14 julho, 2009

Comunista no campo

Epitácio Ferreira andava de engenho em engenho puxando conversa. Cumpria tarefa partidária. Procurava encontrar outros camponeses com quem o PCR pudesse iniciar uma aproximação - aqueles que aparentassem uma personalidade mais rebelde e sensibilidade para uma possível aceitação das teses do partido. "Eu primeiro tinha que ver a tendência do povo, né?", recorda hoje, aos 80 anos. Para disfarçar as andanças, Epitácio se passava por vendedor de perfumes. Nessa condição, distribuía panfletos contra a ditadura no campo e nas cidades. "Eu deixava os panfletos nas porteiras dos engenhos, nas pontas de ruas. O povo passava e pegava", diz ele.

Durante a ditadura chegou a abrigar em casa o próprio Manoel Lisboa, maior liderança do PCR e homem a quem a ditadura adoraria pôr as mãos. A quem tivesse curiosidade sobre aquele rapaz, que não parecia camponês, Epitácio desconversava: "É meu sobrinho". Outro dirigente do partido, Amaro Luiz de Carvalho, o "Capivara", por várias vezes também escondeu-se da polícia em sua casa. Os dois se conheciam desde a adolescência.

Sua militância começou cedo. "Eu fiz o curso Stálin em 1954", recorda, citando um curso de formação de militantes do PCB. Em 1962 um setor das Ligas, do qual fazia parte Clodomir Morais e Amaro, optou pela luta armada (à revelia de Julião, que era contrário à decisão). A ideia era criar oito dispositivos de guerrilha, um deles em São João dos Patos (MA) - Epitácio foi para lá, seguindo Amaro. A opção militar das Ligas acabou desbaratada pelas Forças Armadas. Epitácio fugiu do Maranhão para Pernambuco em cima de um caminhão de arroz. Em sua militância, nunca foi preso; em compensação, diz que várias vezes teve que largar o emprego e fugir - deixando para trás benefícios a receber: "Se eu ficasse, seria preso".

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