14 julho, 2009

Memórias inéditas estão no México

Francisco de Oliveira datilografou último livro do amigo Julião. Foto: Raimundo Paccó/Folha Imagem

Descobertas // No segundo dia da série sobre Francisco Julião, reportagem traz revelações sobre obras que ele escreveu no México
Vandeck Santiago
vandeck.santiago@diariodepernambuco.com.br

A última mulher de Francisco Julião, a mexicana Marta Rosas Julião, guarda as memórias inéditas que ele vinha escrevendo havia anos. Em entrevista ao Diario por telefone, do México, onde vive, ela disse que "ainda não é hora" para a publicação dos textos. "Ainda não chegamos ao momento em que ele seja compreendido", afirmou.

Julião acordava cedo, fazia o café da manhã (tarefa que tinha prazer em cumprir, segundo Marta) e começava a escrever. "Muita coisa ele escrevia, lia e rasgava. Lia e rasgava, lia e rasgava", conta ela. "Às vezes, enquanto estava escrevendo, dava grandes gargalhadas". O casal vivia em Tepoztlán, pequena cidade do México, a 90 quilômetros da capital. "Nós líamos poesias juntos. Ele me conquistou com um poema", diz ela. Diante da insistência do repórter em obter mais informações sobre ele, Marta recitou os últimos versos do poema Elegia nº 2, do pernambucano Mauro Mota (1911-1984), poeta que diz ter aprendido a gostar por influência de Julião: "Que palidez na face! Inutilmente / busco abraçar-te. Foges, que és somente / sombra, perfume, ressonância, imagem". E a conversa - reveladora e simpática, porém breve - encerrou-se por aí.

Na trilha de Julião fizemos outra descoberta, agora em São Paulo. Em 1968, quando estava exilado no México e casado com sua segunda mulher, Regina Castro (com quem teve a filha Izabela, em 1964, que mora hoje no Rio), Julião publicou lá uma espécie de embrião de suas memórias, no calor do exílio: Cambão: La Cara Oculta de Brasil (1968). Em São Paulo encontramos o amigo que datilografou as cerca de 300 páginas da obra e debateu com ele o conteúdo - é o hoje economista e sociólogo Francisco de Oliveira, professor titular aposentado da USP e um dos principais representantes do pensamento de esquerda no Brasil. Quando os dois se encontravam, a conversa era de Chico para Chico, termos com os quais se tratavam. Chico de Oliveira trabalhava na capital, Cidade do México, e Chico Julião morava em Cuernavaca, a cercade 75 quilômetros de distância.

"Fui muito amigo dele. A gente se via todas as semanas", conta Chico, o de Oliveira, que também é pernambucano e foi superintendente-adjunto da Sudene antes do golpe militar. "A gente ia para um lugar na casa dele, ficávamos observando o horizonte, ele olhava para uma certa direção e dizia: 'Por ali é o Nordeste'". Julião escrevia à mão e não sabia datilografar. "Eu tive a honra de bater à máquina o primeiro texto de Cambão", torna Chico. "Izabela [a filha de Julião] era bem novinha, ficava correndo por entre as pernas da gente. É um livro que nunca vi depois de publicado, infelizmente. Relata a vida do camponês e tem lances de muita dramaticidade. Camponês se suicidando cortando a barriga, quase como japonês#". [Cambão foi traduzido para 16 idiomas. Sua primeira edição no Brasil saiu apenas na última sexta-feira, por uma editora pernambucana, Bagaço.]

O repórter pergunta se ele demonstrava alguma amargura no exílio. "De jeito nenhum", retruca Chico, no seu estilo de mal deixar a pergunta acabar para já ir respondendo. "Era um homem brincalhão, conversador de primeira. Se você quisesse passava o dia conversando potoca com ele. Era um homem muito bem humorado, afável, cordial". Professor, agora falando como sociólogo, o senhor acha que as Ligas Camponesas, com Julião à frente, radicalizaram demais? "Radicalizaram de menos", garante Chico. "O Brasil era um país de latifundiários. Foram as Ligas que trouxeram os camponeses para a agenda política brasileira. O caminho que ele achou para intervir tinha de ser muito radical mesmo, porque a estrutura brasileira não acolhia nenhuma demanda dos camponeses. Eles, que não tinham voz nem voto, tornaram-se um ator social de primeira. Esse trabalho é claro que não foi o Chico só quem fez, mas em grande medida deveu-se à sua atuação". E a conversa do repórter com este outro Chico - reveladora, simpática e felizmente longa - encerrou-se por aí.

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