17 julho, 2009

(Francisco Julião) O escritor que poderia ter sido

Literatura // Penúltimo dia da série sobre Francisco Julião mostra como militância encerrou precocemente a carreira literária dele
Vandeck Santiago
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A militância política de Francisco Julião sufocou uma vocação dele que, saudada por críticos e escritores nacionais nos anos 1950/1960, hoje é praticamente desconhecida - a de escritor de ficção. São de sua autoria dois livros no gênero: Cachaça, de contos, lançado em 1951 (quatro anos antes do movimento das Ligas), e Irmão Juazeiro, romance, de 1961. As obras receberam elogios de nomes como Gilberto Freyre, Fábio Lucas e Roberto Simões.

A julgar pelos comentários, tudo indicava que a literatura regional iria ganhar um novo integrante de destaque - ele chegou a ser comparado a José Lins do Rego. Mas Julião não tornou a escrever ficção. Foi preso, exilou-se, voltou - e nada. Caiu no esquecimento. "A história parece ter olvidado a contribuição do escritor Julião, que lançou seu primeiro livro bem antes de tornar-se o conhecido líder político popular", afirma Marcelo Ridenti no livro Em busca do povo brasileiro - artistas da revolução, do CPC à era daTV (Record, 2000).

O escritor Claudio Aguiar, que está concluindo uma biografia de Julião, na qual vem trabalhando há seis anos, tem uma explicação para o caso: "Hiatos nas recepções de certas obras literárias fazem parte da própria história de cada autor e da literatura". Isso não significa que o autor esteja condenado ao desaparecimento para sempre. "Obras aparentemente esquecidas hoje", argumenta Aguiar, que é autor de um festejado romance (Caldeirão, de 1982) e tem uma carreira marcada pelo elogio da crítica, "poderão ressurgir com força amanhã e permanecerem, assim como outras, sem lastro estético no tempo e no espaço, mesmo fazendo muito sucesso por ocasião de seu aparecimento, desaparecem e jamais retornarão às futuras gerações de leitores". Dá o exemplo da coletânea de contos Cachaça, que foi reeditada pela Editora Universitária da UFPE em 2005 - sinal, na visão de Aguiar, da "sobrevivência literária" da obra: "A meu ver, este foi um dos melhores livros de contos aparecidos na década de 1950".

A sugestão do título e o prefácio de Cachaça foram do sociólogo Gilberto Freyre. "Não é comum encontrarem-se contos assim entre os muitos que hoje escrevem e publicam no Brasil", diz Freyre. "No sr. Francisco Julião talvez esteja surgindo alguém capaz de dar ao conto brasileiro, ou regional, novo interesse, nova atração, novo sabor".

Em 1962, comentando Irmão Juazeiro para a prestigiada Revista Brasiliense (edição nº 41, de 1962), o crítico Roberto Simões o considera como "o primeiro romance realmente ruralista do Brasil". Diz que a experiência de Julião com os camponeses "municiou o romancista de um tema fibroso, que gera ânsias e inquietações".

Os contos de Cachaça versam sobre o vício do alcoolismo entre as populações rurais; já Irmão Juazeiro aborda os conflitos humanos na zona rural. Mas não são obras de proselitismo, como nota o crítico Fábio Lucas, em O caráter social da ficção no Brasil (Ática, 1985): "Interessante observar que as teses de Irmão Juazeiro não são radicais nem se apresentam com traços demagógicos exagerados, ou utópicos como em tantas outras obras de inspiração socialista".

Julião é autor de Que são Ligas Camponesas? (1962); Até quarta, Isabela (1964) e Cambão - A face oculta do Brasil (publicado originalmente no México em 1968 e que teve a primeira edição no Brasil lançada no último dia 10, no Recife, em homenagem aos 10 anos da morte dele). Escreveu também cartilhas para o movimento camponês e é autor do Hino do Camponês, musicado pelo maestro pernambucano Geraldo Menucci e que era cantado pelos integrantes das Ligas nas manifestações. Até quarta, Isabela foi a única obra redigida na prisão durante o regime militar. Julião a escreveu em forma de carta para a filha, que tinha nascido em maio de 64 e seria levada para visitá-lo pela primeira vez numa quarta-feira. Num dos trechos, ao falar "de uma criança morta de fome ou de um velho abandonado feito trapo, nas ruas", ele afirma que se a filha um dia lhe perguntasse "Que fizeste, papai?", responderia: "Clamei por toda a parte. Agitei, sacudi,dei tudo que tinha de mais caro: a mocidade, o sossego, o ócio, os bens materiais e a liberdade, para ajudar a abolir esta servidão". Izabela (com z, diferente do que grafa o livro) mora hoje no Rio. É filha de Regina Castro, a segunda mulher de Julião.

A ideia do escritor que poderia ter sido e não foi perseguiu Julião a vida inteira. "Pensei em escrever os romances ou novelas que poderia ter escrito e não o fiz porque a realidade quis diferente", diz ele em Até quarta, Isabela, num lamento que repetiria ao longo dos anos.

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