01 setembro, 2007

Chama acesa - História recente sobre o rei do cangaço Lâmpião.

MOACIR ASSUNÇÃO

O fogo de uma metralhadora Hot Kiss estrategicamente postada ceifou, em uma madrugada enevoada, a vida de um dos maiores mitos do sertão brasileiro. Na gruta de Angicos, município de Poço Redondo (SE), um labirinto de pedras ao lado do rio São Francisco, morriam, em 28 de julho de 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, sua companheira Maria Bonita e outros nove cangaceiros.Considerado "enfeitiçado" e imoral pelos sertanejos, Lampião, que já havia escapado de inúmeros combates e tocaias, morreu sem dar um tiro sequer. Sua fama de imortalidade ficou, junto com o corpo retorcido, no chão do riacho seco que cruza Angicos. As 11 cabeças foram levadas pelos algozes para exposição e estudos no Instituto Nina Rodrigues, de Salvador.

Sessenta anos depois de sua morte, que praticamente pôs termo ao cangaço, a figura de Lampião, morto pelo comandante de volante (grupos móveis de policiais que atacavam os cangaceiros na caatinga) João Bezerra, cresceu muito, até atingir a dimensão de mito. Se estivesse vivo, o bandoleiro, nascido em 4 de junho de 1898, estaria comemorando o centenário neste ano.

Personalidade contraditória, Lampião não foi, embora tenha sido pintado dessa forma, inclusive pelos prestigiados jornais "The New York Times" e "Paris Soir", um bandido social. Apesar disso, pesquisadores como Antonio Amaury Corrêa de Araújo, autor de seis livros sobre o cangaço, afirmam que ele teve, algumas vezes, atitudes de Robin Hood, ao dividir o produto de seus saques com a população carente. Ao mesmo tempo em que agia assim, o cangaceiro celebrava acordos espúrios com os reacionários coronéis nordestinos.

Capitão do exército e interventor federal em Alagoas, quando Lampião ainda estava vivo, Eronildes de Carvalho, acusado de fornecer armas e munição modernas ao bandoleiro, foi um dos seus mais notórios defensores. Na Paraíba, Lampião contava com o providencial apoio do coronel José Pereira, personagem central da Revolução de 30, com quem posteriormente se indispôs. Em Alagoas, o cangaceiro também podia ficar tranqüilo. Era protegido por membros da família Malta, antepassados da ex-primeira-dama Rosane Collor de Mello, que davam excelente cobertura a Lampião. Em troca de tanta "generosidade", os cangaceiros eram usados na política local, protegendo coronéis e suas fazendas e, em alguns casos, eliminando adversários incômodos.

Origens do cangaço

Para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello, um dos grandes especialistas brasileiros no assunto, o fenômeno do cangaço é resultado da colonização violenta e do isolamento cultural do sertão, região semi-árida que corresponde a 49% do território nordestino. "Os homens que colonizaram o sertão, terra ignota até metade do século passado, foram os rudes soldados que derrotaram o poderoso exército holandês da época, negros vindos das minas do sul e bandeirantes paulistas que mal falavam o português. Ao chegar, defrontaram-se com os índios tapuias, que, ao contrário dos mansos tupis do litoral, eram bravos e sanguinários. O choque desses dois grupos só poderia gerar uma raça habituada ao cheiro de sangue", sustenta o pesquisador, que tem um punhal de prata, com detalhes em ouro, que pertenceu a Lampião.


Fé e sangue

Em alguns momentos, a violência da figura do cangaceiro e o poder de persuasão do líder religioso, outro personagem importantíssimo do sertão, se aproximam. Exemplo típico é a Guerra de Canudos, na qual multidões de sertanejos, entre eles temíveis bandidos vindos das lavras de diamante de Lençóis (BA), reuniram-se em torno do beato Antônio Conselheiro. Aproximações semelhantes ocorreram também com Lampião. Em Juazeiro do Norte (CE), em 1926, o líder messiânico padre Cícero, que já enfeixava considerável poder político, ofereceu, para espanto de autoridades e militares, o título de capitão dos Batalhões Patrióticos ao cangaceiro para que ele enfrentasse um inimigo muito mais temido pelos coronéis: a Coluna Prestes, que circulava pela região. O bandoleiro teve apenas algumas escaramuças com patrulhas do Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos Prestes.

