04 outubro, 2009

Resistência forjada nos canaviais

Trabalhadores rurais comemoram 30 anos da greve dos canavieiros, que mobilizou cerca de 100 mil pessoas e garantiu vitórias expressivas para a categoria

Andrea Pinheiro
andreapinheiro.pe@diariosassociados.com.br

Quando se fala em greves no Brasil, as primeiras a serem lembradas são as dos metalúrgicos do ABC paulista, responsáveis por forjar a liderança sindical de Luiz Inácio Lula da Silva e a ascensão política dele à Presidência da República. Em Pernambuco, porém, eclodiu um dos primeiros movimentos grevistas no campo do país depois do golpe militar de 1964. Os canavieiros mobilizaram cerca de 100 mil trabalhadores rurais da Zona da Mata e conquistaram vitórias expressivas para a categoria, que sempre sobreviveu debaixo de muita repressão patronal e policial. Vitórias de outubro de 1979 que trazem repercussão até hoje às condições de trabalho do homem do campo do estado.

"Pode-se dizer que a greve dos canavieiros de 1979 representou para o Nordeste o que a greve do ABC foi para o Sudeste", compara o presidente estadual do PT, Jorge Perez, integrante do movimento sindical desde o final da década de 70. A marca da ditadura militar na população rural nordestina, especialmente de Pernambuco, era muito forte. A memória das Ligas Camponesas permanecia viva entre os patrões e os militares. Os sindicatos passaram por intervenções e a organização dos trabalhadores foi esvaziada - até que conseguiu se recompor no fim dos anos 70.

A greve foi uma ousadia dos canavieiros. "Nas cidades, por mais que existissem resquícios da ditadura, as greves estavam respaldadas pela imprensa, por organismos sociais. No campo, não. Para se ter uma ideia, a primeira greve nos canaviais de São Paulo só aconteceu em 1983", explica a historiadora Maria do Socorro de Abreu e Lima, da Universidade Federal de Pernambuco. Um dos motivos que levaram à minimização da greve pernambucana foi o fato de ela ter sido rigorosamente legal. Os trabalhadores cumpriram todas as exigências da Lei 4.330 de junho de 1964. "A legalidade não tira a legitimidade da greve. Foi uma escolha consciente para burlar a repressão. Seguiram o ritual burocrático exigido e foram bem-sucedidos na mobilização e no protesto",diz a historiadora.

O presidente da Federação dos Trabalhadores em Agricultura de Pernambuco (Fetape) na época, José Rodrigues da Silva, lembra que o golpe desmobilizou os trabalhadores e as reclamações e reivindicações só aconteciam na Justiça do Trabalho. "Para denunciar e reivindicar, era preciso coragem, porque a iniciativa provocava reação do patronato, inclusive de violência", conta. Foi então que os canavieiros decidiram por uma ação coletiva para realizar uma campanha salarial. A primeira opção foi pelo dissídio (ações propostas na Justiça de Trabalho para solucionar questões que não puderam ser resolvidas pela negociação direta entre as partes), mas depois de estudarem a lei, os trabalhadores perceberam que o julgamento poderia demorar anos. "Queríamos fazer algo organizado, com a participação do maior número de trabalhadores e sem repressão, por isso, preferimos a greve legal", justificou José Rodrigues.

Mesmo seguindo todos os trâmites da Lei de Greve, os canavieiros surpreenderam os patrões coma paralisação. Dos 45 sindicatos rurais, 24 estavam mobilizados para a greve, representando 100 mil trabalhadores - em 1979, segundo a Fetape, havia 240 mil canavieiros em Pernambuco. Só que dois sindicatos, o de São Lourenço da Mata e o de Paudalho, Zona da Mata Norte, deflagraram o movimento uma semana antes do combinado. Entre os dias 2 a 9 de outubro, 20 mil trabalhadores pararam foices e facões. "Nós estávamos mais preparados e decidimos antecipar a greve porque poderíamos ter mais sucesso", lembra o então presidente do sindicato dos trabalhadores de Paudalho, Severino Domingos de Lima, mais conhecido como Beija-flor.

Um dia antes da deflagração da greve pelos demais sindicatos, os canavieiros e os patrões chegaram a um acordo. Entre as conquistas, estavam a restauração da tabela (referente à produção que o trabalhador deveria ter por dia) de 1965, o reajuste salarial de 56% em cima do salário mínimo e a convenção de 1979, a primeira convenção coletiva de trabalhadores rurais do país. "Foi algo espetacular", descreve José Rodrigues. O encerramento da greve foi festejado nas sedes dos sindicatos com carne de charque e cachaça. "Sinto um orgulho muito grande de ter feito aquela greve. Era um período em que precisávamos ter muita coragem e mobilização", diz Beija-flor, que hoje comanda a secretaria municipal de Assistência Social de Paudalho e viu o filho Ronaldo Domingos de Lima (PTN) ser eleito vereador pelo mesmo município.

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