.

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Líder político e revolucionário russo: Leon Trotsky

07/11/1879, Yanovka, Ucrânia
21/08/1940, Cidade do México, México

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

Nascido em família de origem judaica, Lev Davidovich Bronstein, que mais tarde assumiria o nome de guerra de Leon Trotsky, foi preso pela primeira vez aos 18 anos, por seu envolvimento com grupos revolucionários. Passou dois anos em diversas cadeias czaristas.

Em 1900 casou-se com Alexandra Lvovna Sokolovska e foi deportado para a Sibéria. Dois anos depois fugiu e viajou para Londres, onde entrou em contato com Lênin e outros exilados russos. No mesmo ano conheceu Natalya Sedova, que se tornou sua companheira.

Trotsky voltou à Russia por ocasião de levante de operários de São Petersburgo, em 1905. No ano seguinte, foi preso novamente e deportado. Passou por diversos países, chegando finalmente aos Estados Unidos. Ali recebeu a noticia da revolução de fevereiro, que depôs o Czar e instalou um governo provisório na Rússia. Trotsky voltou a seu país, mas antes ficou detido por algum tempo no Canadá.

Quando chegou a Rússia, assumiu um papel ativo na organização de trabalhadores e soldados. No final de 1917, os bolcheviques, liderados por Lênin e Trotsky, deram um golpe de Estado e derrubaram o governo provisório, dando início ao que chamavam de "ditadura do proletariado" e criando uma República Soviética da Rússia.

De 1918 a 1921 Trotsky exerceu o cargo de Comissário do Povo para a Guerra, numa Rússia em guerra civil. Ao contrário do que gostam de admitir seus admiradores, foi um militar linha dura, que não hesitava em usar a violência contra inimigos ou supostos adversários. Esmagou com mão de ferro uma revolta de anarquistas na cidade de Kronstadt em 1921.

Em 1923 aprofundou-se a cisão entre ele e seu companheiro de partido Stalin, provocada pela ascendência deste na crescente burocracia partidária e por divergências políticas relacionadas aos rumos da revolução. Trotsky propugnava a expansão da revolução por outros países, enquanto Stálin formulava a doutrina do socialismo em um país único.

Com a morte de Lênin, em 21 de janeiro de 1924, começou a corrida pela sucessão. No Comitê Central do Partido Bolchevique, iniciou-se o processo de calúnia e difamação de Trotsky promovido por Stalin e seus principais aliados de ocasião, Kamenev e Zinoviev. Em 1925 Trotsky foi proibido de falar em público e em 1929 foi banido da União Soviética.

Ficou no exílio na Turquia até 1933, na França até 1935 e depois na Noruega até 1937. Finalmente, foi para o México, no dia 9 de janeiro de 1937. Nunca deixou de lado o ativismo político, propondo políticas revolucionárias que se opunham às desenvolvidas pelos partidos comunistas que gravitavam em torno da União Soviética em todo o mundo. Em 1938, escreveu o panfleto "Programa de Transição", que é o programa de fundação da 4a Internacional Comunista.

Stalin, porém, considerava a militância de Trotsky uma ameaça real a sua hegemonia sob o movimento comunista internacional. Assim, infiltrou um agente seu na residência mexicana de Trotsky, Ramón Mercader, que o matou a golpes de picareta em 1940. Mercader jamais assumiu ter agido a mando de Stalin.

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12 julho, 2009

Significado do movimento

Avaliação // Autor de livro clássico sobre as Ligas analisa para o Diario significado histórico e político do movimento


O primeiro trabalho acadêmico sobre as Ligas foi a dissertação de mestrado em sociologia de Fernando Antônio Azevedo, da UFPE, lançado em livro em 1982, com o título As Ligas Camponesas.

"O tema era um objeto de estudo ainda inexplorado, em boa parte por ser, naquele momento, em plena vigência da ditadura militar, um assunto ainda delicado do ponto de vista político", diz ele, em entrevista de São Paulo, onde mora hoje - é professor doutor na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e coordena o programa de pós-graduação em Ciência Política. Na avaliação que faz hoje do movimento, ele aponta "três papéis relevantes, pioneiros e antecipatórios" das Ligas:

Entrevista // Fernando Antônio Azevedo

"Ligas foram pioneiras e antecipatórias"

Quais foram estes papéis?

Primeiro, antes das Ligas os movimentos sociais no campo tiveram uma natureza messiânica ou um caráter limitado do ponto de vista político e geográfico e intermitente temporalmente. As Ligas foram a primeira organização que mobilizou e organizou de forma massiva os camponeses num amplo movimento social, incorporando-os, assim, ao processo político. Segundo, as Ligas criaram uma agenda política e social e deu visibilidade às demandas da massa rural. Ao fazer isso, colocaram no centro do debate nacional da época a questão da terra, o tema da reforma agrária que terminou polarizando as forças políticas e radicalizando as posições em jogo cujo resultado foi o golpe. Terceiro, foram um ator político que exerceu o seu protagonismo de forma independente e autônoma do Estado. Nesse sentido, as Ligas anteciparam movimentos como o MST, que atuam de forma autônoma e sem controle do Estado. Eu trato disso num texto que publiquei em 2006.

