12 abril, 2008

Itália esclarece morte de filósofo renascentista

Foto Paradoxplace
Assimina Vlahou

Pesquisadores italianos esclareceram o mistério em torno da morte de um conhecido filósofo morto há mais de 500 anos, descobrindo que ele morreu envenenado.

Especialistas das Universidades de Bolonha, Pisa e Lecce examinaram os restos do humanista e filósofo do Renascimento italiano Giovanni Pico della Mirandola, morto há 514 anos, e concluíram que ele foi envenenado com arsênico.
Mirandola é considerado um dos fundadores do humanismo italiano. Influenciado pelo misticismo oriental, Mirandola chegou a ser acusado de heresia. Morreu aos 31 anos, em 1494, em circunstâncias até agora pouco claras.
"Descobrimos que no corpo de Mirandola havia uma quantidade de arsênico superior ao que se encontra normalmente no organismo de uma pessoa. Isso nos levou a confirmar a morte por envenenamento", disse Giorgio Gruppioni, professor de antropologia da Universidade de Bolonha, coordenador da pesquisa, em entrevista à BBC Brasil.

A descoberta foi anunciada esta semana em Florença, cidade onde Mirandola viveu, na corte do poderoso príncipe Lorenzo de Médici.
Alguns documentos históricos já levantavam a hipótese de que ele tenha sido assassinado. Agora, os cientistas confirmam esta versão e, com base no estudo detalhado da documentação existente, apontam até para o executor e o mandante do eventual crime.

"Um homem chegou a confessar ter assassinado Pico della Mirandola. É Cristoforo di Casalmaggiore, seu secretário", afirma o professor da Universidade de Bolonha.
O mandante do crime teria sido o filho de Lorenzo de Médici, Piero, irritado porque Pico della Mirandola se aproximou demais do frei dominicano Girolamo Savonarola, que criticava abertamente o papa Alessandro 6 e pregava a expulsão dos Médici de Florença.

"Os Médici chegaram à conclusão de que, por causa da intimidade com Savonarola, Pico della Mirandola tivesse se tornado adversário político de Piero, filho de seu protetor, e do papa, que chegou a atenuar as acusações de heresia contra o fiósofo", explica Silvano Vinceti, diretor do comitê nacional para a valorização dos bens históricos e ambientais, que participou das pesquisas.
Para realizar os estudos, que duraram 5 meses, os restos mortais de Mirandola foram retirados da igreja de São Marcos em Florença, onde estavam enterrados.Com técnicas modernas, os estudiosos conseguiram descobrir detalhes sobre o aspecto físico do filosofo.

"Usamos a tomografia computadorizada e o carbono 14 para conhecer as características físicas, estatura, sexo, idade, estado de saúde, tipo de alimentação e a presença de eventuais substancias tóxicas", informou o professor Gruppioni.
Eles descobriram que Pico della Mirandola, ao contrário da maioria dos homens de sua época, não era baixo, mas media cerca de 1,85m. Por meio do exame do esqueleto facial está sendo preparando um retrato, que vai ser divulgado no final de fevereiro.

Os pesquisadores examinaram também os restos do poeta Angelo Poliziano, grande amigo e, segundo algumas versões, amante de Pico, que teria morrido de sífilis dois meses depois do filósofo. Os resultados das análises comprovaram, no entanto, que Poliziano também foi envenenado com arsênico.
Além de arsênico, os exames de laboratório detectaram a presença elevada de chumbo, que provavelmente teria sido usado na preparação do veneno, conforme a avaliação do professor Gruppioni.
As conclusões da pesquisa podem levar à correção de livros de história, mas a intenção da equipe è chamar a atenção para o personagem e divulgar a obra do autor de A dignidade do homem, tido como o manifesto do Renascimento.

"Pico della Mirandola è provavelmente o maior filosofo italiano. Mas é conhecido principalmente por sua memória excepcional do que pela enorme produção literária e filosófica que realizou em apenas 30 anos de vida", disse Gruppioni.

BBC Brasil - 8 de fevereiro de 2008

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