12 julho, 2009

Julião, o último agitador do Brasil

Conflitos // "Porque sem agitação pobre não vai para a frente", dizia ele, justificando tática das Ligas Camponesas na luta pela reforma agrária

Vandeck Santiago
vandeck.santiago@diariodepernambuco.com.br

No momento em que se discute no Brasil se a ditadura instaurada em 1964 foi "branda" ou "dura", o Diario inicia hoje uma série de reportagens que não deixa dúvidas sobre as consequências negativas do golpe militar.

O fio condutor é a celebração dos 10 anos da morte do líder das Ligas Camponesas, Francisco Julião, que morreu no México em 10 de julho de 1999. A história de Julião e das Ligas é indispensável para compreender não só o Nordeste, mas o Brasil daquele período. O contexto era de um país que esticava como nunca fizera antes os limites institucionais da democracia. A política não se fazia apenas no parlamento e largos setores da sociedade queriam ser ouvidos - como os camponeses. No plano internacional estávamos na Guerra Fria, com o mundo dividido entre Estados Unidos (temerosos de que o exemplo de Cuba encontrasse eco no continente) e a União Soviética. Por meio de entrevistas com estudiosos e remanescentes das Ligas, consultas a arquivos pessoais e do Dops e leitura dos trabalhos mais recentes sobre o assunto, a reportagem (que segue de hoje até sexta-feira) mostra como as lutas no campo refletiram a agitação desse tempo. Revela fatos novos e faz, 45 anos depois, a releitura do papel e do significado histórico de Julião e das Ligas.

Nenhum líder político do Brasil teve relação tão estreita e apaixonada com a agitação quanto o advogado pernambucano Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, criadas em 1955 e extintas em seguida ao golpe militar de 1964. Na história brasileira "agitação" sempre foi um termo proscrito. Mas Julião apropriou-se da palavra como quem ocupa a terra há muito desejada: tomou-a para si, retirou-lhe a carga preconceituosa, deu-lhe argumentação de defesa e fez dela sua principal tática de luta. Funcionou. As Ligas empurraram os camponeses para dentro da perfumada sala de estar da política nacional e nos deixaram um legado de pioneirismo e inovações.

"Porque sem agitação o pobre não vai para a frente", explicava Julião, em uma de suas repetidas defesa da tese. "Do mesmo modo que sem o sangue agitando as veias não há vida, e sem o vento agitando as árvores não há fruto". A pregação dele vinha embalada numa retórica radical ("Reforma agrária na lei ou na marra" era o lema das Ligas) e no rastro de uma série de atos do movimento, muitos realizados pela primeira vez - marchas do campo para a cidade, comícios, manifestos, protestos e resistência organizada contra despejos. Só em 1962, num espaço de três meses, eles realizaram 80 atos públicos no Nordeste.

Consciente ou intuitivamente, Julião adotou a tática ideal para a luta dos camponeses, naquele período (1955 em diante). Eles eram a categoria invisível da sociedade brasileira. Não tinham os direitos trabalhistas e previdenciários que já beneficiavam os trabalhadores urbanos desde os anos 40. Quando saíam nos jornais, a parte que lhes cabia era a página policial. O interesse que despertavam nos governos era proporcional à força eleitoral que possuíam - quase nenhuma, porque analfabeto não tinha direito a voto e analfabetos eram quase todos eles.

Como sair desse monturo de exclusão? Agitando, ora. No começo, conforme relata Julião, a luta foi para tirar o camponês da frente do delegado e colocá-lo na frente do juiz. Depois, pôr a reforma agrária na agenda nacional, com todas as consequências que isso traria -- obtiveram uma coisa e outra. Assim conseguiram ganhar uma força de pressão superior ao próprio tamanho da organização deles. O movimento destacou-se ainda por não aceitar ser tutelado nem pelo PCB (principal força de esquerda da época) nem pelos governos - Julião recusou convites neste sentido tanto de Luiz Carlos Prestes, dirigente máximo dos comunistas, quanto do presidente João Goulart.

Houve um momento em que, segundo autor da época, Julião tornou-se "o homem mais discutido do Brasil". Um integrante da Família Real brasileira, Dom João de Orleans e Bragança, doou terras que tinha no Rio de Janeiro -- e virou "O Julião da Coroa", nos jornais. Um deputado estadual do Amazonas iniciou luta em favor de trabalhadores do campo -- claro, foi chamado de "Julião da Amazônia". Numa piada publicada no Diario de Pernambuco dois homens observam a praia quando um deles afirma: "Julião deve estar aqui tomando banho". O outro pergunta: "Como é que você sabe?" E vem a resposta: "Veja como o mar está agitado".

A ação de Julião e das Ligas contraria o senso comum nacional, que vê agitação como sinônimo de instabilidade - e, portanto, algo a ser evitado. "O crime não está em agitar, mas em permanecer imóvel", afirmava ele. "Uma sociedade que não se agita é como um charco: suas instituições se estagnam e apodrecem". Podemos pensar que o argumento servia apenas para aquele momento e para aquele movimento, mas o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos (a propósito, integrantes das Ligas quando jovem em Minas Gerais) afirma, hoje, que há "instabilidades produtivas" - aquelas que levam a transformações de situações de injustiça. Para os mais pobres, afirma Wanderley ao Diario, "não há o que esperar da estabilidade, a não ser a perpetuação da rotina. E quanto mais tradição e consenso, como é o caso do Nordeste, mais danosa é a estabilidade".

Julião parecia saber disso, 45 anos atrás. Agitando esta bandeira, engajou-se na luta dos camponeses como quem atende a um chamado do destino."O título com que eu me contentaria em passar para a história de minha pátria", disse ele mais de uma vez, no fragor dos conflitos dos anos 60, "seria o de agitador social". Não há definição melhor para recordar sua memória.

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