12 dezembro, 2009

Desaparecimento do povo Supe foi causado por chuvas

Um estudo revelou que a causa do desaparecimento do povo Supe, que habitava a região costeira do Peru há mais de 3,6 mil anos, foi causado por terremotos e chuvas torrenciais promovidas pelo El Niño. Segundo os pesquisadores, os tremores de terra e os alagamentos promoveram uma constante marcha de areia por sobre terras férteis, acabando com a permanência do povo que construiu as maiores estruturas das Américas até então.

O povo Supe construiu templos piramidais de pedra extremamente grandes e elaborados, muito antes do surgimento das mais conhecidas pirâmides maias.

Os habitantes do vale Supe, na costa central peruana, floresceram ao lado de uma planície desértica. Eles pescaram com redes, irrigaram plantações de frutas e cultivaram algodão e uma grande variedade de vegetais, de acordo com evidências encontradas por Rudy Shadi Solís, diretor do Projeto Arqueológico Especial Caral-Supe e outro autor do artigo.

"Era uma comunidade marítima e agrária que foi bem sucedida por mais de 2 mil anos e que, de repente, enfrentou uma grande mudança que fez com que perdessem tudo - disse Mike Moseley, professor de antropologia na Universidade da Flórida e um dos autores do estudo.

A maior pirâmide cujos vestígios foram encontrados pelo arqueólogos media 167 metros de lado e se elevava em uma série de degraus por quase 30 metros de altura. De acordo com o estudo, o fim da civilização foi motivado por um terremoto que atingiu 8 pontos na escala Richter, provavelmente seguido por outros menores - a região apresenta uma das maiores atividades sísmicas do mundo.

Os terremotos colocaram abaixo as pirâmides e templos menores e foram seguidos por uma grande inundação. Mas os eventos foram apenas o início de uma série devastadora. Os terremotos desestabilizaram a formação de montanhas em torno do vale onde os Supe estavam, resultando em uma grande quantidade de terra e pedra que se espalhou pelo local.

Em seguida, as chuvas torrenciais promovidas pelo El Niño levaram os detritos para o oceano. Mas fortes correntes trouxeram de volta parte do material, dessa vez adicionado por areia, por todo o vale, acabando com as terras férteis que ali existiam.

Ventos fortes deslocaram grandes quantidades de areia em direção ao continente, que dificultaram ainda mais a vida dos habitantes, que por fim deixaram o local. Foi o fim da civilização Supe.

O artigo 'Environmental change and economic development in coastal Peru between 5,500 and 3,600 years ago', de Daniel Sandweiss, pode ser lido em breve por assinantes da Pnas em www.pnas.org.

noticias.terra.com.br/ciencia

17 outubro, 2009

Arqueólogos encontram templos de 3 mil anos no Sinai

Foto: EFE

A descoberta pode ajudar os arqueologistas a entender a história do povo da região

Reduzir Normal Aumentar Imprimir Arqueologistas que exploravam uma velha estrada militar no Sinai, no Egito, descobriram quatro templos que faziam parte de uma cidade fortificada com mais de 3 mil anos. Os estudiosos disseram que os templos serviriam para impressionar estrangeiros que visitavam a região, informou a AFP nesta terça-feira.

Entre as descobertas está o maior templo de tijolos de barro achado no local e fortificado com um muro de 3 metros de altura, disse Zahi Hawass, chefe do conselho supremo de antiguidades do Egito.

O arqueologista Mohammed Abdel-Maqsoud disse que o templo pode ajudar os estudiosos a desvendar a história cultural e militar do povo que habitava a região. A descoberta foi feita em Qantara, a 4 km do canal de Suez.

Redação Terra

Fonte: noticias.terra.com.br

Equipe escavará deserto mongol em busca de 'tesouro budista'

Uma equipe de arqueólogos austríacos e mongóis começa, neste sábado, uma escavação no deserto de Gobi, no sul da Mongólia, em busca de um tesouro budista que teria sido enterrado no local nos anos 30.


Os baús guardam o tesouro do Monastério de Khamaryn, destruído durante o governo comunista da Mongólia na década de 30.

Um historiador local, Zundoi Altangerel, disse que seu avô, um monge, salvou as relíquias do monastério e entregou a localização do tesouro ao neto.

Altangerel foi ao local e encontrou metade do tesouro. As peças foram colocadas para visitação pública em um museu criado por ele.

Segundo o historiador, como a segurança do museu era mínima, ele decidiu deixar o restante do tesouro, que inclui estátuas e objetos de decoração, enterrado no deserto.

Aventura
O aventureiro austríaco Michael Eisenriegler ficou sabendo da história e convenceu Altangerel a participar de uma busca pelo resto do tesouro.

Eisenriegler planeja transmitir a escavação, que começa neste final de semana, ao vivo pela internet.

"Não sei exatamente o que vamos encontrar. As outras caixas encontradas por Altangerel continham relíquias budistas preciosas, estátuas, livros, manuscritos", afirmou Eisenriegler ao correspondente da BBC em Ulan Bator, Michael Kohn.

Segundo Eisenriegler, o objetivo da escavação é ressaltar a história e a cultura budistas em Gobi.

Além disso, Altangerel usará o dinheiro arrecadado com a transmissão ao vivo da escavação pela televisão para pagar por uma melhoria no sistema de segurança do museu.

Todos os créditos de BBC Brasil - BBC BRASIL.com

Fonte: noticias.terra.com.br

07 outubro, 2009

CASA DO SENADOR - Memorial Luiz Gonzaga “empresta” o seu acervo

Mais uma homenagem se junta à memória de Luiz Gonzaga, que faleceu há 20 anos. A Estação Cultural Senador José Ermírio de Moraes, em Jaboatão dos Guararapes, recebe uma mostra itinerante organizada pelo Memorial Luiz Gonzaga. No local, serão exibidos paineis que contam a história do artista em quatro fases: Apresentação, Origem, o Artista e o Homem.

O início da exposição traz o trabalho de resgate cultural do Memorial Luiz Gonzaga, localizado no Pátio de São Pedro. Em seguida, a formação musical do “Rei do Baião” ganha destaque, mostrando sua afinidade com a sanfona de 8 baixos. Nesse ambiente, também haverá a exposição de um oratório com as imagens de São João do Carneirinho, Frei Damião e Padre Cícero, ressaltando a religiosidade do compositor.

Em “O Artista”, estão as razões da junção do trio zabumba, triângulo e sanfona, que permitiu a estilização dos ritmos nordestinos, incluindo o xote e o baião. Por fim, a “Exposição Itinerante Lua Gonzaga” mostra o homem por trás do músico e sua relação com familiares e amigos.

OFICINAS

Seguindo o tema da exposição, a Estação Cultural vai receber, no próximo dia 13, uma oficina de sanfona de 8 e 120 baixos, direcionada ao público infantil. No dia 16, é a vez do projeto “Sala de Cordel” movimentar o local, com contação de histórias e música para crianças.

SERVIÇO

Exposição Itinerante Lua Gonzaga

Estação Cultural Senador José Ermírio de Moraes - Avenida Beira Mar, 990, Piedade - Jaboatão dos Guararapes

Abertura: Hoje, às 19h

Visitação: Terças às sextas-feiras, das 9h às 17h; Sábados e domingos, das 13h às 17h

Entrada Gratuita
Informações: 3424-8704


Fonte: www.folhape.com.br

04 outubro, 2009

Resistência forjada nos canaviais

Trabalhadores rurais comemoram 30 anos da greve dos canavieiros, que mobilizou cerca de 100 mil pessoas e garantiu vitórias expressivas para a categoria

Andrea Pinheiro
andreapinheiro.pe@diariosassociados.com.br

Quando se fala em greves no Brasil, as primeiras a serem lembradas são as dos metalúrgicos do ABC paulista, responsáveis por forjar a liderança sindical de Luiz Inácio Lula da Silva e a ascensão política dele à Presidência da República. Em Pernambuco, porém, eclodiu um dos primeiros movimentos grevistas no campo do país depois do golpe militar de 1964. Os canavieiros mobilizaram cerca de 100 mil trabalhadores rurais da Zona da Mata e conquistaram vitórias expressivas para a categoria, que sempre sobreviveu debaixo de muita repressão patronal e policial. Vitórias de outubro de 1979 que trazem repercussão até hoje às condições de trabalho do homem do campo do estado.

"Pode-se dizer que a greve dos canavieiros de 1979 representou para o Nordeste o que a greve do ABC foi para o Sudeste", compara o presidente estadual do PT, Jorge Perez, integrante do movimento sindical desde o final da década de 70. A marca da ditadura militar na população rural nordestina, especialmente de Pernambuco, era muito forte. A memória das Ligas Camponesas permanecia viva entre os patrões e os militares. Os sindicatos passaram por intervenções e a organização dos trabalhadores foi esvaziada - até que conseguiu se recompor no fim dos anos 70.

A greve foi uma ousadia dos canavieiros. "Nas cidades, por mais que existissem resquícios da ditadura, as greves estavam respaldadas pela imprensa, por organismos sociais. No campo, não. Para se ter uma ideia, a primeira greve nos canaviais de São Paulo só aconteceu em 1983", explica a historiadora Maria do Socorro de Abreu e Lima, da Universidade Federal de Pernambuco. Um dos motivos que levaram à minimização da greve pernambucana foi o fato de ela ter sido rigorosamente legal. Os trabalhadores cumpriram todas as exigências da Lei 4.330 de junho de 1964. "A legalidade não tira a legitimidade da greve. Foi uma escolha consciente para burlar a repressão. Seguiram o ritual burocrático exigido e foram bem-sucedidos na mobilização e no protesto",diz a historiadora.

O presidente da Federação dos Trabalhadores em Agricultura de Pernambuco (Fetape) na época, José Rodrigues da Silva, lembra que o golpe desmobilizou os trabalhadores e as reclamações e reivindicações só aconteciam na Justiça do Trabalho. "Para denunciar e reivindicar, era preciso coragem, porque a iniciativa provocava reação do patronato, inclusive de violência", conta. Foi então que os canavieiros decidiram por uma ação coletiva para realizar uma campanha salarial. A primeira opção foi pelo dissídio (ações propostas na Justiça de Trabalho para solucionar questões que não puderam ser resolvidas pela negociação direta entre as partes), mas depois de estudarem a lei, os trabalhadores perceberam que o julgamento poderia demorar anos. "Queríamos fazer algo organizado, com a participação do maior número de trabalhadores e sem repressão, por isso, preferimos a greve legal", justificou José Rodrigues.

Mesmo seguindo todos os trâmites da Lei de Greve, os canavieiros surpreenderam os patrões coma paralisação. Dos 45 sindicatos rurais, 24 estavam mobilizados para a greve, representando 100 mil trabalhadores - em 1979, segundo a Fetape, havia 240 mil canavieiros em Pernambuco. Só que dois sindicatos, o de São Lourenço da Mata e o de Paudalho, Zona da Mata Norte, deflagraram o movimento uma semana antes do combinado. Entre os dias 2 a 9 de outubro, 20 mil trabalhadores pararam foices e facões. "Nós estávamos mais preparados e decidimos antecipar a greve porque poderíamos ter mais sucesso", lembra o então presidente do sindicato dos trabalhadores de Paudalho, Severino Domingos de Lima, mais conhecido como Beija-flor.

Um dia antes da deflagração da greve pelos demais sindicatos, os canavieiros e os patrões chegaram a um acordo. Entre as conquistas, estavam a restauração da tabela (referente à produção que o trabalhador deveria ter por dia) de 1965, o reajuste salarial de 56% em cima do salário mínimo e a convenção de 1979, a primeira convenção coletiva de trabalhadores rurais do país. "Foi algo espetacular", descreve José Rodrigues. O encerramento da greve foi festejado nas sedes dos sindicatos com carne de charque e cachaça. "Sinto um orgulho muito grande de ter feito aquela greve. Era um período em que precisávamos ter muita coragem e mobilização", diz Beija-flor, que hoje comanda a secretaria municipal de Assistência Social de Paudalho e viu o filho Ronaldo Domingos de Lima (PTN) ser eleito vereador pelo mesmo município.

www.diariodepernambuco.com.br

24 setembro, 2009

Uma questão historica: Três homens condenados à morte por assassínio de um albino

Tanzânia

Dar-es-Salaam - Um tribunal tanzaniano condenou hoje, quarta-feira, a pena suspensa três homens por terem morto um jovem albino, primeira condenação jamais pronunciada nesse país, onde os albinos são sempre alvos de mortes rituais

O tribunal da região ocidental de Shinyanga reconheceu os três homens culpados de terem morto em Dezembro de 2008 Matatizo Dunia, um albino de 14 anos, e de lhe ter cortado os membros.

