14 julho, 2009

Antes e depois do golpe, a luta armada

Terceiro dia da série sobre Francisco Julião mostra efeitos da radicalização da luta no campo
Vandeck Santiago
vandeck.santiago@diariodepernambuco.com.br

Dois anos depois do golpe militar de 1964, camponeses das Ligas e militantes universitários fundaram em Pernambuco um partido comunista que defendia a luta armada e considerava que a revolução brasileira deveria ser desencadeada a partir do Nordeste.

Era o PCR, Partido Comunista Revolucionário, uma cisão do PCdoB. Compraram um sítio (o "Borboleta") em Água Preta, na Zona da Mata, com a intenção de torná-lo um local para treinamento dos militantes. Defendiam uma guerrilha sob a tática celebrizada pela Revolução Chinesa de 1949: "cercar a cidade pelo campo". No caso, a "cidade" seriam as áreas mais industrializadas do país, localizadas no Sudeste; e "campo" seriam as áreas menos desenvolvidas, como o Nordeste.

Para contar esta história a reportagem localizou um camponês que participou das atividades do partido na época (Epitácio Afonso Ferreira, de Joaquim Nabuco, Zona da Mata); consultou documentos no arquivo do Dops e entrevistou um dirigente nacional da fase atual do partido (o sociólogo Edival Nunes da Silva, Cajá) e um simpatizante que foi preso pela ditadura acusado de participar de uma ação armada em 1973 - o hoje publicitário José Nivaldo Jr.

Há pelo menos duas singularidades na história de criação do PCR. Primeira, a da regionalização da sua estratégia - foi a primeira agremiação política de esquerda a optar pela prioridade revolucionária no Nordeste; segunda, a participação de camponeses entre os dirigentes. Em maio de 1966 o partido lançou a "Carta de 12 pontos aos comunistas revolucionários", escrito por um antigo militante comunista das Ligas, Amaro Luiz de Carvalho, conhecido como "Capivara", e por Manoel Lisboa, estudante de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). No item 4 da "Carta" está a justificativa da opção pela revolução a partir do Nordeste. "Aonde se manifesta de modo mais agudo a contradição entre o imperialismo norte-americano e nosso povo? Nossa resposta é o Nordeste", afirma o texto. "Nessas condições o Nordeste éa região mais explorada do país e o seu desenvolvimento teria como consequência a perda de um mercado e de uma fonte de matérias primas".

Todos mortos - "Nós fazemos questão de cultuar a memória desses companheiros. Eles são heróis da causa revolucionária", afirma Cajá, integrante e porta-voz do comitê central do partido. O PCR foi reorganizado em 1995. Não tem mais o foco regional da "Carta dos 12 pontos", está agora organizado em todas as regiões do país e continua defendendo a revolução. "A emancipação do povo não acontecerá pela via parlamentar. Somos defensores da teoria marxista-leninista da luta armada", diz Cajá, que conversou com a reportagem na sede do Centro Cultural Manoel Lisboa, no Recife, onde a lembrança dos "heróis da causa revolucionária" está por todos os cantos. Como em dois quadros na parede: em um deles aparecem dois antigos militantes das Ligas ("Capivara", e Manoel Aleixo, o "Ventania") e os líderes estudantis Emmanuel Bezerra e Manoel Lisboa de Moura - este, o principal dirigente doPCR. Ao lado, em outra parede , um segundo quadro retrata um terceiro camponês do Partido, Amaro Félix.

Um episódio da história do Partido liga Cajá diretamente a Manoel Aleixo, chamado de "Ventania" pela rapidez com que realizava suas tarefas. Era conhecido também por ser um grande cantador de coco. Em 1973 foi preso e submetido a torturas. Tinha um encontro - chamado de "ponto", no jargão das organizações de esquerda - com um integrante do partido na igreja de Ribeirão (Zona da Mata). Cajá foi a pessoa designada para o encontro. "Era o dia 6 se setembro de 1973. Entrei na igreja e não havia ninguém. Pensei que a polícia tivesse descoberto tudo e que eu fosse ser preso. Mas a polícia também não estava lá. Ou seja: 'Ventania' enfrentou a tortura com dignidade, não entregou ninguém", relembra Cajá. O camponês é um dos nomes que constam da lista de desaparecidos políticos. Cajá seria preso anos depois, em 12 de maio de 1978, quando trabalhava sob orientação do arcebispo D. Helder Câmara, na Comissão de Justiçae Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife. A acusação: tentar reorganizar o PCR. Foi solto em 1 de julho de 1979, depois de uma ampla mobilização nacional.

Amaro Luiz de Carvalho, o "Capivara", foi preso em novembro de 1969. "Acabou a subversão em Pernambuco", comemorou o secretário de Segurança de Pernambuco ao anunciar a prisão. Do grupo do PCR era o de maior experiência de luta armada. Fizera treinamento político e militar em Cuba e na China. Ainda no tempo das Ligas, integrara o grupo do movimento que em 1963 tentou montar a guerrilha no país (veja matéria ao lado). Faltando dois meses para ser libertado, foi morto na Casa de Detenção no Recife, em 1971. Emmanuel e Manoel Lisboa foram presos em agosto de 1973 e mortos sob tortura.

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