12 fevereiro, 2009

Brasil foi peça importante no quebra-cabeça de Darwin



MARINA LANG
colaboração para a Folha Online

Cruzar o mundo em busca de aventuras, paisagens paradisíacas e ambientes exóticos com vinte e poucos anos e depois fazer dessa jornada um legado universal. Assim viveu o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) --com direito a uma estadia em terras brasileiras durante quatro meses.

A diversidade América do Sul foi o eixo central da teoria de Darwin, mas, de acordo com pesquisadores, por aqui, não foi apenas a natureza brasileira que o impressionou: abolicionista convicto, o jovem, com 23 anos à época, ficou chocado com um contexto escravocrata no Brasil do século 19.

"Há três coisas marcantes para Darwin naquele momento: a diversidade da fauna e flora, a distribuição delas na América do Sul e o contexto escravocrata. Naquele momento, o pensamento liberal estava mudando, com o progresso do humanismo. Em vários momentos nas suas anotações, ele cita o tratamento dado aos negros e se posiciona fortemente contra a escravidão", afirma Ildeu de Castro Moreira, diretor do Departamento de Popularização do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Há teóricos que afirmam, inclusive, que a escravidão teria sido o motor da Teoria da Evolução das Espécies.

O recém-lançado "Darwin's Sacred Cause" ("A Missão Sagrada de Darwin", que ainda não chegou ao Brasil), de autoria do PhD da Universidade de Manchester James Moore e de Adrian Desmond --ambos responsáveis pela biografia "Darwin", lançada em 1991-- promete esquentar esse debate em pleno bicentenário do nascimento do cientista.

Seu subtítulo: "How a hatred of slavery shaped Darwin's views on human evolution" ("Como o ódio à escravidão moldou a visão de Darwin sobre a evolução humana"). O primeiro capítulo do livro pode ser lido, em inglês aqui.

No diário de Darwin, há o registro de violentas críticas à escravidão brasileira. "Durante a briga do sr. Lennon com seu agente, ele ameaçou vender em um leilão público uma criança mulata ilegítima a quem o sr. Cowper é muito apegado. Além disso, ele quase pôs em prática a ideia de tirar todas as mulheres e crianças de seus maridos e vendê-los separadamente no mercado no Rio. Será possível imaginar dois exemplos mais horríveis e escandalosos?"

"Apesar disso", continua, "garanto que o sr. Lennon está acima da média dos homens comuns em bondade e bons sentimentos. Que estranho e inexplicável é o efeito do hábito e do interesse! Diante de fatos como este, como são fracos os argumentos daqueles que defendem que a escravidão é um mal tolerável!"

Caminhos de Darwin

Um projeto da Universidade Federal Fluminense recompôs o trajeto de Darwin no Rio de Janeiro --Estado no qual Darwin permaneceu durante 90 dias. No final de novembro de 2008, a trajetória foi feita por um visitante ilustre: o tataraneto de Darwin, Randal Keynes.

"Foram dois impactos: o escravista e o da natureza. Ele [Keynes] observou o quão importante o Brasil foi para a teoria, pois foi o primeiro local tropical no qual Darwin esteve", aponta a historiadora Martha Campos, que, junto à bióloga Sandra Celles, é coautora do trabalho "Caminhos de Darwin".

À época em que esteve no Brasil, Darwin ficou deslumbrado com o interior fluminense. "Ele passa por Niterói, pela estrada Engenho do Mato e pelo parque estadual da Serra da Tiririca, cujas vegetações são belíssimas, ricas e fantásticas", conta a pesquisadora.

Para Campos, o desafio essencial que Darwin propõe se divide tanto no eixo biológico quanto cultural. "Há a ideia de igualdade de origem entre os homens, o que é político e revolucionário. Essa percepção de igualdade de origem tem que ser dita até hoje", enfatiza.

Ildeu Moreira, no entanto, ressalta uma idiossincrasia darwiniana. "Ele tece ideias preconceituosas e generalistas em relação aos brasileiros e afirma que se trata de um povo ignorante. A visão de Darwin não é absoluta e também é influenciada pela potência inglesa."

Fonte: www1.folha.uol.com.br

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