"Os acusados podem sempre fazer recurso do seu julgamento", declarou à AFP o procurador Neema Lingo, acrescentando que 13 pessoas testemunharam esse processo de abertura em Junho de 2009.

Desde 2007, mais de 50 albinos, dos quais um número de crianças foram mortos, seus membros e seus orgãos foram considerados como trazerem chances e saúde.

Esta vaga de criminalidade tocou igualmente o vizinho Burundi.

As autoridades tanzanianas, acusadas de não proteger eficazmente os albinos, lançaram na primaveira última uma campanha nacional de denúncia anónima, visando colher junto da população das informações sobre os assassínios presumíveis de albinos

Os albinos sofrem de uma doença genética caracterizada por uma falta de pigmentação da pele, dos pêlos, cabelos e dos olhos.

Fonte: www.portalangop.co.ao

História // Jornalista Ângelo Castelo Branco revive momentos marcantes da política brasileira em livro que será lançado hoje no Recife

Em 1974, em plena ditadura militar, o então governador Marco Maciel ousou ir a um encontro promovido por lideranças da esquerda. Reunidos na extinta Livro 7, estavam figuras como Paulo Cavalcanti e Jarbas Vasconcelos. Maciel chega num Galaxie preto. A cena do abraço entre o governador e Cavalcanti é descrita por Angelo Castelo Branco, que hoje lança o livro Provocações da Memória, às 19h, na Academia Pernambucana de Letras. Na época, Castelo Branco, ex-colunista político do Diario, acompanhava Maciel como secretário de Imprensa do estado.

Em Provocações da Memória, o jornalista percorre lembranças desde o período de estagiário à chefia de imprensa do Ministério da Educação. Tudo pautado pelo cunho político, o que rende revelações pouco conhecidas e algumas nunca divulgadas por determinação da ditadura, como o show programado para Nova Jerusalém, em novembro de 1974. O espetáculo previa apresentações de Vinicius de Moraes, Milton Nascimento, Elis Regina, Gal Costa, MPB-4, Elizete Cardoso. E, ainda, Chico Buarque, recorda o autor, uma das figuras artísticas mais indesejada pelos militares.

A sequência dos relatos no livro, com 260 páginas e dezenas de fotografias, não segue ordem cronológica. Ora ele fala dos anos 60, ora pula para os anos 80, descrevendo os bastidores de eleições e a doença do presidente eleito Tancredo Neves às vésperas da posse. Analisa figuras políticas como os ex-governadores Moura Cavalcanti e Roberto Magalhães, passando pelo ex-deputado Egídio Ferreira e o ex-senador Marcos Freire.

Num estilo leve, Castelo Branco fala de coberturas jornalísticas que marcaram épocas. É o caso da libertação do comunista Gregório Bezerra da antiga Casa da Detenção, em troca do embaixador norte-americano Elbrink, sequestrado por um grupo de esquerda no Rio de Janeiro. "Especulava-se, entre nós (jornalistas), que, se o embaixador fosse encontrado, os prisioneiros seriam jogados do avião em pleno voo", revela.

Fonte: www.diariodepernambuco.com.br

17 agosto, 2009

Vale tudo: Homossexualidade na antiguidade

Na Antiguidade, ninguém saía dizendo por aí que fulano era gay, mesmo que fosse. Por milhares de anos, o amor entre iguais era tão comum que não existia nem o conceito de homossexualidade
por Humberto Rodrigues e Cláudia de Castro Lima
A união civil entre pessoas do mesmo sexo pode parecer algo bastante recente, coisa de gente moderna. Apenas em 1989 a Dinamarca abraçou a causa – foi o primeiro país a fazer isso. Hoje, o casamento gay está amparado na lei de 21 nações. Essa marcha, porém, de nova não tem nada. Sua história retoma um tempo em que não havia necessidade de distinguir o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo – para os povos antigos, o conceito de homossexualidade simplesmente não existia.

As tribos das ilhas de Nova Guiné, Fiji e Salomão, no oceano Pacífico, cerca de 10 mil anos atrás já exercitavam algumas formas de homossexualidade ritual. Os melanésios acreditavam que o conhecimento sagrado só poderia ser transmitido por meio do coito entre duplas do mesmo sexo. No rito, um homem travestido representava um espírito dotado de grande alegria – e seus trejeitos não eram muito diferentes dos de um show de drag queens atual.

Um dos mais antigos e importantes conjuntos de leis do mundo, elaborado pelo imperador Hammurabi na antiga Mesopotâmia em cerca de 1750 a.C., contém alguns privilégios que deveriam ser dados aos prostitutos e às prostitutas que participavam dos cultos religiosos. Eles eram sagrados e tinham relações com os homens devotos dentro dos templos da Mesopotâmia, Fenícia, Egito, Sicília e Índia, entre outros lugares. Herdeiras do Código de Hammurabi, as leis hititas chegam a reconhecer uniões entre pessoas do mesmo sexo. E olha que isso foi há mais de 3 mil anos.

Na Grécia e na Roma da Antiguidade, era absolutamente normal um homem mais velho ter relações sexuais com um mais jovem. O filósofo grego Sócrates (469-399), adepto do amor homossexual, pregava que o coito anal era a melhor forma de inspiração – e o sexo heterossexual, por sua vez, servia apenas para procriar. Para a educação dos jovens atenienses, esperava-se que os adolescentes aceitassem a amizade e os laços de amor com homens mais velhos, para absorver suas virtudes e seus conhecimentos de filosofia. Após os 12 anos, desde que o garoto concordasse, transformava-se em um parceiro passivo até por volta dos 18 anos, com a aprovação de sua família. Normalmente, aos 25 tornava-se um homem – e aí esperava-se que assumisse o papel ativo.

Entre os romanos, os ideais amorosos eram equivalentes aos dos gregos. A pederastia (relação entre um homem adulto e um rapaz mais jovem) era encarada como um sentimento puro. No entanto, se a ordem fosse subvertida e um homem mais velho mantivesse relações sexuais com outro, estava estabelecida sua desgraça – os adultos passivos eram encarados com desprezo por toda a sociedade, a ponto de o sujeito ser impedido de exercer cargos públicos.

Boa parte do modo como os povos da Antiguidade encaravam o amor entre pessoas do mesmo sexo pode ser explicada – ou, ao menos, entendida – se levarmos em conta suas crenças. Na mitologia grega, romana ou entre os deuses hindus e babilônios, por exemplo, a homossexualidade existia. Muitos deuses antigos não têm sexo definido. Alguns, como o popularíssimo hindu Ganesh, da fortuna, teriam até mesmo nascido de uma relação entre duas divindades femininas. Não é nada difícil perceber que, na Antiguidade, o sexo não tinha como objetivo exclusivo a procriação. Isso começou a mudar, porém, com o advento do cristianismo.

Sexo para procriar

O judaísmo já pregava que as relações sexuais tinham como único fim a máxima exigida por Deus: “Crescei e multiplicai-vos”. Até o início do século 4, essa idéia, porém, ficou restrita à comunidade judaica e aos poucos cristãos que existiam. Nessa época, o imperador romano Constantino converteu-se à fé cristã – e, na seqüência, o cristianismo tornou-se obrigatório no maior império do mundo. Como o sexo passou a ser encarado apenas como forma de gerar filhos, a homossexualidade virou algo antinatural. Data de 390, do reinado de Teodósio, o Grande, o primeiro registro de um castigo corporal aplicado em gays.

O primeiro texto de lei proibindo sem reservas a homossexualidade foi promulgado mais tarde, em 533, pelo imperador cristão Justiniano. Ele vinculou todas as relações homossexuais ao adultério – para o qual se previa a pena de morte. Mais tarde, em 538 e 544, outras leis obrigavam os homossexuais a arrepender-se de seus pecados e fazer penitência. O nascimento e a expansão do islamismo, a partir do século 7, junto com a força cristã, reforçaram a teoria do sexo para procriação.

Durante muito tempo, até meados do século 14, no entanto, embora a fé condenasse os prazeres da carne, na prática os costumes permaneciam os mesmos. A Igreja viu-se, a partir daí, diante de uma série de crises. Os católicos assistiram horrorizados à conversão ao protestantismo de diversas pessoas após a Reforma de Lutero. E, com o humanismo renascentista, os valores clássicos – e, assim, o gosto dos antigos pela forma masculina – voltaram à tona. Pintores, escritores, dramaturgos e poetas celebravam o amor entre homens. Além disso, entre a nobreza, que costumava ditar moda, a homossexualidade sempre correu solta. E, o mais importante, sem censura alguma – ficaram notórios os casos homossexuais de monarcas como o inglês Ricardo Coração de Leão (1157-1199).

No curto intervalo entre 1347 e 1351, a peste negra assolou a Europa e matou 25 milhões de pessoas. Como ninguém sabia a causa da doença, a especulação ultrapassava os limites da saúde pública e alcançava os costumes. O “pecado” em que viviam os homens passou a ser apontado como a causa dela e de diversas outras catástrofes, como fomes e guerras. Judeus, hereges e sodomitas tornaram-se a causa dos males da sociedade. Não havia outra solução a não ser a erradicação desses grupos. Medidas enérgicas foram tomadas. Em Florença, por exemplo, a sodomia foi proibida em 1432, com a criação dos Ufficiali di Notte (agentes da noite). O resultado? Setenta anos de perseguição aos homens que mantinham relações com outros. Entre 1432 e 1502, mais de 17 mil foram incriminados e 3 mil condenados por sodomia, numa população de 40 mil habitantes.

Leis duras foram estabelecidas em vários outros países europeus. Na Inglaterra, o século 19 começou com o enforcamento de vários cidadãos acusados de sodomia. E, entre 1800 e 1834, 80 homens foram mortos. Apenas em 1861 o país aboliu a pena de morte para os atos de sodomia, substituindo-a por uma pena de dez anos de trabalhos forçados.

Ciência maluca

Outro tratamento nada usual foi destinado tanto à homossexualidade quanto à ninfomania feminina: a lobotomia. Desenvolvida pelo neurocirurgião português António Egas Moniz, que chegou a ganhar o prêmio Nobel de Medicina de 1949 por isso, ela consistia em uma técnica cirúrgica que cortava um pedaço do cérebro dos doentes psiquiátricos, mais precisamente nervos do córtex pré-frontal. Na Suécia, 3 mil gays foram lobotomizados. Na Dinamarca, 3500 – a última cirurgia foi em 1981. Nos Estados Unidos, cidadãos portadores de “disfunções sexuais” lobotomizados chegaram às dezenas de milhares. O tratamento médico era empregado porque a homossexualidade passou a ser vista como uma doença, uma espécie de defeito genético.

A preocupação científica com os gays começou no século 19. A expressão “homossexual” foi criada em 1848, pelo psicólogo alemão Karoly Maria Benkert. Sua definição para o termo: “Além do impulso sexual normal dos homens e das mulheres, a natureza, do seu modo soberano, dotou à nascença certos indivíduos masculinos e femininos do impulso homossexual(...). Esse impulso cria de antemão uma aversão direta ao sexo oposto”. Em 1897, o inglês Havelock Ellis publicou o primeiro livro médico sobre homossexualismo em inglês, Sexual Inversion (“Inversão sexual”, inédito no Brasil). Como muitos da época, ele defendia a idéia de que a homossexualidade era congênita e hereditária. A opinião científica, médica e psiquiátrica vigente era de que a homossexualidade era uma doença resultante de anormalidade genética associada a problemas mentais na família. A teoria, junto das idéias emergentes sobre pureza racial e eugenismo nos anos 1930, torna fácil entender por que a lobotomia foi indicada para os homossexuais.

