17 julho, 2009

"Região pagou o pato"

O sociólogo Francisco de Oliveira estava no olho do furacão em 1964. Era superintendente-adjunto da Sudene. Acompanhou por dentro as lutas da época, ao lado do amigo Celso Furtado. Mora hoje em São Paulo, onde seguiu carreira como escritor e professor - aposentou-se como professor titular de Sociologia da USP. Tem a mesma opinião de Furtado sobre o fato de o Nordeste ter sido o mais prejudicado pelo golpe. "A região estava num processo de transformação muito interessante, e o golpe abateu-se sobre as forças que estavam fazendo a mudança: as Ligas Camponesas, a própria Sudene, a Igreja, governos estaduais", argumenta ele. "O golpe não foi um movimento feito a partir do Nordeste nem muito menos pelo Nordeste. Era um conflito já no Sudeste, em São Paulo sobretudo, devido ao novo papel das multinacionais. Mas o Nordeste pagou o pato".

A própria burguesia nordestina acabou sendo tragada pela situação que ajudou a criar. "Ela apoiou o golpe descaradamente, mas foi destruída como classe. Não existe hoje. Classes dominantes do Nordeste, as antigas, não há nenhuma hoje", afirma ele. "Você quando liquida o adversário, está-se auto-liquidando. Aquela burguesia não tinha se dado conta que a Sudene era sua salvação". O crescimento econômico da região deu-se sem nenhuma reforma, avalia o professor. "A situação na região melhorou em parte porque as pessoas foram para a cidade. Por pior que sejam as cidades, e elas são péssimas, a situação aí muda de configuração. Depois, os governos são obrigados a fazer nelas algumas obras, hospital, educação", completa ele. "Só o fato de ter água encanada já reduz a mortalidade infantil em 50%".

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