Em 1927, após ser derrotado em Mossoró (RN), Lampião cruzou o rio São Francisco e internou-se na Bahia, justamente no Raso da Catarina, área onde atuara Antônio Conselheiro. Grandes guerreiros de Canudos, Pajeú e João Abade, sob cujo comando sertanejos derrotaram três expedições militares, usaram em seus combates táticas de guerrilha semelhantes às que viriam a ser usadas pelos cangaceiros de Lampião décadas depois.

Apesar de ser um personagem arcaico, que usava patuás e rezas bravas característicos da religiosidade medieval, Lampião, cuja inteligência e bravura eram reconhecidas até pelos inimigos, utilizou vários ardis para se manter tanto tempo no cangaço. As táticas iam desde o suborno de comandantes de volantes até a conquista da simpatia e apoio da população com boas ações isoladas, como fazem, nos dias de hoje, os traficantes dos morros cariocas. "Conversei com vários ex-chefes de volantes que me confirmaram ter recebido dinheiro de Lampião para fugir ao combate", revela o pesquisador Antonio Amaury. Espremida entre os cangaceiros e a polícia, quase sempre tão brutal quanto os bandidos, a população civil não sabia a quem recorrer.

Lampião se sentia tão seguro do seu poder que, em 1925, chegou a mandar um telegrama ao governador de Pernambuco propondo que esse dominasse o estado até Arcoverde (então Rio Branco), enquanto ele governaria o sertão. Embora o fato tenha sido apenas uma brincadeira do Rei do Cangaço, dá uma idéia da sua certeza de impunidade ao atacar vilas do interior.


Polêmica

As comemorações pelo centenário de Lampião e a proposta, aprovada por unanimidade pela Câmara de Triunfo (PE), de construção de uma estátua em homenagem ao cangaceiro dois metros mais alta que o Cristo Redentor serviram para reacender antigos rancores. Um dos mais tenazes inimigos do bandoleiro, ainda vivo e forte aos 95 anos, Davi Jurubeba passou oito anos perseguindo os cangaceiros na caatinga e se irrita à simples menção da idéia. "Lampião foi um bandido cruel e estuprador. Como podem querer homenagear alguém como ele?", pergunta Jurubeba, que perdeu 17 parentes nas mãos dos cangaceiros. O pernambucano, que garante jamais ter fugido dos bandidos, jura que, se fosse mais jovem, impediria a construção do monumento. Com certeza, obteria sucesso. Quem teria coragem de contrariar o homem que jamais fugiu de Lampião?

Filho de João Bezerra, o comandante da volante que matou o Rei do Cangaço, o administrador de empresas Paulo Brito, de 47 anos, acredita que há uma tentativa de transformar Lampião em um herói. "Reconheço sua valentia, mas ele foi um bandido, que jamais poderia servir de exemplo para ninguém", diz ele, que já hospedou em sua casa, em Recife, Vera Ferreira, neta do bandoleiro. Brito lembra que seu pai, apelidado de Cão Coxo pelos cangaceiros, admirava Lampião, que também o respeitava, apesar da inimizade de ambos.

Cangaceiros ainda vivos, como Ilda Ribeiro de Souza, a Sila, que mora em São Paulo, e Manuel Dantas Loiola, o Candieiro, morador de Buíque (PE), participaram das homenagens, que, na opinião deles, estão corretas. Ambos escaparam da batalha de Angicos. Quando fugia sob cerrado tiroteio, Sila viu a amiga Enedina ser morta com um tiro na cabeça pelos soldados. "Em meus dois anos no cangaço, vi Lampião matar traidores e inimigos em combate, quando as chances são iguais para os dois lados, mas nunca tive notícias de que ele assassinasse inocentes ou desrespeitasse famílias", afirma.