A situação só começou a mudar no fim do século passado, quando a discussão passou a se libertar de estigmas. Em 1979, a Associação Americana de Psiquiatria finalmente tirou a homossexualidade de sua lista oficial de doenças mentais. Na mesma época, o advento da aids teve um resultado ambíguo para os homossexuais. Embora tenha ressuscitado o preconceito, já que a doença foi associada aos gays a princípio, também fez com que muitos deles viessem à tona, sem medo de mostrar a cara, para reivindicar seus direitos. Durante os anos 80 e 90, a maioria dos países desenvolvidos descriminalizou a homossexualidade e proibiu a discriminação contra gays e lésbicas. Em 2004, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos invalidou todas as leis estaduais que ainda proibiam a sodomia.

“Em toda a história e em todo o mundo a homossexualidade tem sido um componente da vida humana”, escreveu William Naphy, diretor do colégio de Teologia, História e Filosofia da Universidade de Aberdeen, Reino Unido, em Born to Be Gay – História da Homossexualidade. “Nesse sentido, não pode ser considerada antinatural ou anormal. Não há dúvida de que a homossexualidade é e sempre foi menos comum do que a heterossexualidade. No entanto, a homossexualidade é claramente uma característica muito real da espécie humana.” Para muitos, ainda hoje sair do armário continua sendo uma questão de tempo. As portas, no entanto, vêm sendo abertas desde a Antiguidade.

Este armário não te pertence
Personalidades que não escondiam suas preferências
O que tinham em comum pessoas como os imperadores Adriano e Nero, o filósofo Sócrates, o artista e inventor Leonardo da Vinci? Todos eles mantiveram relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. A homossexualidade experimentou ao longo da história da humanidade diversos altos e baixos. De comportamento absolutamente natural, passou a ser “pecado” e até a ser crime. Aqui, algumas histórias de personalidades que amaram seus iguais.

Alexandre, o Grande

O conquistador Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), também foi conquistado. Seu amante era Hefastião, seu braço direito e ocupante de um importante posto no Exército. Quando ele morreu de febre, na volta de uma campanha na Índia, Alexandre caiu em desespero: ficou sem comer e beber por vários dias. Mandou proporcionar a seu amado um funeral majestoso: os preparativos foram tantos que a cerimônia só pôde ser realizada seis meses depois da morte. Alexandre fez questão de dirigir a carruagem fúnebre, decretando luto oficial em seu reino.

Júlio César

O romano Suetônio escreveu em seu As Vidas dos Doze Césares, livro do século 2, sobre os hábitos dos governantes do fim da república e do começo do Império Romano. Dos 12, só um deles, Cláudio, nunca teve relações homossexuais. O mais famoso, Júlio César (100-44 a.C.), teve aos 19 anos um relacionamento com o rei Nicomedes – César era o passivo. Entre todos os romanos, os mais excêntricos foram Calígula (12-41 d.C.) e Nero (37-68). O primeiro obrigava súditos a beijar seu pênis. O segundo teve dois maridos e manteve relações com a própria mãe.

Maria Antonieta

Segundo William Naphy no livro Born to Be Gay, havia um “reconhecimento generalizado da bissexualidade” da rainha da França Maria Antonieta (1755-1793). O escritor inglês Heste Thrale-Piozzi escreveu, em 1789, que a monarca encontrava-se “à cabeça de um grupo de monstros que se conhecem uns aos outros por safistas” – ou seja, lésbicas.

Ricardo Coração de Leão

As aventuras homossexuais do rei inglês Ricardo I (1157-1199) eram notórias na época. Um de seus casos, quando ele ainda era duque de Aquitânia, foi com outro nobre, Filipe II, rei da França. Uma crônica da época afirma: “Comiam os dois todos os dias à mesma mesa e do mesmo prato, e à noite as suas camas não os separavam. E o rei da França amava-o como à própria alma”. Outros monarcas europeus, como Henrique III da França (1551-1589) e Jaime IV da Escócia e I da Inglaterra (1566-1625), também tiveram vários amantes do mesmo sexo.

Oscar Wilde

O dramaturgo inglês (1854-1900) casou-se e teve dois filhos, mas também teve vários casos com homens. A relação mais marcante foi com o lorde Alfred Douglas, com quem mantinha o hábito de procurar jovens operários para o sexo. O pai do amante, o marquês de Queensberry, acusou Wilde de ser sodomita. O escritor processou o nobre por difamação – e arruinou-se. Foram três julgamentos, e o marquês juntara provas de sodomia contra ele. Wilde foi condenado a dois anos de trabalhos forçados. Na prisão, definhou – e morreu pouco tempo após deixar a cadeia.


Amor na ilha de Lesbos
Há muito pouco registro do lesbianismo até o século 18
O historiador romano Plutarco dizia, no século 1, que na cidade grega de Esparta todas as melhores mulheres amavam garotas. Apesar disso, há muito pouco registro sobre o lesbianismo até pelo menos o século 18. Os termos “lesbianismo” e “lésbica”, aliás, têm origem na ilha grega de Lesbos, no mar Egeu, local de nascimento da poetisa Safo (610-580 a.C.) – seu nome originou a palavra “safismo”. Embora os livros de Safo tenham sido queimados por ordem de Gregório de Nazianzus, bispo de Constantinopla, cerca de 200 fragmentos resistiram ao tempo e ao cristianismo. Os poemas revelam uma paixão exuberante ao amor feminino, o que faz crer que a autora tenha partilhado desse sentimento. É impossível, no entanto, afirmar se a autora realmente amou as mulheres que enaltece em seus poemas – ou se era apenas uma questão de estilo. Um dos primeiros códigos legais a fazer menção ao homossexualismo feminino é um francês de 1270. Ele estabelecia que o homem que mantivesse relação homossexual deveria ser castrado e, se reincidente, morto. E também que uma mulher que tivesse relações com outra mulher perderia o “membro” se fosse pega. Que “membro” seria cortado, porém, o código não especifica.

Saiba mais
Livros

Born to Be Gay – História da Homossexualidade, William Naphy, Edições 70, 2006

No livro, o autor faz um profundo estudo da homossexualidade desde a Antiguidade.

O Amor Entre Iguais, Humberto Rodrigues, Mythos, 2004

Traz aspectos históricos, sociais e legais sobre o assunto.

Você Sabia? Fazer sexo por dinheiro já foi um ato sagrado

por Álvaro Silva

O costume pode assombrar as mais liberais das mocinhas de hoje, mas foi registrado pelo grego Heródoto, no século 3 a.C. Na Babilônia, nenhuma mulher se casava antes de passar pelo templo de Istar, deusa do amor e da fertilidade. Lá, ficava à espera do primeiro homem que lhe jogasse uma moeda. Os mais generosos jogavam três. Mas o que importa é que a mulher não podia recusar o parceiro: para os babilônicos, a deusa ficaria muito ofendida caso a oferta não fosse aceita, e o casamento da jovem não teria o menor futuro.

Segundo Heródoto, depois de pegar os trocados, a senhorita deveria tirar a roupa e transar com o estranho ali mesmo, no templo da deusa.

Outra pista histórica da fé em Istar é o poema da sacerdotisa Enheduana, filha do rei Sargão de Agade (2334-1179 a.C.), que alertava: “Desde que a senhora Istar desceu à terra do Sem-Retorno / O touro não cobre mais a vaca, o asno não se curva mais sobre a sua fêmea / O homem não se curva para a mulher na rua / O homem dorme em seu aposento / A mulher dorme sozinha”.



"Deusas" casavam com reis
Álvaro Silva
No mesmo período em que mulheres se prostituíam em nome de Istar, devotas de Inana – deusa da fertilidade dos sumérios – encenavam o casamento da divindade. Durante a celebração, que coincidia com o ano novo, uma mulher era escolhida na multidão para representar Inana. E o rei, tido como uma figura divina, transformava-se em Dumuzi, seu amante.

Após os primeiros cânticos, os dois passavam para um aposento à parte, na torre do templo – o zigurate. Lá, a mulher conduzia o monarca. Ela deveria dançar sensualmente, perfumar as coxas com aromas silvestres e deitar seu amante no leito, onde manteriam relações sexuais.

O rito estendeu-se pelo Oriente Médio, até ser incorporado à cultura grega. Inana foi substituída por Afrodite. E a prática passou a ser chamada, entre os gregos, de hieros gamos, ou “sexo sagrado”.


Sexo santo• Os rituais de sexo sagrado foram uma prática comum em diversos povos por quase um milênio. Os relatos mais antigos sobre sacerdotisas-prostitutas estão no épico Gilgamesh, escrito por volta de 2500 mil a.C., em que a deusa adorada é a babilônica Istar.

• Existem diversas explicações sobre a origem dos ritos sexuais. Uma das mais aceitas é a de que as celebrações derivem dos ritos de casamento de tribos primitivas. Em muitas tribos, a mulher, antes de casar-se, era entregue a um outro homem.

• O povo romano foi o último a ver o sexo como sagrado. As mulheres iam até o templo da deusa Juno Sospita e, em troca de favores, transavam com estranhos. O fim do costume é explicado pela expansão do Império. Durante as guerras, os romanos passaram a cultuar deuses – protetores dos soldados.

historia.abril.com.br

14 agosto, 2009

Atualidades: "Guerra ao narcotráfico" é nova desculpa "humanitária"

Colômbia é o próximo alvo dos Estados Unidos.

Marcelo Barba ( texto extraído do jornal Opinião Socialista )
Poucos meses após a sua vitória sobre a Iugoslávia, o governo norte-americano já tem um novo alvo para sua intervenção "humanitária": a Colômbia. Como já afirmávamos em artigos durante a guerra da Iugoslávia, o imperialismo ianque quer construir uma nova ordem mundial baseada na sua absoluta e indiscutível liderança. Para isto, é necessário que eles acabem com as situações "problemáticas" que ainda existem nas regiões mais estratégicas do planeta.
Agora é a vez de tentar acabar com os mais antigos grupos guerrilheiros ainda em ação no continente latino-americano: as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Exército de Libertação Nacional (ELN) na Colômbia. Usando a desculpa de um suposto envolvimento destes grupos com o tráfico de drogas, os EUA estão, direta e indiretamente, aprofundando seu envolvimento no conflito.
Há mais de 40 anos, a Colômbia vive em uma guerra civil que já matou, somente nos últimos 15 anos, mais de 20 mil pessoas. O recente aumento dos choques entre guerrilha, exército (apoiado cada vez mais pelos EUA) e paramilitares de direita (apoiados por narcotraficantes, empresários e grandes latifundiários), junto com a crise econômica que assola todos os países latino-americanos adeptos do neoliberalismo, fez com que a produção industrial do país caísse, apenas no primeiro semestre, 14,3%. O caso mais grave é o das montadoras, que trabalham somente com um quarto da sua capacidade produtiva.
Os EUA tentam fortalecer a autoridade do presidente colombiano Andrés Pastrana, bastante abalada pela crise que vive o país. As iniciativas de diálogo entre o governo e a guerrilha ainda não avançaram nenhum milímetro. O exército norte-americano já tem organizado um cerco à Colômbia. Além das suas bases no Panamá, estão instaladas ou em fase de construção, bases militares em Aruba, na Venezuela, Peru e Equador, além da própria Colômbia.
Somente neste ano, US$ 300 milhões já foram enviados como ajuda financeira para "combater o narcotráfico".
Mas a guerra contra o narcotráfico (desculpa para toda esta intervenção) é uma completa hipocrisia. Hoje, a Colômbia sozinha é responsável por 80% da produção de cocaína no mundo. O dinheiro do narcotráfico está em todas as instituições do Estado colombiano. Mesmo que algumas vezes, autoridades tenham que prender um ou outro traficante ou destruir algum laboratório clandestino, isto só serve para "livrar a cara". Recentemente, a mulher de um coronel norte-americano, que é um dos coordenadores das ações anti-tráfico na Colômbia, foi presa por usar o serviço postal do exército para enviar cocaína para os EUA. Da mesma forma, todos os funcionários da embaixada norte-americana em Bogotá estão sendo investigados pelo mesmo motivo.
Os paramilitares que são patrocinados, entre outros, pelos narcotraficantes, contam com a impunidade e mesmo a ajuda do Exército e da justiça. O ex-presidente Ernesto Samper foi apoiado financeiramente pelos traficantes na sua campanha eleitoral.
Os EUA não estão preocupados com a produção de drogas, mas com a consolidação do seu domínio no "quintal" da América Latina. As desculpas podem mudar (ajuda humanitária em Kosovo, drogas na América Latina) mas o objetivo é sempre o mesmo: aprofundar o processo de recolonização mundial para garantir os lucros das grandes corporações norte-americanas.

