24 julho, 2009

Julião: O último lance

Pacto da Galiléia pôs no mesmo palanque Julião, líderes do PFL e usineiros pernambucanos, pela reforma agrária. Não deu certo
Vandeck Santiago
vandeck.santiago@diariodepernambuco.com.br

O que diabos Francisco Julião está fazendo nesta foto, acompanhado de antigos adversários e inimigos? Ao seu lado estão o então candidato a governador pelo PFL, José Múcio Monteiro, o governador Gustavo Krause (discursando), o ministro-chefe da Casa Civil, Marco Maciel, o candidato ao Senado Roberto Magalhães e alguns dos principais usineiros do estado. O ato ocorreu em 18 de outubro de 1986, no Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão (PE) - o mesmo local onde em 1955 surgira o movimento das Ligas Camponesas. Foi um comício para o anúncio oficial da assinatura do Pacto da Galiléia, idealizado por Julião e pelo qual os usineiros pernambucanos comprometiam-se a doar 10% de suas terras para a reforma agrária.

O Pacto tornou-se o gesto mais incompreendido da história de Julião, o maior fracasso eleitoral da vida dele e um dos motivos que contribuiu para o ostracismo a que foi relegado nos anos seguintes - candidato a deputado federal, foi humilhado nas urnas, obtendo menos de 3.500 votos. José Múcio perdeu a eleição para Arraes, que elegeu também os dois candidatos ao Senado (Antonio Farias e Mansueto de Lavor). Mas, ao mesmo tempo, o Pacto representou uma vitória da pregação de Julião em favor dos camponeses - uma vitória retórica, mas, enfim, vitória.

O desenlace do episódio foi retratado em matéria publicada pelo Diario em 25 de novembro, sob o título "Pacto da Galiléia não mais será cumprido". Um dos signatários do acordo, Gérson Carneiro Leão, pediu ao repórter que o procurou na época: "Vamos falar de outra coisa". Como o repórter insistisse, Gérson completou: "O Pacto não existe mais. Era um acordo de José Múcio com Julião. Só teria validade se Múcio fosse eleito. Como não foi..."

Para contar esta história - que encerra o ciclo da atuação política de Julião e complementa a série do Diario sobre Julião - a reportagem consultou documentos e textos da época, ouviu personagens daqueles acontecimentos e entrevistou o autor do único texto acadêmico sobre o Pacto, o cientista político Eliezer Queiroz de Souto ("A reforma agrária pelo dízimo: proposta de Francisco Julião aos usineiros", incluído na coletânea Atos retóricos, livro organizado por Tereza Lúcia Halliday, publicado em 1988 e hoje esgotado).

O texto do Pacto seguia uma retórica típica de esquerda. "É chegada a hora das grandes reformas sociais", afirmava um dos trechos do documento. "É inaceitável um país rico com o povo pobre. É inaceitável a permanência de contrastes sociais que comprometam o futuro do país". Era assinado pelo próprio Julião, representando os sem-terra, e por José Ranulfo (do Sindicato dos Usineiros), Gérson Carneiro Leão (da Associação dos Cultivadores de Cana) e pela cúpula do PFL: José Múcio, Gustavo Krause, Maciel, Roberto Magalhães e Margarida Cantarelli (o segundo nome do partido na disputa pelas duas vagas para o Senado). "O Pacto não foi compreendido nem à esquerda nem à direita", afirma José Múcio, que hoje é ministro das Relações Institucionais do governo Lula. "Mas se tivéssemos ganho iríamos fazer a reforma agrária que Julião queria".

O Julião do pleito de 1986 é um "Julião reciclado", na opinião de Eliezer Queiroz . Não é que ele renegasse o passado, mas naquela eleição vislumbrava outros caminhos para atingir seus objetivos, entende o cientista político.

Julião regressara do exílio em 1979, com a anistia. Integrara-se ao PDT, de Leonel Brizola, que vivia disputando espaço com o PMDB, legenda à qual pertencia Arraes. Em 2 de maio de 1986 lançou a "Carta aberta aos usineiros", uma tentativa de convencer os usineiros a aceitar a reforma agrária por consenso. A princípio, eles foram contra; depois, à reboque de José Múcio e desejosos de derrotar Arraes, concordaram - aí está a vitória mencionada no início dessa matéria: depois de passar décadas pregando na esquerda, Julião conseguia entronizar sua bandeira de reforma agrária entre os liberais e a direita. "Foi na Zona da Mata que edificastes vossos domínios, graças à vossa diligência, dizeis com orgulho, enquanto euvos digo que sem o braço do escravo e do servo que explorastes até a inanição jamais seríeis o que sois", diz ele na "Carta".

O Pacto da Galiléia parece ter sido o último lance -- desesperado? - do antigo agitador desejoso de ver suas ideias de reforma agrária virar realidade.

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