14 julho, 2009

Entrevista // Claudio Aguiar

Escritor Claudio Aguiar, no Rio de Janeiro: biografia de Julião deve sair até o fim do ano. Foto: Claudio Aguiar/Arquivo Pessoal


"Ele foi o Nabuco dos camponeses"

O escritor Claudio Aguiar está concluindo as últimas páginas de uma biografia na qual vem trabalhando há mais de seis anos - a de Francisco Julião. Com mais de uma dezena de prêmios literários na carreira, Aguiar é cearense, viveu em Pernambuco e hoje mora no Rio de Janeiro, onde nos concedeu a entrevista abaixo (a primeira que dá sobre o assunto). Formado em Direito pela UFPE, fez doutorado na Universidade de Salamanca (Espanha) e é autor de uma obra de 13 títulos, como Caldeirão, lançado em 1982 e que lhe valeu elogios de críticos e escritores, como Wilson Martins e Jorge Amado. Entre 1962 e 1964, Aguiar foi chefe no Recife da sucursal do jornal das Ligas Camponesas ("Liga"), criado por Julião. Conheceu o movimento e seu biografado na intimidade:

O que é esta biografia e quando ela será lançada?

O livro Francisco Julião: Uma biografia talvez seja editado ainda este ano. Há mais de seis anos venho trabalhando nele, mas é um projeto pensado desde o ano da morte de Julião, em 1999. A principal imagem resultante do retrato final que fiz de Francisco Julião é a de um revolucionário utópico. Ele foi um revolucionário não no sentido pragmático, isto é, aquele que toma as armas em suas mãos e parte para o confronto com o afã de mudar a realidade social de seu tempo. Suas ações, nitidamente marcadas pela utopia - e também um certo tom místico -, abraçadas durante toda a vida, concentraram-se no trabalho sem descanso pela redenção dos camponeses. Nesse sentido, quando vemos a figura de Julião num contexto histórico, é forçoso admitir que ninguém se parece mais com Joaquim Nabuco (1849-1910) do que ele.

Que semelhanças o senhor vê entre eles?

Ambos têm origem no mesmo berço ou cenário do heroísmo pernambucano; ambos nasceram de famílias de senhores proprietários de terras e renunciaram à vida tranqüila que essa herança poderia lhes dar; ambos estudaram direito e se transformaram em grandes advogados e oradores memoráveis; ambos foram escritores de talento; ambos exerceram a política com honestidade e dignidade patriótica irrepreensíveis; ambos defenderam causas profundamente humanas: Nabuco, a liberdade do negro escravizado ao trabalho aviltante; Julião, a liberdade do camponês "escravizado" ao trabalho da terra alheia, isto é, do senhor. Há, porém, uma grande diferença entre eles: Nabuco conseguiu comemorar a vitória de sua causa, enquanto Julião, em seu tempo, amargou a derrota de seu projeto, embora montado no cavalo da História, porque penso que a redenção do Brasil virá no dia em que não tenhamos o uso da terra como o maior entrave ao desenvolvimento brasileiro.

Que contribuição o "revolucionário utópico" Francisco Julião deixou?

A grande contribuição dele foi criar um clima de conscientização sobre o problema agrário nacional. Dessa conscientização surgiu uma política pragmática do governo, entendida como resposta à retórica de Julião, que terminou criando o salário mínimo e outras vantagens legais para os trabalhadores do campo, como, por exemplo, a sindicalização rural e, mais tarde, a previdência rural etc. Se não fosse esse movimento, a situação do trabalhador rural brasileiro, ainda hoje, estaria bem pior.

A idéia da criação do jornal das Ligas foi de Julião?

O jornal "Liga" foi criado por Julião para dar sustentação política e ideológica ao movimento camponês. Era um hebdomadário, com circulação nacional, vendido em bancas, no formato tradicional, diagramado em seis colunas, impresso em preto e branco, sempre trazendo na primeira página manchetes "quentes" sobre o movimento camponês. Curiosamente era rodado nas rotativas da Tribuna da Imprensa (RJ), de Carlos Lacerda, grande inimigo do movimento camponês.

Como era trabalhar no jornal?

Recordo de vários episódios, mas citemos apenas um. Certa vez tive que cobrir alguns acontecimentos em També - cidade limitada por uma rua com Pedra de Fogo, na Paraíba -, numa época em que os senhores proprietários de terra ameaçavam reagir com armas nas mãos às iniciativas dos líderes que atuavam ali: o estudante Jeremias e o acadêmico de Direito Joel Câmara, ambos meus amigos. Numa tarde, quando cobria algumas ações dos camponeses, eu e Joel fomos cercados no terreiro de uma casa-grande. Joel, num lance de rápida observação, notou que aqueles homens nos espreitavam ameaçadoramente. Diante do perigo iminente, alertou aos presentes que ele estava ali acompanhado de um repórter do jornal "Liga", com sede no Rio de Janeiro, e, se por acaso, acontecesse algo a nós, de imediato todo o Brasil tomaria conhecimento. A seguir, o clima mudou e inclusive fomos convidados para a sala-de-estar da casa-grande e nos serviram um gostoso café. Três dias depois, na mesma região, vários camponeses foram emboscados e assassinados no mesmo caminho por onde, a pé, fizéramos a caminhada até a casa-grande. Entre os mortos estava o meu amigoJeremias [codinome do trotskista Paulo Roberto Pinto, que viera de São Paulo para atuar na zona canavieira. O crime ocorreu em agosto de 1963]. Todos foram atingidos com balaços pelas costas. A perícia constatou que os calibres pertenciam a armas privativas das Forças Armadas. O promotor público Murilo Barbosa, por denunciar tal circunstância nos autos do inquérito, foi preso e cassado logo após o Golpe Militar de 1964.

Como o senhor conheceu Julião?

Por acaso, em fins de janeiro de 1962, no Recife. Curiosamente, no dia em que o governo Cid Sampaio rompia sua aliança com a Frente do Recife e a polícia política invadia o escritório do jornal Folha do Povo, empastelando tudo. Eu fora ali falar com David Capistrano, quando, de repente, Julião chegou para, na condição de deputado, vistoriar in loco a ação policial. Fizemos, a partir de então, uma boa amizade e me vinculei ao movimento. Nosso relacionamento, ao longo de 37 anos, sempre foi o melhor possível, mesmo durante as fases mais difíceis de sua vida - a resistência logo após o Golpe Militar, a prisão, o exílio, seu retorno ao Brasil e retorno voluntário ao México, onde morreu. Nossa amizade era alimentada pelo mútuo respeito intelectual e pela admiração que eu mantinha por sua conduta de homem público, honesto, patriota e, sobretudo, pela sua incondicional dedicação à causa em defesa dos trabalhadores rurais brasileiros.

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