EUA quer "força de paz" para intervir

Apesar de todo o aparato militar montado pelos EUA na Colômbia e nos países vizinhos, é improvável que haja a curto prazo uma intervenção direta norte-americana no país. Da mesma forma que em Kosovo, tudo estará bem enquanto nenhuma vida americana for perdida. É a síndrome do Vietnã ainda presente.
Por outro lado, a Colômbia é uma situação mais difícil de se resolver. Com uma guerrilha dominando 40% do território, embrenhada nas selvas e montanhas do país, não é difícil imaginar as dificuldades e estragos que uma intervenção direta à la Vietnã poderia trazer para os EUA.
Desta forma, a tática norte-americana é outra. Além do financiamento do exército nacional colombiano, do envio de "assessores" militares e de armas modernas, os EUA querem a participação dos países sul-americanos numa "força de paz" na Colômbia. Na verdade, querem uma intervenção sob sua direção, mas que sejam os soldados brasileiros, argentinos, peruanos, equatorianos e venezuelanos a tomarem os tiros. Os presidentes da Argentina, Carlos Menem e do Peru, Alberto Fujimori, já declararam que podem participar de uma suposta "força de paz" na região. Mas, eles sabem que isto não será nada fácil e poderia piorar a situação já problemática em seus próprios países, atolados na crise econômica e política. (M.B.)

Uma perspectiva equivocada

É fundamental que as organizações guerrilheiras tenham uma política direcionada ao movimento operário, estudantil e popular, chamando à solidariedade e apoio do conjunto dos movimentos populares do continente e em todo mundo para lutar contra essa ameaça de intervenção e barrar qualquer iniciativa dos governos latino-americanos de intromissão, mesmo que estejam disfarçadas de "iniciativas políticas".

Defesa de uma paz negociada?

Porém, um dos obstáculos para um triunfo da luta popular e da guerrilha é a orientação limitada da direção das organizações guerrilheiras. Elas parecem buscar uma paz negociada, com algumas diferenças da política oficial, mas aceitando conversações em que os árbitros sejam figuras dos governos burgueses latino-americanos, dos meios imperialistas ou da Igreja, e que não coloque em questão a natureza capitalista e submissa do Estado colombiano. Não se deve aqui cometer erros como a negociação entre a guerrilha de El Salvador e o governo local que na prática terminou numa verdadeira rendição política da Farabundo Marti e na manutenção das mesmas oligarquias no poder.

Bases capitalistas

As FARC, por exemplo, têm um programa que não coloca uma proposta socialista. Pelo contrário, sua perspectiva é a reconstrução do país sob bases capitalistas, aceitando até a grande propriedade e as multinacionais, limitando-se a defender uma nova distribuição da renda. O ELN tem um programa semelhante.
Essa limitação não impede que os revolucionários busquem estabelecer a mais ampla unidade de ação para derrotar a burguesia e o imperialismo que tentam afogar sua justa rebelião armada. (M.B.)

Fonte e crédito: historianet.com.br

Eric Hobsbawm: um espelho do mundo em mutação


Por Paulo Sérgio Pinheiro

Eric Hobsbawm, o mais eminente historiador de língua inglesa, está em São Paulo. Participou do Congresso sobre Cidadãos e Escravos no Mundo Moderno, na UNICAMP, em Campinas, onde fez conferências na tarde do dia 6 e na manhã do dia 7. Se houvesse um Prêmio Nobel para a História, há muito tempo o antigo professor da Universidade de Londres já teria sido premiado. Hobsbawm, 71 anos - "sou de 1917, como a revolução soviética..." sublinhou na conversa -, é o grande renovador da História Social.

Seus numerosos livros e ensaios, largamente traduzidos, influenciam gerações de historiadores, do Japão, passando pelos Estados Unidos (onde nos últimos cinco anos esteve em períodos regulares na New School for Social Research, em Nova York) até o Brasil. Um de seus muitos méritos foi conceber a história do trabalho industrial como a história de toda a sociedade. Sem excluir categorias pouco estudadas, como em seus livros Bandidos e Rebeldes Primitivos, que iluminaram as pesquisas sobre a violência e o protesto. Sua trilogia sobre a história contemporânea, que atingiu o grande público, tornando-se best seller em toda a parte, A Era das Revoluções, A Era do Capital e A Era dos Impérios (que, como os dois anteriores, já aqui traduzidos, será publicado em agosto pela editora Paz e Terra), alia uma formidável erudição com o prazer do texto. A última coleção de seus ensaios publicada em português, Mundos do Trabalho, abrange a iconografia do movimento socialista na Europa até um alentado estudo sobre os sapateiros, bastiões das revoluções do século XIX, incorporando informações da Bulgária até o Paraná. Essa capacidade de Hobsbawm, graças a sua incansável curiosidade sobre as transformações na sociedade "desde a Idade da Pedra até o laser", de fazer associações complexas entre épocas e países diferenciados, abrange a América Latina. Sucessivas viagens à Colômbia, Chile e Peru têm suscitado provocantes ensaios sobre a conjuntura política desses países, publicados geralmente na influente The New York Review of Books, da qual Hobsbawm é um colaborador freqüente.

Como se não bastasse toda essa variedade de interesses, é ainda um respeitado especialista do jazz, tendo publicado livro e ensaios sob o pseudônimo de Francis Newton. Para conversar sobre a perestroika, a crise dos partidos socialistas, as revoluções estudantis de 1968 e, inevitavelmente, sobre a transição brasileira, Hobsbawm recebeu durante uma manhã o Caderno 2, para uma entrevista exclusiva para O Estado de S. Paulo cujos principais trechos aqui publicamos:

Caderno 2: Aqui no Brasil estamos sempre procurando fazer uma avaliação mais elaborada sobre a chamada perestroika e o processo de abertura na União Soviética. Como o senhor avaliaria os últimos desenvolvimentos desse processo?

Eric Hobsbawm: Não sou especialista em assuntos soviéticos e, portanto, o que tenho a dizer não é particularmente qualificado.

Gostaria de lembrar, primeiro, que por aproximadamente trinta anos houve toda uma escola de ciência política, nos Estados Unidos e no Ocidente, que afirmava ser inteiramente impossível algo como Gorbachev acontecer na URSS. Entretanto, o surgimento de Gorbachev, da glasnost e da perestroika refuta toda a teoria do totalitarismo. Aparentemente as diversas teorias definiram os países como totalitários precisamente pela sua incapacidade de caminharem na direção em que a. União Soviética, evidentemente, está indo. Em segundo lugar, parece-me que o próprio Gorbachev declarou claramente qual é a justificativa tanto para a glasnost como para a perestroika. Essencialmente, é a crise da economia da União Soviética; a estagnação crescente dessa economia; o crescente atraso da União Soviética em relação a outros países, e, portanto, a necessidade básica de modificar o sistema de administração burocrática e o planejamento central. A novidade, creio, sobre Gorbachev e a perestroika, é que ele liga este processo a uma necessidade de democratização política. Em outras palavras, não é uma mera mudança tecnocrática, destinada a promover elementos mais ou menos democráticos. Para mim, essas parecem ser as características de mudanças análogas, na China. Mas no que diz respeito a Gorbachev, ele aparentemente acredita ser impossível realizar essa reforma sem uma democratização. Uma democratização não necessariamente no sentido em que nós, do Ocidente, entendemos: com eleições com escolha entre partidos diferentes, por exemplo. Acho que essas são as características principais.

As dificuldades são enormes e de dois tipos: em parte, há a participação dos interesses constituídos da burocracia, incluindo a burocracia do Partido Comunista e, em parte, a dificuldade em proporcionar incentivos econômicos efetivos e melhorias para a população trabalhadora. A União Soviética operou durante muito tempo uma economia ineficiente, mas relativamente estável e poderia continuar assim se não fosse a competição internacional. Mas, essencialmente, a URSS é uma economia que oferece aos trabalhadores comuns uma grande insegurança e liberdade num nível econômico muito baixo. Isso vai ser trocado pela esperança de uma considerável melhoria no padrão de vida e na possibilidade de escolha. Mas, no momento, não há muita escolha e melhorias no padrão de vida soviético e, conseqüentemente os trabalhadores - que devem ser essencialmente a base do sucesso da perestroika - estão esperando para ver o que vai acontecer a eles.

Caderno 2: Poderíamos dizer que o processo ocorreu porque as condições estavam maduras. Mas... por que somente agora? Como o senhor explicaria a emergência deste processo? Que foi a faísca?

Hobsbawm: Creio que não posso responder a essa pergunta em detalhe e acho que ninguém pode. A questão principal é como um homem, com as opiniões de Gorbachev, conseguiu chegar à mais alta posição da União Soviética. Isto sugere que dentro do próprio Partido Comunista deve ter havido um apoio considerável para esse tipo de movimento reformista. Todavia, acho que podemos generalizar deste modo: primeiro, no curso de transformar a União Soviética num Estado moderno, numa sociedade moderna, numa economia moderna, gerou-se o que no Ocidente chamamos de classe média: um grande setor culto e tecnicamente competente em alto grau. E foi certamente entre eles, descontentes com uma administração tradicional, militarista e em geral muito ignorante, que isso se tornou intenso. Parece-me que não é por acaso que os centros acadêmicos, como o de Novosibirsk, foram e permanecem, o cérebro da perestroika. Em segundo lugar, mais especificamente, acho que um grande numero de controladores da economia - equivalente aos industriais daqui - os grandes diretores de fábricas, usinas, e assim por diante, devem perceber, cada vez mais, a ineficiência e a natureza caótica da economia que eles deveriam controlar. Devem ter entendido que perderam muito tempo não aumentando realmente a produção e, sim, cumprindo um planejamento que significava por exemplo estocar pilhas de matéria-prima ou fazer negócios privados com outras companhias. Isso é uma forma extremamente ineficiente de gerir a economia. Então, acho que houve um apoio enorme por parte desses setores cultos, que representam agora um grande setor da população soviética, se comparado com qualquer época passada. A oposição principal vem da burocracia e, passivamente, da massa de trabalhadores. Por que somente agora? Parece-me que, de alguma forma, os vinte anos de Brezhnev foram, inicialmente, uma espécie de ar puro, depois das tragédias de Stalin, pós-Stalin é Kruschev. Por bastante tempo, este ar puro foi bem aceito por todos e houve, na verdade, uma melhoria modesta - mas muito específica - nas condições materiais. Eventualmente, os custos da estagnação de Brezhnev foram tais - e isso inclui, por exemplo, o crescimento espetacular da corrupção no sistema - que eles se tornaram intoleráveis dentro do Partido; talvez, mais ainda, dentro dos setores militares e da polícia. Andropov foi o primeiro dos grandes reformadores. Ele era o chefe da KGB.

Caderno 2: Um aspecto importante da perestroika é a reabilitação de muitas figuras políticas na União Soviética. Por que tem sido tão difícil reabilitar Trotsky... se este é um caso de reabilitação?

Hobsbawm: Aqui, novamente, não tenho nenhuma informação em particular mas, como você sabe, reabilitar figuras do passado ou personagens da história da Revolução Russa é uma questão altamente política na URSS; poderíamos dizer que é uma questão ideológica, que não pode ser julgada nos padrões da história acadêmica. De certa forma, a reabilitação de Trotsky seria algo como reabilitar Martinho Lutero, na Igreja Católica. Por um lado, é mais fácil porque Trotsky nunca encontrou uma Igreja vazia como Lutero mas, por outro, é "parece-me que muito difícil porque durante duas ou figuras do passado não três gerações de comunistas e, parti são, necessariamente, cularmente, os soviéticos, definiram boas para o futuro" sua ortodoxia como não sendo a de Trotsky. É particularmente claro, para você e para mim, que esses velhos conflitos atualmente têm apenas importância histórica. Todavia, o problema não é acharmos que se deva reabilitar Trotsky, mas, sim, uma Igreja reabilitar seus grandes hereges. E acho que isso demora muito mais.

