17 julho, 2009

Golpe prejudicou mais o Nordeste

A partir de análise de Celso Furtado, último dia da série sobre Francisco Julião conta por que os efeitos da ditadura foram mais danosos na região
Vandeck Santiago
vandeck.santiago@diariodepernambuco.com.br

Para o Nordeste, o que se seguiu ao golpe militar de 1964 nunca foi uma "ditadura envergonhada" nem muito menos uma "ditabranda", expressões que nos últimos anos têm sido utilizadas para definir uma suposta face "flexível" do regime militar ou de fases dele.

Desde os seus primeiros dias o golpe no Nordeste afastou dos governos, repartições, instituições e entidades de classe aqueles nomes considerados "subversivos", como Francisco Julião; fechou organizações, como as Ligas Camponesas e o MCP (Movimento de Cultura Popular), e prendeu, torturou e matou adversários do novo regime. Além disso, truncou todo um processo de desenvolvimento econômico e social que vinha sendo efetuado na região.

"A região de maior atraso social era o Nordeste. E o atraso aumentou ainda mais"
Celso Furtado - Economista

"O Nordeste foi a região mais prejudicada pelo golpe", afirmou décadas depois a pessoa que mais credibilidade tinha para dizer isso: Celso Furtado. "A região do país que havia acumulado maior atraso social era o Nordeste. O atraso aumentou ainda mais com a mudança.O movimento de 1964 passou desapercebido em várias partes do país. Foi um golpe a mais, mesmo em São Paulo houve atendimento de certos interesses econômicos e a região se acomodou". Furtado -- que fora superintendente da Sudene, afastado pelo golpe -- fez esta afirmação em entrevista de 2004. Reproduzia o que já escrevera em um dos livros de suas memórias, A Fantasia Desfeita, de 1982. A singularidade dos prejuízos do Nordeste com o golpe é compartilhada por outros integrantes da elite intelectual brasileira, como o sociólogo Octavio Ianni, a economista Maria da Conceição Tavares e o economista e sociólogo Francisco de Oliveira (veja entrevista abaixo).

"Sob vários aspectos, a Questão Nordeste foi posta de uma forma direta, clara e brutal em 1964", considerou Octavio Ianni em análise sobre a região (A sociologia crítica de Octavio Ianni: uma homenagem, 2005). "A ditadura instalada no País elegeu o Nordeste como uma região particularmente importante, perigosa, na qual desencadeou uma repressão política selvagem". Exemplos não faltam para confirmar a tese. Os primeiros desaparecidos políticos da ditadura são dois camponeses das Ligas Camponesas de Sapé (PB): Nego Fuba e Pedro Fazendeiro. Eles haviam sido presos na Paraíba, foram soltos em setembro de 1964 - e nunca mais foram vistos. Em Vitória de Santo Antão (PE) outra ativista das Ligas, a professora primária Maria Celeste Vidal, liderou a tomada da emissora de rádio local e fez apelos para que o povo resistisse ao golpe. Foi presa e torturada, num dos primeiros casos de tortura do novo regime.

Nos arquivos deixados pela advogada de presos políticos Mércia Albuquerque (falecida em 2003) há um relato inédito sobre o caso: "[Maria Celeste] foi presa no dia 10 de abril, conduzida na carroceria de um caminhão onde foi estuprada várias vezes".

Na prisão , segundo o mesmo relato de Mércia, que defendeu quase todos os presos políticos de Pernambuco, ela "teve as partes pudendas queimadas com pontas de cigarro, as coxas perfuradas com agulhas de crochet. Quando fui visitá-la acabava de ser esbofeteada" . Em outro texto do arquivo há nova referência a Maria Celeste (morta em 1998): "Foi uma das mulheres mais torturadas. Teve muita coragem. Enfrentou tudo com dignidade". Depois do AI-5, em 1968, a ditadura recrudesceu e a repressão mais violenta verificou-se no Sudeste. Neste período a reação ao autoritarismo no Nordeste já fora abafada.

www.diariodepernambuco.com.br

Nenhum comentário: