12 julho, 2009

Significado do movimento

Avaliação // Autor de livro clássico sobre as Ligas analisa para o Diario significado histórico e político do movimento


O primeiro trabalho acadêmico sobre as Ligas foi a dissertação de mestrado em sociologia de Fernando Antônio Azevedo, da UFPE, lançado em livro em 1982, com o título As Ligas Camponesas.

"O tema era um objeto de estudo ainda inexplorado, em boa parte por ser, naquele momento, em plena vigência da ditadura militar, um assunto ainda delicado do ponto de vista político", diz ele, em entrevista de São Paulo, onde mora hoje - é professor doutor na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e coordena o programa de pós-graduação em Ciência Política. Na avaliação que faz hoje do movimento, ele aponta "três papéis relevantes, pioneiros e antecipatórios" das Ligas:

Entrevista // Fernando Antônio Azevedo

"Ligas foram pioneiras e antecipatórias"

Quais foram estes papéis?

Primeiro, antes das Ligas os movimentos sociais no campo tiveram uma natureza messiânica ou um caráter limitado do ponto de vista político e geográfico e intermitente temporalmente. As Ligas foram a primeira organização que mobilizou e organizou de forma massiva os camponeses num amplo movimento social, incorporando-os, assim, ao processo político. Segundo, as Ligas criaram uma agenda política e social e deu visibilidade às demandas da massa rural. Ao fazer isso, colocaram no centro do debate nacional da época a questão da terra, o tema da reforma agrária que terminou polarizando as forças políticas e radicalizando as posições em jogo cujo resultado foi o golpe. Terceiro, foram um ator político que exerceu o seu protagonismo de forma independente e autônoma do Estado. Nesse sentido, as Ligas anteciparam movimentos como o MST, que atuam de forma autônoma e sem controle do Estado. Eu trato disso num texto que publiquei em 2006.

Este legado tem reconhecimento nacional hoje? Minha impressão é que, a despeito da importância que teve, as Ligas estão sendo abordadas agora como meras coadjuvantes da história, assunto de citação de pé de página...

Você tem razão. Mas deve-se lembrar que os movimentos rurais não têm hoje a mesma importância que tinham nos anos 60. Naquela quadra o Brasil ainda era um país com uma economia e uma população rural muito expressivas e com os camponeses e assalariados rurais à margem da legislação trabalhista e sindical e, portanto, vivendo numa situação de exclusão política e social. Além do mais, naquela época a política nacional era marcada por uma forte clivagem ideológica produzida pela guerra-fria. Hoje o cenário do Brasil é outro; mesmo levando em conta as diferenças regionais e as desigualdades sociais o país é essencialmente urbano, modernizado e o processo de incorporação e socialização política já foi historicamente realizado.

Quarenta anos depois, que análise o senhor faz do papel de Julião?

Julião teve um papel absolutamente central na formação edepois na condução das Ligas em suas diferentes fases. Organizou as primeiras Ligas atuando como advogado e usando o código civil para defender os parceiros e arrendatários que eram despojados da terra e da sua produção sem nenhum tipo de indenização. Mas Julião também usava o seu mandato de deputado estadual e depois federal para denunciar a situação no campo e buscar apoio e aliados para a causa. Este protagonismo se manteve mesmo quando as Ligas se espalharam pelo Brasil e se transformaram, em seus últimos anos, sob a influência de algumas correntes de esquerda que passaram a disputar a condução da organização, num movimento cada vez mais radical, de um partido agrário-revolucionário cujo modelo era a então recente revolução cubana.

O senhor vê as Ligas como antecessoras diretas do MST. Identifica nos ataques feitos hoje ao MST semelhanças com os ataques que eram feitos às Ligas?
As Ligas, a partir de 1962, radicalizam sua ação política e passam a adotar táticas de invasão e ocupação da terra como o MST e outros movimentos dissidentes fazem hoje. Nesse sentido, as Ligas anteciparam nesse aspecto tático o MST e recebeu as mesmas críticas que hoje são dirigidas ao Movimento dos Sem Terra, ou seja, de ferir o direito à propriedade, usar a violência como método de ação.

Se não tivesse havido o golpe militar, que papel estaria reservado às Ligas? Seriam extintas? Teriam se transformado em um partido de classe, como o PT nas suas origens?

Em meados de 1963 as lideranças das Ligas começaram a discutir a possibilidade de se transformar num partido agrário-revolucionário. Este seria provavelmente o caminho que as Ligas trilhariam caso não fossem extintas. Seria, portanto, um partido com uma interpelação de classe, mas diferente em vários aspectos do que viria a ser o PT, cuja origem foi essencialmente urbana e sindical e cuja trajetória política terminou se realizando tendo por base a aceitação dos valores da democracia representativa. Mas compartilharia com o PT dos primeiros tempos o fato de que nasceria debaixo para cima, fora do parlamento e com uma ideologia anti-sistema. Caso permanecesse como um movimento social, provavelmente assumiria um perfil assemelhado ao MST, representando os sem-terra, e nesse caso seu papel provavelmente seria de um coadjuvante radicalizado numa arena na qual a hegemonia seria dos sindicatos rurais. Essa última hipótese já estava se esboçando antes do golpe de 64 com o crescente esvaziamento das Ligas à medida que crescia a sindicalização rural.

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