Caderno 2: Se tentarmos entender o que está acontecendo na Europa, o que o senhor diria sobre a alegada crise dos partidos comunistas dos países europeus?

Hobsbawm: Não há uma ligação lógica entre a perestroika e a crise. Diria que é uma crise da esquerda e não uma crise dos partidos comunistas, porque é uma crise que afeta todos os movimentos trabalhistas e socialistas. Acredito que o desenvolvimento da União Soviética tem sido uma fonte de inspiração para as pessoas de esquerda, não apenas comunistas, simplesmente porque todo socialista tem que carregar o pesado fardo de tentar explicar a União Soviética, mesmo que ele não seja favorável ao stalinismo soviético. As pessoas não dizem que um sistema stalinista é a conseqüência lógica do socialismo? Conseqüentemente, é um enorme alívio para a esquerda descobrir que este é um sistema capaz e disposto a reformar-se. Talvez seja melhor dizer que a crise da esquerda é mais sutil nos partidos comunistas do que entre os partidos democráticos; porque os partidos socialistas se ajustaram há muito tempo, de modo a ser partidos de governo em potencial e, portanto, partidos de economia mista, reformistas; ao passo que os partidos comunistas, pela própria origem, sempre estiveram limitados a uma atitude de oposição, ou de transformação imediata ou, pelo menos, à esperança de transformação imediata. O exemplo da tal crise é, logicamente, o Partido Comunista Francês que, virtualmente, desmoronou em dez anos. De modo geral, até mesmo o Partido Comunista Italiano está, no momento, recuado e, de certa forma, com medo de perder terreno para o Partido Socialista. As pessoas costumam falar sobre o eurocomunismo, mas, na verdade, o fenômeno mais interessante é o socialismo europeu: o renascimento dos partidos socialistas desde os anos 60, numa base nova, freqüentemente numa base muito mais moderna politicamente. Isso é obvio na França, onde os partidos socialistas foram virtualmente destruídos e o Partido Socialista, de Mitterrand, teve uma construção nova, baseada no que sobrou. E, na Espanha - onde o Partido Socialista virtualmente deixou de existir durante e depois da Guerra Civil -, o novo partido de Gonzalez simplesmente reclamou o título, mas não num esquema de continuidade. Também na Itália, em Portugal, na Grécia e assim por diante. Todavia, acho que há partidos socialistas tradicionais que, por serem partidos democráticos reformistas há muito tempo se adaptam mais facilmente. Este é claramente o caso da Alemanha, da Suécia e de outros países como a Áustria. E há lugares em que eles não foram capazes de se adaptar, como na Grã-Bretanha, onde mergulharam numa crise da qual só agora estão emergindo. Mas essa é uma crise à parte. Acho que, essencialmente, é uma conseqüência das mudanças na estrutura da economia mundial e das sociedades, desde 1950. Essas mudanças liquidaram as bases sociais tradicionais dos movimentos trabalhistas e, incidentemente, desde o começo dos anos 70 também dizimaram a política reformista tradicional do Estado; política essa que a maioria dos governos democratas do Ocidente (sociais-democratas ou não) tem adotado durante gerações.

Caderno 2: O senhor publicou um estudo sobre a classe trabalhadora, chamado A Marcha da Classe Trabalhadora Parou? Por que essa interrogação no final? O senhor tem alguma dúvida sobre isso? O que quis dizer com essa interrogação?

Hobsbawm: A interrogação não é minha. Essa interrogação pretendia significar que o estudo representava uma discussão sobre a esquerda. Há dez anos dei uma conferência na Inglaterra, na qual tentei avaliar a situação da classe trabalhadora no país, cem anos depois de Karl Marx. Cheguei à conclusão de que o desenvolvimento da classe trabalhadora, assim como uma boa parte do povo inglês - que é composto principalmente de trabalhadores - havia parado no começo dos anos 50 e, desde então, notamos um declínio gradual. O clima no movimento trabalhista britânico era tal, que minha palestra provocou uma discussão violenta: especificamente por parte de alguns setores do movimento sindical que se ressentiram com minha crítica à tática nos anos 70 (dividir a classe trabalhadora, em vez de criar uma união). E o estudo a que você se referiu - publicado no começo dos anos 80 - foi essencialmente um relatório dessa discussão. Mas, é claro, o declínio - relativo ou absoluto - do apoio à classe trabalhadora não é mais a questão. A questão, agora, é como pode haver uma recuperação. Do meu ponto de vista, acho que não devemos ser muito pessimistas sobre as possibilidades dos partidos e movimentos socialistas na Europa porque o fato é que esses partidos, praticamente em todos os lugares da Europa, com exceção da Turquia e da Manda, constituem os governos, ou a maioria dos governos alternativos. Assim, não estamos falando de partidos ou movimentos que desapareceram de cena. Alguns de fato desapareceram, como o Partido Comunista Francês; mas os partidos socialistas, na forma socialista ou comunista, constituem fatores principais para os governos. Portanto, a questão não é se esses partidos têm futuro, mas que tipo de futuro.

Caderno 2: O senhor aplica esse mesmo tipo de reflexão ao marxismo? Nos anos 70, discutimos muito a crise do marxismo no Brasil e na América Latina. Qual é a situação, agora?

Hobsbawm: Existe, indubitavelmente, uma crise do marxismo que reflete a crise da esquerda, em geral. Há muitas razões para essa crise que, essencialmente, estamos vivendo desde o início dos anos 70, e talvez antes, num período de crise global da economia, seja a capitalista, seja, também, a socialista. Como já mencionei, antes a esquerda teve, no passado, duas alternativas ou possibilidades de programas complementares para essa situação, elaborados durante a última crise geral, nos anos 30. Uma era o planejamento central, e a outra era uma administração da economia. Agora, nos anos 70 e 80, ambos se mostram suscetíveis de críticas. O planejamento central stalinista e a saída pela economia - que também foi criticado - sucumbiram temporariamente com o fim do longo boom de trinta anos, o que, na verdade, os encorajou. E, conseqüentemente, a esquerda não encontrou uma resposta para a crise. Por outro lado, podemos dizer que ninguém mais tem essa resposta. Por exemplo, aqui no Brasil, tentaram muitas formas de lidar com a crise e nenhuma delas adiantou. Ainda assim, para os marxistas ou para os socialistas, essa falha, na análise da superação, é intelectualmente mais séria do que para os capitalistas. Então, há um outro aspecto de crise do marxismo - e acho que ele é um reflexo da situação de 1968, no sentido em que o renascimento do marxismo foi uma conseqüência da radicalização do final dos anos 60, um fenômeno mundial indiferente às condições políticas. Baseado no movimento estudantil lembramos que os anos 50 e 60 representaram um aumento sem precedência e esmagador no número de pessoas que faziam cursos superiores; assim, os estudantes eram, demograficamente, uma parte significativa da população, o que não acontecia antes. Em 1848, nos movimentos estudantis do século XIX, os estudantes eram 5 mil pessoas nas cidades grandes. Enquanto, por volta de 1968, estamos falando em termos de centenas de milhares. Agora, acho que essa radicalização levou um grande número de pessoas para o marxismo. Ao mesmo tempo, a realidade na qual as pessoas viviam nos anos 60 e 70 estava tão distante da realidade que Marx descreveu em 1867 - ou Lênin nos anos 20 - que, na verdade, o marxismo clássico era menos atraente e, conseqüentemente, encontramos todos os tipos de novos marxismos. O marxismo foi, em grande escala, parece-me, uma forma de infundir um caráter político radical, ou mesmo revolucionário, no que quer que fosse a ideologia da moda. Encontramos, então, um grande número de marxismos refinados: o marxismo estruturalista, o marxismo psicoanalítico, o marxismo econômico neoclássico, e assim por diante. Acho que, para muitas dessas pessoas, o marxismo indicava que "somos lacanianos, estruturalistas, mas somos também revolucionários" e, parece-me, isso foi uma base relativamente insatisfatória e instável sobre a qual se reviveu o marxismo como análise do mundo e, conseqüentemente, facilmente esgotável. Em parte, devido a uma mudança política das gerações de estudantes, a maioria na França, movendo-se bruscamente para diferentes direções em poucos anos e, também, de certa forma, por causa das ideologias às quais o marxismo esteve ligado em 1968. E finalmente, é claro, o marxismo sempre refletiu o estado da radicalização política dos movimentos para mudar o mundo e, à medida que estes movimentos estão em crise, o marxismo também está em crise. Em alguns países, parece-me, essa crise é muito mais aguda por razões políticas - ou por razões de moda, como na França - mas ela existe claramente em muitos países, e não podemos negar que está também ligada à crise dos partidos comunistas.

Caderno 2: Apesar de toda essa crise, a história das classes trabalhadoras experimentou enorme desenvolvimento nos últimos dez anos. Mesmo no Brasil, paradoxalmente, apesar da ditadura e do regime autoritário, muitas pesquisas e novos livros apareceram; e o senhor sabe também que seus livros são muito lidos aqui. Como o senhor explica esse sucesso e riqueza das pesquisas em termos de orientação e descobertas sobre a história da classe trabalhadora - da história social em geral?

Hobsbawm: É claro que há uma crise do marxismo, mas isso não quer dizer que, no curso geral do desenvolvimento do trabalho marxista e da análise marxista, houve recessão. De certa forma, o que desapareceu foi uma enorme quantidade de literatura sobre aquilo que se dizia marxista. E, assim, foi feito um considerável número de modificações importantes - por exemplo, algumas das séries econômicas básicas de Marx - e parece-me que há importantes trabalhos progredindo. Como você mesmo observa, muitas obras marxistas continuam a ser publicadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, havia um grande número de estudantes radicais no final dos anos 60 e, apesar do fato de muitos deles terem deixado de ser radicais, hoje há, provavelmente, um número muito maior de historiadores marxistas ou acadêmicos marxistas naquele país, do que havia antes. Na verdade, não estamos falando sobre uma crise, mas da crise comparada com a situação de vinte ou cinqüenta anos atrás. Sobre a questão específica que você mencionou - a situação do marxismo na Inglaterra - não creio que possa explicar o que a energia intelectual do meu país, voltada para a teoria marxista, contribuiu para a História. Uma razão talvez seja a ausência de uma forte tradição de educação filosófica, assim como existiu na Alemanha e, de uma forma diferente, na França. Outra, talvez seja o fato de que na Grã-Bretanha - pelo menos quando eu era estudante - nas principais universidades, Oxford, Cambridge, a História era uma matéria importante; não uma matéria para especialistas, mas um estudo difundido na universidade: o mesmo que o Latim e o Grego haviam sido.

Com o declínio do Latim e o Grego, particularmente na Grã-Bretanha - onde a política e a Constituição eram fortemente enraizadas na História -, esta tornou-se uma matéria importante para a educação dos jovens que, esperava-se, iriam ingressar na vida pública; assim como estudo do Direito o foi no Brasil e em muitos países da América Latina. Então, muitas pessoas estudaram História. De qualquer modo, este é um fenômeno peculiar e estou muito próximo deste fenômeno para ser capaz de ver em perspectiva - já que pertenço precisamente àquela geração na qual isto foi particularmente marcante. Eu diria também que, naquela época, não era só a História que atraía os marxistas e o marxismo. Nos anos 30, havia também, paradoxalmente, a Ciência Natural, e um grupo bastante representativo de cientistas britânicos tornou-se marxista naquela época. Matemáticos, etc.

Hoje o marxismo virtualmente desapareceu do meio da Ciência Natural, e isso desde os anos 40. Em parte, como resultado do desenvolvimento da União Soviética, mas não totalmente. Considerando que isto permaneceu na História, eu, como historiador, diria que a História se liga particularmente bem à interpretação marxista, desde que, no meu ponto de vista, o conceito materialista é o centro e o âmago da análise marxista.

