17 julho, 2009

Por que fomos os mais prejudicados

1 - A região perdeu imediatamente personagens cujo trabalho tinha dimensão nacional e internacional: Miguel Arraes; Josué de Castro (principal nome do país no estudo e combate da fome); Celso Furtado (economista e superintendente da Sudene); Paulo Freire (que se tornaria referência internacional como educador) e Francisco Julião. São perdas que fariam falta até a um país, quanto mais a uma região pobre e necessitada de desenvolvimento. Se o golpe tivesse cometido apenas esta violência, já seria motivo suficiente para condená-lo.

2 - O desenvolvimento do Nordeste era prioridade nacional e tudo indicava que continuaria a ser, independente de quem fosse o presidente eleito nas eleições marcadas para 1965: Juscelino Kubitschek (o mais provável) ou Carlos Lacerda. Em vez disso, a região sofreu uma série de medidas que drenaram seu peso na agenda nacional. A Sudene, que era vinculada diretamente ao presidente, sendo uma espécie de ministério para o Nordeste, foi rebaixada, tornando-se uma mera entidade vinculada aum ministério.

3 Uma geração inteira de políticos e profissionais submissos à ditadura ascendeu ao poder nas repartições, entidades de classe, municípios e estados, com reflexos que se estenderam por décadas, tornando a região base de apoio do novo regime. Numa analogia com futebol, seria algo assim como se de repente todos os times da primeira divisão fossem afastados e em seu lugar entrassem os da Segunda Divisão. Ou seja, saíam Corinthians, Atlético Mineiro, Sport - e em seu lugar entravam (com todo respeito) Brasiliense (DF), Vila Nova (GO), Bragantino (SP), Duque de Caxias (RJ)...

4 - Com a oposição limitada, presa ou exilada, a ditadura pôde implantar sem contestação seu modelo de desenvolvimento, caracterizado pela concentração de renda - característica que, conforme Furtado, foi mais danosa para o Nordeste, região necessitada de maior distribuição de renda.

5 - O debate sobre a desigualdade regional, com as consequentes reivindicações para reduzi-la, foi sufocado durante os 21 anos da ditadura. Nunca mais foi retomado - nem mesmo após o período da redemocratização - com o vigor de antes. O resultado é que, apesar do inegável crescimento que a região teve nos últimos 45 anos, a desigualdade mantém-se com incômoda semelhança àquela do início dos anos 60. Os dados mais recentes do IBGE (alusivos a 2006), nos quadros ao lado, comprovam isso. Anotem aí: o Nordeste continua com o pior PIB per capita do Brasil, R%$ 6.029. Valor equivalente a apenas 16% do melhor PIB per capita do Brasil (o de Brasília), a 35,6% do PIB per capita do Sudeste e a 47,5% do PIB per capita brasileiro. O que isso significa? Deixemos que o professor Francisco de Oliveira, com sua experiência e credibilidade responda: "Não temos uma federação, é impossível tê-la com esse desequilíbrio. E esse não é um problema do Nordeste, é do Brasil".

6 - Houve um desmonte de toda a política social em curso na região, como o programa de alfabetização idealizado por Paulo Freire, e foram extintas organizações que haviam se tornado exemplo nacional, como o MCP (Movimento de Cultura Popular). "Ali se estava construindo uma sociedade que ganhava musculatura social, gestava-se um projeto de reforma que ia modernizar e democratizar o estado brasileiro. E isso foi abortado", afirma a economista Maria da Conceição Tavares.

7 - Esse rosário de mazelas não quer dizer que o Nordeste não cresceu. Iindustrializou-se, ganhou uma potente rede turística, teve o seu parque agroindustrial modernizado e sua economia recebeu uma injeção de dinamismo. Mas a agenda social e a do desequilíbrio regional ficaram praticamente intocadas - estão hoje ainda vivas e resistentes. "O Nordeste que a ditadura forjou é uma mistura de velho e novo Nordeste", diz o historiador Denis Bernardes (UFPE), no ensaio "Notas sobre a formação social do Nordeste" (2007)

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