Este legado tem reconhecimento nacional hoje? Minha impressão é que, a despeito da importância que teve, as Ligas estão sendo abordadas agora como meras coadjuvantes da história, assunto de citação de pé de página...

Você tem razão. Mas deve-se lembrar que os movimentos rurais não têm hoje a mesma importância que tinham nos anos 60. Naquela quadra o Brasil ainda era um país com uma economia e uma população rural muito expressivas e com os camponeses e assalariados rurais à margem da legislação trabalhista e sindical e, portanto, vivendo numa situação de exclusão política e social. Além do mais, naquela época a política nacional era marcada por uma forte clivagem ideológica produzida pela guerra-fria. Hoje o cenário do Brasil é outro; mesmo levando em conta as diferenças regionais e as desigualdades sociais o país é essencialmente urbano, modernizado e o processo de incorporação e socialização política já foi historicamente realizado.

Quarenta anos depois, que análise o senhor faz do papel de Julião?

Julião teve um papel absolutamente central na formação edepois na condução das Ligas em suas diferentes fases. Organizou as primeiras Ligas atuando como advogado e usando o código civil para defender os parceiros e arrendatários que eram despojados da terra e da sua produção sem nenhum tipo de indenização. Mas Julião também usava o seu mandato de deputado estadual e depois federal para denunciar a situação no campo e buscar apoio e aliados para a causa. Este protagonismo se manteve mesmo quando as Ligas se espalharam pelo Brasil e se transformaram, em seus últimos anos, sob a influência de algumas correntes de esquerda que passaram a disputar a condução da organização, num movimento cada vez mais radical, de um partido agrário-revolucionário cujo modelo era a então recente revolução cubana.

O senhor vê as Ligas como antecessoras diretas do MST. Identifica nos ataques feitos hoje ao MST semelhanças com os ataques que eram feitos às Ligas?
As Ligas, a partir de 1962, radicalizam sua ação política e passam a adotar táticas de invasão e ocupação da terra como o MST e outros movimentos dissidentes fazem hoje. Nesse sentido, as Ligas anteciparam nesse aspecto tático o MST e recebeu as mesmas críticas que hoje são dirigidas ao Movimento dos Sem Terra, ou seja, de ferir o direito à propriedade, usar a violência como método de ação.

Se não tivesse havido o golpe militar, que papel estaria reservado às Ligas? Seriam extintas? Teriam se transformado em um partido de classe, como o PT nas suas origens?

Em meados de 1963 as lideranças das Ligas começaram a discutir a possibilidade de se transformar num partido agrário-revolucionário. Este seria provavelmente o caminho que as Ligas trilhariam caso não fossem extintas. Seria, portanto, um partido com uma interpelação de classe, mas diferente em vários aspectos do que viria a ser o PT, cuja origem foi essencialmente urbana e sindical e cuja trajetória política terminou se realizando tendo por base a aceitação dos valores da democracia representativa. Mas compartilharia com o PT dos primeiros tempos o fato de que nasceria debaixo para cima, fora do parlamento e com uma ideologia anti-sistema. Caso permanecesse como um movimento social, provavelmente assumiria um perfil assemelhado ao MST, representando os sem-terra, e nesse caso seu papel provavelmente seria de um coadjuvante radicalizado numa arena na qual a hegemonia seria dos sindicatos rurais. Essa última hipótese já estava se esboçando antes do golpe de 64 com o crescente esvaziamento das Ligas à medida que crescia a sindicalização rural.

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Julião, o último agitador do Brasil

Conflitos // "Porque sem agitação pobre não vai para a frente", dizia ele, justificando tática das Ligas Camponesas na luta pela reforma agrária

Vandeck Santiago
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No momento em que se discute no Brasil se a ditadura instaurada em 1964 foi "branda" ou "dura", o Diario inicia hoje uma série de reportagens que não deixa dúvidas sobre as consequências negativas do golpe militar.