Caderno 2: De cena forma, essa influência foi tão grande que, de fato, "construiu??" a História Social, que é hegemônica na maioria das universidades. O senhor concorda com esse ponto de vista, ou seja, a disciplina não é mais vista como História Marxista, mas como História Social, que é dominante na maioria dos departamentos de História, mesmo nos Estados Unidos?

Hobsbawm: Gostaria que você estivesse certo e gostaria que toda a História Social fosse uma História Marxista, mas sinto dizer que não é o caso. Acho que os marxistas tiveram um papel importante ao focalizar e cristalizar a História Social. Entretanto, acho que as raízes da moderna História Social não são particularmente marxistas.

Caderno 2: Como toda essa história sobre os odores, os perfumes, as mentalidades, de alguns livros franceses?

Hobsbawm: Parece-me que esse é o tipo de História Social que não é necessariamente marxista. Acho que a história marxista - na verdade qualquer história boa - não é apenas uma tentativa de investigar, descrever e analisar o passado, mas analisar como o mundo muda. O problema básico da história marxista, ou de qualquer história, é descobrir como a humanidade começou na Idade da Pedra e chegou à Idade da Tecnologia, à Idade Nuclear. E, conseqüentemente, o problema principal da análise histórica, que até mesmo o historiador mais especializado não pode esquecer, é como explicar essa extraordinária transformação. Entretanto, há outro aspecto que me interessa muito que é - usando terminologia marxista clássica - o problema da relação entre a base e estrutura, ou seja, como as várias atitudes ou atividades da vida estão ligadas, num período particular. Agora, o tipo de História Social que analisa seja lá o que for, a história do cheiro, ou da menstruação ou alguma coisa assim, não tem ligação direta, em si mesma, com os problemas principais da transformação histórica. Por outro lado, tem uma relação direta com o problema das superestruturas, exatamente como, digamos, o conceito de sexualidade se relaciona com outros aspectos da sociedade. São, freqüentemente, muito inteligentes, intuitivas e perceptivas, mas não acho que sejam marxistas.

Caderno 2: Posso convidá-lo a fazer algumas considerações sobre o atual desenvolvimento da situação social e política do Brasil depois do fim do regime militar?

Hobsbawm: Você pode convidar, mas não acho que possa responder, simplesmente porque não tenho conhecimento suficiente sobre a situação do Brasil. Acho que o País, no momento, está vivendo um clima especial. Visito o Brasil, ocasionalmente, há muito tempo, e não me lembro de um clima semelhante, no qual o povo não tem certeza quanto ao futuro, mostra-se pessimista, não sabe ou duvida se vão ser encontradas soluções. Acho que isto é novo. Os brasileiros, mesmo no passado, sempre foram muito esperançosos quanto ao futuro, de uma forma ou de outra. Mas não acho que este seja um problema específico do Brasil. Eu diria que a América Latina tem sido a principal vítima da crise atual. Tanto economicamente, como no sentido de uma certa desagregação política. Têm havido mudanças; porém mudanças que parecem não ser ainda soluções alternativas. Então, se você olha não apenas para o Brasil, mas para toda a América Latina - para o México, para a Argentina, para o Peru, para a Colômbia - você encontra uma situação de drama, de crise e de incertezas sobre o que acontecerá a todos esses países. No Brasil, isto pode ser mais dramático por causa do contraste com um período recente de expansão auto-confiante e esperança. Mas isso não é um fenômeno especificamente brasileiro. Acho que ele deve ser visto numa perspectiva global. Nessa situação política, tudo o que posso dizer é que a transição parece estar se prolongando por um tempo muito longo e, talvez, também possa dizer que não me parece um bom sinal para a política do País que pelo menos duas das figuras no comando das próximas eleições presidenciais tenham sido pessoas ou fenômenos de quem eu ouvi falar há 26 anos, quando vim ao Brasil pela primeira vez. Parece-me que figuras do passado não são necessariamente boas para o futuro.

Paulo Sérgio Pinheiro é professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo.
"O surgimento de Gorbachev, da glasnot e da perestroika refuta toda a teoria do totalitarismo"
"Parece-me que figuras do passado não são, necessariamente, boas para o futuro"
"O problema não é acharmos que se deva reabilitar Trotsky, mas sim, uma Igreja reabilitar seus grandes hereges"
"Qualquer história boa não é apenas uma tentativa de investigar e analisar o passado, mas analisar como o mundo muda. O problema básico é descobrir como a humanidade começou na Idade da Pedra e chegou à Idade Nuclear"
* Entrevista transcrita do jornal O Estado de S. Paulo, de 12 de junho de 1988. Caderno 2

Fonte e crédito: scielo.br

Eric Hobsbawm: Entrevista

Nascido em Alexandria (Egito) em 1917, o historiador Eric Hobsbawm, viveu nas cidades de Viena e de Berlim, antes de iniciar sua vida acadêmica em Londres. Considerado um dos mais importantes historiadores atuais, Hobsbawm, além de velho militante de esquerda, continua utilizando o método marxista para análise da história, sempre a partir do princípio da luta de classes, defendendo até hoje seu compromisso com o comunismo.Sem Eric Hobsbawm, hoje com 83 anos, não haveria um retrato tão amplo da história dos séculos XIX e XX em seus diferentes aspectos, como o que foi retratado nos quatro livros que escreveu sobre o período.

Após analisar a história do Ocidente nos dois últimos séculos e de expor as tendências para o atual em O Novo Século (Companhia das Letras), lançado aqui em 2000, o historiador está escrevendo sua própria biografia .Em entrevista publicada no jornal Folha de São Paulo em 15 de fevereiro de 2001, Hobsbawm fala de seus trabalhos mais recentes, suas visões de história e das tendências do pensamento ocidental.O historianet publica abaixo a íntegra dos principais trechos da entrevista concedida pelo historiador para o jornal Folha de São Paulo.Folha - O senhor está escrevendo a história de sua vida, pode dizer algo sobre ela ?

Hobsbawm - Como dizia um grande amigo meu, Fernand Braudel ("O Mediterrâneo"), um historiador nunca está de folga. Tudo o que fazemos, de uma maneira ou de outra, está ligado a atividade de fazer história. Por isso posso dizer que esse livro não será apenas uma biografia íntima, e sim uma mistura disso com minha trajetória intelectual. Afinal, as pessoas não vivem apenas a sua vida privada.Folha - O senhor fez livros abrangentes, que se preocuparam em fazer um amplo painel de grandes períodos. Concorda que hoje exista uma tendência oposta, que faz com que pesquisadores limitem seus estudos a problemáticas e períodos de tempos menores ?Hobsbawm - Sim. Acho que a história feita em ambiente acadêmico tende, atualmente a ser mais especializada, por causa da maneira pela qual a profissão está estruturada. É preciso fazer pesquisa para alcançar uma determinada graduação, depois, mais pesquisa para fazer-se doutor, e assim por diante. O foco, então, tem de ser específico para obedecer a esse mecanismo.Acredito que, hoje, mesmo para um historiador experiente, está cada vez mais difícil propor uma abordagem ampla de um período muito grande. Acho que meu caso é exceção. A maioria da história que é escrita hoje é mais pontual, mais especializada.

Folha - A culpa seria então das regras da universidade ?Hobsbawm - Acho que as universidades têm responsabilidade. Ao formatarem a profissão dessa maneira, inibem análises amplas. A história mais geral tem sido escrita agora por muitas pessoas. É raro que só um autor o faça.Folha - Acha que isso é positivo ?Hobsbawn - Acho que é mais desejável que a história mais ampla seja feita de maneira individual, pois assim é mais fácil que o público comum a leia. Por outro lado, sem o trabalho dos especialistas é impossível para um autor sozinho fazer um bom trabalho que seja ao mesmo tempo abrangente e sintético, como o que eu venho tentando fazer.

Folha - Quando você começou, a vida acadêmica estava relacionada à vida política das pessoas. Acredita que isso fez com que parte importante da produção literária fosse bloqueada?Hobsbawm - Num sentido mais amplo, não. Não existem muitos países que censuraram a história. Havia aqueles ligados à então União Soviética, onde era impossível escrever história a não ser que se tivesse determinadas opiniões. Em outros países, no geral, havia uma visão consensual sobre o capitalismo, mas sempre houve espaço para que outra visões servissem como reflexão e para que se publicasse sobre elas.Meus livros, mesmo durante a Guerra Fria, foram muito bem recebidos nos EUA, nas universidades principalmente, mesmo sem corresponder às linhas políticas que ancoravam aquele governo. Devo dizer que, no mesmo período, eles não seriam publicados na União Soviética.

Folha - O senhor ainda não se aborreceu com a quantidade de entrevistadores que perguntam porque você ainda é comunista ?Hobsbawm - Sempre tentei escrever história inspirado pelo marxismo, mas o valor dessa história não depende de meus pontos de vista. As pessoas sabem que minhas idéias são de esquerda, e, em alguns momentos, isso fez com que eu fosse mais popular. Em outros momentos, menos. O valor da minha história não está em atender as pessoas com minhas opiniões, mas em ser uma boa história e por isso ser aceita.

Fonte e crédito: historianet.com.br

Eric Hobsbawm: A crise do capitalismo e a atualidade de Marx

Marcello Musto: Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do "marxismo-leninismo", não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: "O pensador do terceiro milênio?". Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de "relevância atual".

Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título "Ein Gespenst Kehrt zurük" (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do programa "In Our Time" da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, "são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx" e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal George Soros a seguinte frase: "Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz". Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova "demanda de Marx", do ponto de vista político?

Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado.

Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da "sociedade burguesa", cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam.

A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lênin. Os assim chamados "novos movimentos sociais", como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o "proletariado", dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada por Marx.

Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.

Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a explicar as profundas contradições do mundo atual?

Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, principalmente – baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta.

As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer "retorno a Marx" será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser definitivo para todo o sempre.

Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI, renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?

Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista.

Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias "socialistas" foram organizadas sob o chamado "socialismo realmente existente". Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.

No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de "O Capital". Como mostram os "Grundrisse", aliás. Inclusive, um Capital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso.

Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.

Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os "Grundrisse". Escritos entre 1857 e 1858, os "Grundrisse" são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?

Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os "Grundrisse" provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca problemas importantes que não foram considerados no "Capital", como por exemplo as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).

Marcello Musto: No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: "Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos "Grundrisse", menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev". Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os "Grundrisse" "trazem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na "Ideologia Alemã". Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos "Grundrisse" hoje?

Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.

Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?

Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.

[Tradução para Sin Permiso (inglês-espanhol): Gabriel Vargas Lozano]
[Tradução para Carta Maior (espanhol-português): Marco Aurélio Weissheimer]

Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do "longo século XIX": "A Era da Revolução: Europa 1789-1848" (1962); "A Era do Capital: 1848-1874" (1975); "A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro "A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.

Fonte e créditos: socialismo.org.br

A Era dos Extremos: o breve século XX.

Hobsbawm, Eric.
São Paulo, Companhia das Letras, 1995. 598p.

resenhado por Vito Letízia

Talvez o maior mérito do livro A era dos extremos de Hobsbawm seja transmitir uma forte impressão do tamanho da catástrofe humana que foi o século XX. Catástrofe em relação às mortandades gigantescas, sem equiparação possível com qualquer período histórico anterior. Catástrofe em relação à desvalorização do indivíduo, ao qual, durante longos momentos do século, foram negados todos os direitos humanos e civis, que haviam sido arduamente conquistados durante o ‘longo século’ precedente: 1789-1914.

Aliás, a impressão de catástrofe é forte justamente porque o período histórico anterior se marcara em todas as mentes como o século que colocara a idéia do progresso como inevitabilidade, não só em termos materiais, mas também em relação ao avanço das liberdades, apesar das monarquias e das forças conservadoras, que resistiam tenazmente desde a Revolução Francesa.

Hobsbawm incita à colocação de uma pergunta, que seu livro não consegue responder: como foi possível chegar a isso? Como foi possível descer tanto na escala da civilização, apesar de uma vitória tão gigantesca para as forças progressistas como a Revolução Russa de 1917? Hobsbawm não pretendia mesmo responder a tudo. Mas incitar o leitor a se fazer perguntas dolorosas já é um mérito inestimável. As deficiências do livro estão mais no enfoque adotado na abordagem de alguns temas importantes.

O ano de 1917, explica Hobsbawm, pretendia ser o início da revolução mundial. E, desse modo, foi visto por milhões de pessoas, mesmo em países longínquos. Apesar disso, Hobsbawm acha que o mundo não estava maduro para uma revolução proletária naquele momento. É possível que seja uma suposição válida; e não é fácil provar o contrário. Mas cabe perguntar: será que algum dia haverá uma revolução que atinja imediatamente os principais países do mundo? Talvez o problema a resolver não seja por que a Revolução de 1917 não se espalhou imediatamente pelo mundo, mas antes por que a chama da revolução proletária pôde ser tão rapidamente submergida por uma vaga reacionária mundial. Vaga que Hobsbawm mostra detalhadamente ser mais ampla que os movimentos baseados explicitamente no modelo italiano ou alemão de fascismo.

Em todo o caso, verificou-se concretamente que os bolcheviques ficaram isolados e encurralados numa revolução nacional, cuja preocupação passou a ser logo a simples sobrevivência. Fato consumado. Mas o problema aqui é que Hobsbawm faz uma ligação direta entre a sobrevivência da Revolução Russa e a sobrevivência de uma unidade política abrangendo todo o antigo Império Russo. Essa ligação só teria sentido na perspectiva de uma "revolução socialista num só país", caso em que o tamanho do país é uma questão vital. Hobsbawm, porém, parece não acreditar na viabilidade da revolução socialista só na Rússia. Então seria o caso de fazer a distinção necessária: revolução mundial e sobrevivência da unidade do Império ex-czarista eram coisas diferentes e mesmo contrárias. Aliás, o governo bolchevique, em sua primeira fase, não pretendia impor-se sobre todo o ex-Império. Nessa fase é que foram concedidas, sem conflito, as independências da Finlândia, da Polônia e dos Estados Bálticos, todos anteriormente províncias do Império Russo. Nenhum desses novos países declarou-se socialista. Nem por isso, o governo bolchevique se achou na obrigação de impedir sua independência.

Não perceber a contradição entre revolução e império faz Hobsbwam valorizar a disciplina bolchevique de modo acrítico, misturando disciplina consciente e arregimentação cega, além de atribuir aos bolcheviques, objetivos que estes não se davam antes de 1921. Manter o Império havia sido objetivo central do czar e da impotente burguesia russa (impotente em parte porque se submetia ao czar e por amor ao Império), não era objetivo dos revolucionários .

Sem perceber isso, não dá para entender como foi possível que, após uma revolução da importância da de 1917, que despertou na humanidade as imensas esperanças descritas por Hobsbawm no capítulo doze, tenha sido imediatamente seguida do mais profundo retrocesso político do século. Apenas a não-extensão da Revolução Russa não é suficiente para explicar isso. A Revolução Francesa terminou militarmente derrotada. Nem por isso deixou de exercer influências libertárias que as próprias monarquias contra-revolucionárias tiveram que levar em conta para sobreviver. Já no caso da Revolução de 1917, ocorre o contrário. Cerca de dez anos depois desce a mais negra noite de todos os tempos: é "meia-noite do século", disse Victor Serge, sem que o partido que dirigira a Revolução Russa tivesse perdido o poder. Alguma coisa de muito essencial deve ter deixado de funcionar, sob a máscara de uma falsa continuidade política. E deve ter sido uma reviravolta muito mais grave e profunda que o Thermidor da Revolução Francesa.

As conseqüências disso se fizeram sentir antes, durante e no fim da Segunda Guerra Mundial. Hobsbawn descreve os sofrimentos causados pela Guerra como mero resultado das próprias operações militares. Mas nem tudo foi resultado inevitável do simples uso do poder destrutivo disponível na época. Na Primeira Guerra Mundial não se havia visto ato tão sanguinário como o massacre de quatro mil prisioneiros poloneses, por ordem de Stalin, em 1940. A Paz de 1945 repetiu as barbaridades da Paz de Versalhes com aumento, apesar da participação da potência ‘socialista’ entre os vencedores de 1945. A maior parte dos deslocamentos de povos no fim da última guerra foi puro revanchismo, com caráter explícito de limpeza étnica. Por incrível que pareça, no fim da Primeira Guerra Mundial foi possível ver um presidente burguês: Woodrow Wilson, dos EUA — ridicularizado por Lenin —, pregar uma paz sem anexações. No fim da Segunda Guerra Mundial, não houve voz contra o revanchismo. Treze milhões de alemães foram expulsos da Europa oriental e central, com o único objetivo de aumentar o lebensraum eslavo. Foram expulsos simplesmente pelo fato de serem alemães. É de Stalin a frase: "Um alemão só é bom, morto". Não disse um nazista. Assim, o que W. Wilson não havia conseguido em 1919 — ser levado a sério como campeão da democracia da autodeterminação dos povos — foi conseguido por Roosevelt e Truman sem muito esforço. Porque estes tinham em frente, como termo de comparação, a URSS, não mais a Rússia revolucionária dos tempos de Wilson.

Hobsbawm dá uma grande importância à depressão dos anos 30 como determinante dos rumos políticos da época. A depressão teria tido um papel decisivo em fazer da democracia "uma planta frágil", em muitos países. Isso até tem um fundo de verdade. Mas não é possível entender completamente a fragilidade da democracia no entreguerras sem lembrar o progressivo afastamento entre luta por liberdades democráticas e luta pelo socialismo, praticado pela III Internacional desde o começo. Essa prática — depois teorizada para justificar o despotismo stalinista — fez que o segmento importante do movimento operário deixasse de ser um baluarte contra os movimentos restauracionistas da ordem social, gerados pelo capitalismo em crise. Antes de 1914, ‘todo’ o movimento socialista fora também um movimento libertário. Além disso, para Hobsbawm, o impacto da depressão teria sido a grande força renovadora das idéias econômicas da época, porque a depressão teria desacreditado o pensamento econômico clássico, abrindo espaço para as políticas de regulação do capitalismo posteriores. Especialmente em razão desse descrédito da ortodoxia econômica, no segundo pós-guerra, os "formuladores de decisões", como diz Hobsbawm, passaram a ter preocupações centrais: obter uma distribuição de renda mais igualitária do que a normalmente ensejada pelo capitalismo ‘puro’ e evitar grandes níveis de desemprego.

Hobsbawm se deixa levar muito facilmente pela crença na racionalidade dos "formuladores de decisões" capitalistas. Ele chega a ponto de chamar de reforma do capitalismo" a adoção das políticas de pleno emprego e bem-estar social no segundo pós-guerra. Tal ‘reforma’ é definida por ele como "essencialmente uma espécie de casamento entre liberalismo econômico e democracia social". Um pouco de resguardo seria melhor.

Em situações de grande perigo social, os "formuladores de decisões" instalados no poder tendem fortemente a dividir-se entre dois tipos básicos de saída, conforme suas inclinações pessoais: partir para o enfrentamento com os movimentos reivindicatórios ou partir para concessões. Ora, no fim da Segunda Guerra Mundial, o perigo para o capitalismo era uma realidade assustadora. Diferentemente do que ocorrera na vez anterior, nenhum país em guerra da Europa ocidental, exceto a Grã-Bretanha, conseguira manter de pé o aparelho de Estado capitalista. Todos os demais países beligerantes emergiram da Guerra com aparelhos de Estado improvisados, em que se misturavam instituições criadas pela resistência antifascista e instituições de emergência criadas pelos exércitos de ocupação. Em várias regiões, houve ‘zonas liberadas’ por partisans antes da chegada dos exércitos regulares. Tentar impor soluções capitalistas ortodoxas naquela parte da Europa, naquela época, seria realmente demência suicidária. Razão pela qual todos os economistas com a tarefa de se dirigir ao grande público viraram subitamente humanistas sensíveis. Para explicar suas mudanças de opinião, economistas antes conhecidos como empedernidos mastigadores de ‘fatores de produção’, passaram a falar nas tristes recordações da Grande Depressão. Mas as tristes recordações não explicavam tudo.

Hobsbawn observa, pertinentemente, que os resultados da Segunda Guerra Mundial retiraram a extrema-direita do cenário político por um bom tempo. No fim da Guerra, só os "formuladores de decisões" dispostos a fazer concessões tinham voz e audiência. É isso que mais explica por que foi tão fácil fabricar um pacto aceitável para trabalhadores e patrões, então alçados à categoria nova de ‘parceiros sociais’. Chamar essas concessões de "reformas do capitalismo" exagera seu alcance e objetivos. As políticas de bem-estar social e pleno emprego do segundo pós-guerra foram uma resposta adequada a uma situação política em que o sistema capitalista se encontrava extremamente fragilizado na Europa ocidental, ao passo que a oriental estava ocupada pela URSS. Mas mesmo nos EUA, cujo governo do Partido Democrata terminara a Guerra prestigiado, não havia condições de ignorar as esperanças da enorme massa mobilizada para a Guerra e que retornava buscando o ‘mundo melhor’ que a propaganda oficial prometera durante todo o conflito. Por outro lado, em termos econômicos, na Europa, partia-se de infra-estruturas destruídas, com os trabalhadores e toda a classe média, baixa e alta, reduzidos às rações alimentares distribuídas pelo Exército dos EUA. Quer dizer: as possibilidades de investimento eram aparentemente infinitas, com grande espaço para uma distribuição mais igualitária de rendimentos, sem renúncia a lucros.

Hoje se pode ver que aquilo não era exatamente uma reforma do capitalismo porque assim que aquelas condições anormais deixaram de existir, o estado de bem-estar começou a ser atacado. E já nos anos 80, todos os economistas com clientes importantes voltaram aos mesmos cacoetes clássicos dos anos 20 e 30. Eles simplesmente voltaram a seu estado normal. Porque os Estados capitalistas estão agora firmes; e os "formuladores de decisões", no momento, não estão conseguindo enxergar a menor nuvem negra no horizonte à esquerda.

Talvez o pecado mais grave do livro seja a falta de conclusões convincentes sobre o "socialismo real" e o colapso da URSS. Sem dúvida, é bastante boa a comparação que Hobsbawm faz entre a URSS e China, assim como sua percepção de que o Estado burocrático chinês se mantém porque lançou suas reformas sobre uma população majoritariamente camponesa. Mesmo assim, não é o caso de deixar passar sem retoque a opinião da mídia, impressionada com a aparente estabilidade do regime chinês. E quanto às reformas de Gorbachev, a conclusão de que: "A URSS sob Gorbachev caiu nesse poço em expansão entre a glasnost e a perestroika", é muito pouco para explicar um colapso fragoroso que, por incrível que pareça, apenas cinco anos antes estava fora de qualquer previsão, mesmo por parte de seus mais ferrenhos adversários.

Não há como fugir a impressão de que, a respeito da URSS, viveu-se um equívoco universal durante decênios. Seria preciso pelo menos tentar uma explicação que começasse a abordar esse equívoco, partilhado pela direita e pela esquerda, quanto ao caráter e, sobretudo, à viabilidade do "socialismo real".

Em certo ponto do livro, Hobsbawm parece reconhecer que o regime soviético era inviável:

A tentativa de construir o socialismo produziu conquistas notáveis — não menos a capacidade de derrotar a Alemanha na Segunda Guerra Mundial —, mas a um custo enorme e inteiramente intolerável, e daquilo que acabou se revelando uma economia sem saída.

As "conquistas notáveis", no caso, estão todas ligadas à industrialização da URSS, que chegou a alçar-se à condição de segunda potência industrial do mundo, partindo praticamente do zero no fim da Guerra Civil, em 1920. Entretanto, o fato de que essa industrialização terminou num beco sem saída recoloca o problema do valor do método escolhido ou de algum equívoco fundamental que deve ter havido em suas origens; ou surgido em algum ponto de sua edificação.