O fio condutor é a celebração dos 10 anos da morte do líder das Ligas Camponesas, Francisco Julião, que morreu no México em 10 de julho de 1999. A história de Julião e das Ligas é indispensável para compreender não só o Nordeste, mas o Brasil daquele período. O contexto era de um país que esticava como nunca fizera antes os limites institucionais da democracia. A política não se fazia apenas no parlamento e largos setores da sociedade queriam ser ouvidos - como os camponeses. No plano internacional estávamos na Guerra Fria, com o mundo dividido entre Estados Unidos (temerosos de que o exemplo de Cuba encontrasse eco no continente) e a União Soviética. Por meio de entrevistas com estudiosos e remanescentes das Ligas, consultas a arquivos pessoais e do Dops e leitura dos trabalhos mais recentes sobre o assunto, a reportagem (que segue de hoje até sexta-feira) mostra como as lutas no campo refletiram a agitação desse tempo. Revela fatos novos e faz, 45 anos depois, a releitura do papel e do significado histórico de Julião e das Ligas.

Nenhum líder político do Brasil teve relação tão estreita e apaixonada com a agitação quanto o advogado pernambucano Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, criadas em 1955 e extintas em seguida ao golpe militar de 1964. Na história brasileira "agitação" sempre foi um termo proscrito. Mas Julião apropriou-se da palavra como quem ocupa a terra há muito desejada: tomou-a para si, retirou-lhe a carga preconceituosa, deu-lhe argumentação de defesa e fez dela sua principal tática de luta. Funcionou. As Ligas empurraram os camponeses para dentro da perfumada sala de estar da política nacional e nos deixaram um legado de pioneirismo e inovações.

"Porque sem agitação o pobre não vai para a frente", explicava Julião, em uma de suas repetidas defesa da tese. "Do mesmo modo que sem o sangue agitando as veias não há vida, e sem o vento agitando as árvores não há fruto". A pregação dele vinha embalada numa retórica radical ("Reforma agrária na lei ou na marra" era o lema das Ligas) e no rastro de uma série de atos do movimento, muitos realizados pela primeira vez - marchas do campo para a cidade, comícios, manifestos, protestos e resistência organizada contra despejos. Só em 1962, num espaço de três meses, eles realizaram 80 atos públicos no Nordeste.

Consciente ou intuitivamente, Julião adotou a tática ideal para a luta dos camponeses, naquele período (1955 em diante). Eles eram a categoria invisível da sociedade brasileira. Não tinham os direitos trabalhistas e previdenciários que já beneficiavam os trabalhadores urbanos desde os anos 40. Quando saíam nos jornais, a parte que lhes cabia era a página policial. O interesse que despertavam nos governos era proporcional à força eleitoral que possuíam - quase nenhuma, porque analfabeto não tinha direito a voto e analfabetos eram quase todos eles.

Como sair desse monturo de exclusão? Agitando, ora. No começo, conforme relata Julião, a luta foi para tirar o camponês da frente do delegado e colocá-lo na frente do juiz. Depois, pôr a reforma agrária na agenda nacional, com todas as consequências que isso traria -- obtiveram uma coisa e outra. Assim conseguiram ganhar uma força de pressão superior ao próprio tamanho da organização deles. O movimento destacou-se ainda por não aceitar ser tutelado nem pelo PCB (principal força de esquerda da época) nem pelos governos - Julião recusou convites neste sentido tanto de Luiz Carlos Prestes, dirigente máximo dos comunistas, quanto do presidente João Goulart.

Houve um momento em que, segundo autor da época, Julião tornou-se "o homem mais discutido do Brasil". Um integrante da Família Real brasileira, Dom João de Orleans e Bragança, doou terras que tinha no Rio de Janeiro -- e virou "O Julião da Coroa", nos jornais. Um deputado estadual do Amazonas iniciou luta em favor de trabalhadores do campo -- claro, foi chamado de "Julião da Amazônia". Numa piada publicada no Diario de Pernambuco dois homens observam a praia quando um deles afirma: "Julião deve estar aqui tomando banho". O outro pergunta: "Como é que você sabe?" E vem a resposta: "Veja como o mar está agitado".

A ação de Julião e das Ligas contraria o senso comum nacional, que vê agitação como sinônimo de instabilidade - e, portanto, algo a ser evitado. "O crime não está em agitar, mas em permanecer imóvel", afirmava ele. "Uma sociedade que não se agita é como um charco: suas instituições se estagnam e apodrecem". Podemos pensar que o argumento servia apenas para aquele momento e para aquele movimento, mas o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos (a propósito, integrantes das Ligas quando jovem em Minas Gerais) afirma, hoje, que há "instabilidades produtivas" - aquelas que levam a transformações de situações de injustiça. Para os mais pobres, afirma Wanderley ao Diario, "não há o que esperar da estabilidade, a não ser a perpetuação da rotina. E quanto mais tradição e consenso, como é o caso do Nordeste, mais danosa é a estabilidade".

Julião parecia saber disso, 45 anos atrás. Agitando esta bandeira, engajou-se na luta dos camponeses como quem atende a um chamado do destino."O título com que eu me contentaria em passar para a história de minha pátria", disse ele mais de uma vez, no fragor dos conflitos dos anos 60, "seria o de agitador social". Não há definição melhor para recordar sua memória.

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