Para tentar uma primeira resposta, poder-se-ia inquirir se uma industrialização obtida a chicote pode ter vida longa. O senso comum já é suficiente para suspeitar que o chicote não é bom instrumento para desenvolver a criatividade. O chicote pôde fazer a URSS alcançar momentaneamente o Ocidente, mas não ultrapassá-lo. A coerção desmesurada já continha os germens da estagnação tecnológica que levaria a URSS ao impasse mais tarde. Isso pode ser afirmado, mesmo que se queira aceitar o chicote como "motor" válido para a construção de algum "socialismo" monástico de baixo consumo. De qualquer maneira, no caso da URSS real, interessa ressaltar que o resultado alcançado foi provisório. Sua industrialização avançava inexoravelmente para um beco sem saída.

No entanto, apesar de reconhecer que o resultado final da industrialização stalinista foi a "economia sem saída", Hobsbawm mantém-se apegado à idéia de que a URSS não teria outro caminho a seguir nos anos 20-30:

Qualquer política rápida de modernização da URSS, nas circunstâncias da época, tinha que ser implacável e, porque imposta contra o grosso do povo, impondo-lhe sérios sacrifícios, coercitiva em certa medida.

A própria frase — "política (...) coercitiva em certa medida"— deixa no ar uma questão: em que medida? Aquela medida de coerção foi correta? Mais lógico, à luz do que Hobsbawm sabe hoje, seria dizer que talvez alguma coerção fosse inevitável "nas circunstâncias da época", porém a coerção stalinista provou ser incompatível com uma industrialização inovadora e sustentável a longo prazo. Ou, até mesmo, poderia continuar achando que, em 1929, não houvesse um caminho muito diferente à disposição de Stalin, mas para ser coerente com sua própria conclusão final sobre a economia soviética, Hobsbawm deveria também lembrar que o governo da URSS tinha que encontrar um meio de dispensar a coerção "contra o grosso do povo", o mais cedo possível, se quisesse manter a economia viável .

Sobra a impressão de que, a respeito da URSS, o arrazoado de Hobsbawm é, em parte, emotivo. Isso transparece mais fortemente na convalidação implícita das palavras de Oskar Lange em seu leito de morte:

Havia uma alternativa para a corrida indiscriminada, brutal, basicamente não planejada, ao primeiro plano qüinqüenal?. Gostaria de dizer que havia, mas não posso.

Hobsbawm parece não se dar conta que Oskar Lange, um defensor da economia planificada, morreu em 1965, ou seja, morreu a tempo de levar consigo suas convicções intactas. Os que morreram ou vieram a morrer depois de 1991 não têm mais esse privilégio, a não ser que, de 1989 em diante, tenham passado a circular de olhos vendados.

Além do mais, já antes do desabamento da URSS, surgiram novas informações sobre os anos 30, que O. Lange não chegou a conhecer. Informações que Hobsbawm mostra ter, ao sugerir veladamente que, somente para o Segundo Plano Qüinqüenal (1933-1937), poder-se-ia fazer uma estimativa de 16,7 milhões de mortos, vítimas da fome e da repressão. Isso é inferido da constatação do decréscimo da população da URSS no período do plano; informação classificada como secreta em 1938. Quer dizer: Stalin proibiu a divulgação das estatísticas demográficas do Segundo Plano Qüinqüenal porque estas depunham contra sua "vitória econômica".

As informações que se têm hoje sobre os anos 30 são arrasadoras. Mesmo continuando a aceitar que a URSS não poderia dispensar a imposição de sacrifícios ao povo naquela época, sobra base mais que suficiente para afirmar, em 1990, que aquela coerção foi de eficácia imediata altamente duvidosa, além de comprovadamente nefasta para o desenvolvimento futuro da URSS. Nessa questão da suposta necessidade histórica do stalinismo, talvez melhor seja deixar falar Moshe Lewin que, já em 1965, escreveu um artigo para a revista Soviet Studies, na qualonde, após descrever detalhadamente a enorme perda de energia humana e de meios materiais gerada pelos zigue-zagues desastrosos de Stalin durante a coletivização da agricultura, conclui:

Se é certo que a industrialização devia acarretar mudanças profundas no campo, é falso, a nosso ver, imaginar que tais mudanças só poderiam ser feitas através daquela coletivização que a Rússia experimentou. Por que fazer do kolkhoz a única forma de exploração coletiva, quando as estruturas aldeãs sugeriam outras soluções? (...) Pretender que a liquidação da esquerda, adepta entusiasta da coletivização e da política antikulak fosse uma pré-condição capital da industrialização futura e que essa liquidação devesse ser feita por um Stalin que, nessa época (1928-1929), sequer refletira sobre o que seria uma política futura, significa sustentar uma teoria bem estranha. Só é possível subscrevê-la aceitando outra teoria igualmente bizarra, que consiste em apresentar Stalin como um "deus ex-machina", como o único homem no Partido capaz de transformar a Rússia em país industrial.

Paralelamente a sua apreciação sobre a economia da URSS, Hobsbawm vai passando uma idéia, igualmente afetada por seus sentimentos pessoais, sobre a legitimidade dos Estados erguidos em nome do "socialismo real". Os acontecimentos espetaculares do fim dos anos 80 e início dos 90 na Europa oriental e na URSS dão larga margem a um questionamento da própria legitimidade dos regimes instaurados nessa parte do mundo.

A respeito da Europa oriental, Hobsbawm nota que as burocracias desses países procuraram retirar-se do poder discretamente (exceto na Romênia) "porque tinham visivelmente perdido a justificativa que mantivera seus quadros comunistas no passado". A justificativa, no caso, era o "socialismo real", que só funcionava sob a tutela da URSS. Quando esta acabou, deu uma epidemia de amnésia na Europa oriental. De repente, seus governantes não se lembravam mais de como tinham ido parar ali.

Para a URSS, a opinião de Hobsbawm é diferente:

Ao contrário de muitos estrangeiros, todos os russos sabiam bastante bem quanto sofrimento lhes coubera e ainda lhes cabia (em 1953). Contudo, em certo sentido, pelo simples fato de ser um governante forte e legítimo das terras russas e delas um modernizador, ele (Stalin) representava alguma coisa deles próprios.

Depois de confundir sobrevivência da revolução com sobrevivência do Império Russo, Hobsbawm só podia confundir conformismo do povo com legitimidade de Estado stalinista.

A legitimidade do Estado soviético nasceu e ficou ligada até o fim a seus laços com a Revolução de Outubro. Esses laços deixaram de ter realidade efetiva já nos anos 20, porém todos os burocratas que liquidaram as esperanças de Outubro tinham consciência de que a legitimidade de sua dominação dependia daqueles laços. Por isso, mantiveram a farsa do "socialismo" enquanto puderam. Quando não puderam mais, foi um salve-se quem puder. Diante de todos os acontecimentos dos anos 80 e 90, pode-se afirmar que a brutalidade aparentemente absurda de Stalin decorria, em parte, de sua legitimidade precária. Só partindo dessa premissa se pode começar uma discussão séria sobre as hecatombes de Stalin, superando a mera lamentação humanitária, assim como o conformismo com a suposta inevitabilidade de um regime "implacável" naquela época e lugar.

Somente um regime de legitimidade precária pode desabar da noite para o dia sem que se manifestem forças sociais significativas em sua defesa. O grande argumento histórico pró-Stalin (lembrado por Hobsbawm) foi sua vitória sobre Hitler. De fato, foi a vitória sobre os nazistas que deu à burocracia do Kremlin a autoridade que lhe permitiu prolongar seu regime até o fim dos anos 80. Entretanto, uma olhada mais detalhada nos grandes fatos históricos é indispensável, para quem não quer se contentar com panegíricos.

A agressão hitleriana mostrou, desde seu primeiro momento, uma face brutalmente racista e antieslava (não só anticomunista), que tornou impossível qualquer movimento de simpatia em relação aos invasores por parte dos povos da Europa soviética, exceto de alguns, não-eslavos, da área do Cáucaso. É inegável que o extremo reacionarismo do comando nazista foi um fator favorável a Stalin; do mesmo modo que o extremo reacionarismo dos "brancos" na época da Guerra Civil (1918-1920) fora um fator favorável aos bolcheviques. O racismo antieslavo do comando nazista facilitou a aglutinação dos russos, ucranianos e bielo-russos em torno do único Estado que parecia capaz de salvá-los da aniquilação completa. Stalin mobilizou o povo fazendo apelo basicamente ao patriotismo. Os operários escreviam sobre os tanques, antes de remetê-los ao front: za rodinu (pela pátria). Se Stalin tivesse tentado mobilizar o povo pelo "socialismo" dos Planos Qüinqüenais, certamente ter-se-a desastrado. Não por acaso, o nome oficial da Segunda Guerra Mundial na URSS era ‘Grande Guerra Patriótica’. E assim a Guerra foi entendida pelo povo. Isso permite qualificar a legitimidade ganha pelo regime com a vitória sobre a agressão nazista. O regime legitimou-se como defesa eficaz dos povos eslavos contra agressores externos. Quer dizer: obteve um novo tipo de legitimidade, mais restrito. Nem antes, nem durante, nem depois da Guerra, o "socialismo" de Stalin foi sentido como aceitável e legítimo pelos povos da URSS, eslavos ou não.

O próprio Hobsbawm ressalta o apoliticismo extremo do povo nos países do "socialismo real". Ora, o apoliticismo na URSS tinha um significado especial. Era o único país do mundo que não podia ter um povo apolítico. Porque era o único que tinha como meta oficial ‘elevar o nível de consciência política da população’, para isso restringindo a propaganda religiosa e instituindo um certo ‘marxismo’ como matéria obrigatória em todos os níveis de ensino. Sob tal ordenamento da vida cultural, o profundo apoliticismo do povo soviético valia como uma rejeição maciça do regime.

Então, as conclusões devem ser tiradas: o Estado soviético conseguiu legitimar-se? Sim. Porém, em primeiro lugar, conseguiu-o somente depois da Segunda Guerra Mundial e não para todos os povos da URSS; em segundo lugar, essa legitimidade parcial e diferente da pretendida originalmente não dizia respeito ao "socialismo real".

Diga-se de passagem, mesmo pretendendo que o apoliticismo do povo soviético não seria evidência suficiente da legitimidade precária de seu Estado, as reações nacionalistas que se seguiram ao desmoronamento do regime não deixariam margem a dúvidas: ao primeiro abalo da capacidade repressiva do Estado soviético (em particular a desarticulação da KGB, vitimada pela glasnost), a ‘União’ entrou em rápida dissolução, inclusive a união ‘interna’ da Rússia.

No final do livro, Hobsbawm descreve a crise da própria economia capitalista. Ao lado de muita informação importante, Hobsbawm tira algumas conclusões temerárias. Como, por exemplo: "O triunfalismo neoliberal não sobreviveu aos reveses do início dos anos 90". É muito otimismo de Hosbsbawm achar que o neoliberalismo se encontre abalado em virtude dos sofrimentos que esteja causando à humanidade a partir dos anos 80.

Infelizmente, a história não é um sistema de reflexos sociais perseguindo o caminho do menor sofrimento. Se fosse assim, não se teria conseguido descer aos abismos de repressão sanguinária atingidos durante o ‘breve século XX’.

Sem dúvida, é absolutamente verdadeira a exposição do que Hobsbawm considera uma depressão econômica comparável à dos anos 30, hoje se estendendo em graus diversos no mundo inteiro. Entretanto, Hobsbawm subestima a capacidade de cinismo dos economistas com acesso ao poder e à grande mídia. Para eles, o que está ocorrendo é apenas um processo "inevitável" de adaptação à "globalização econômica". O sofrimento dos seres humanos não é parâmetro de avaliação dos resultados das políticas decididas pelos clientes desses economistas. E vai continuar sendo assim, enquanto reações sociais de grande envergadura não obriguem os "formuladores de decisões" a reverem seus parâmetros.

Todas as ressalvas acima não impedem que o livro de Hobsbawm mereça ser lido com atenção. Vale um bom curso de História. Mas mesmo os melhores cursos de História têm lições que devem ser recebidas cum grano salis.

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Fonte e créditos: oolhodahistoria.ufba.br