Hoje um pacato comerciante, Candieiro, de 83 anos, que há poucos anos se encontrou, no local do massacre, com o velho inimigo Panta de Godoy, matador de Maria Bonita, lembra que Lampião aparentava estar cansado das lutas no sertão. "Ele dizia que só brigava se estivesse num apuro muito grande e não tivesse outro jeito", revela. Vera Ferreira diz ver o avô famoso como um homem que não podia agir de outra forma diante das circunstâncias que o levaram ao cangaço. O pai, José Ferreira, foi morto pelo delegado Amarílio Vilar, inimigo de Lampião. "Ele não foi herói nem bandido. Foi um homem valente, que, junto com seus cangaceiros, enfrentou a injusta ordem social vigente. Se não fizesse isso, seria um omisso, como tantos da época", afirma.


Casos do cangaceiro

- O matador de Lampião, João Bezerra, morto em 1970, tinha, curiosamente, uma trajetória muito semelhante à de sua vítima. Acusado de ter sido um dos fornecedores de armas aos cangaceiros, Bezerra, entre outras coincidências, nasceu no mesmo dia e ano de Lampião.

- Apesar de ter vivido tanto tempo no cangaço, em alguns casos exterminando famílias inteiras, como os Gilo e os Quirino, Lampião jamais conseguiu matar Zé Saturnino, seu primeiro grande inimigo, e Zé Lucena, responsável indireto pela morte de seu pai, e pela sua própria, como comandante de João Bezerra.

- Cangaceiros e policiais das volantes usavam uma mesma forma de matar: o sangramento, em que os enormes punhais eram enfiados na fossa clavicular esquerda - conhecida popularmente como saboneteira. Esse procedimento, segundo os pesquisadores, era copiado dos vaqueiros.

- Não há registro de que o bando de Lampião estuprasse mulheres. Três cangaceiros foram mortos pelos companheiros por mexer com moradoras de fazendas de coronéis amigos.

- Extremamente vaidoso, Lampião chegou a ler duas biografias suas, feitas quando ele ainda vivia, e se orgulhava de ser comparado a Robin Hood.

- Algumas testemunhas do massacre dos cangaceiros em Angicos, entre as quais o cangaceiro Zé Sereno, defendiam a teoria de que a bebida levada pelo coiteiro (protetor de cangaceiro) Pedro de Cândida estaria envenenada. Outros negam a versão.

- Depois da morte do cangaceiro, surgiram inúmeras histórias, jamais confirmadas, de que ele teria escapado do massacre. Seus grandes inimigos, os valentes moradores de Nazaré (atual Carqueja), em Pernambuco, entre eles Davi Jurubeba, choraram porque queriam tê-lo matado.

- Se tivesse respondido a todos os processos que foram abertos contra ele, Lampião seria condenado a mais de mil anos de cadeia, segundo pesquisas do juiz Assis Timóteo.


Cabras de Lampião

Cidade serrana vizinha a Serra Talhada, terra natal de Lampião, Triunfo tem algumas peculiaridades na história do cangaceiro: historicamente, os cidadãos mais poderosos do simpático município sempre o protegeram. Nos dias de hoje, a elite cultural e econômica de Triunfo continua defendendo o líder bandoleiro. Uma casa, situada exatamente na divisa entre Pernambuco e Paraíba, de propriedade do juiz Assis Timóteo, ilustra bem a situação: quando volantes da Paraíba cercavam o imóvel, bastava os cangaceiros mudarem de cômodo, que os soldados ficavam sem ação, com medo de invadir o estado vizinho. Os policiais pernambucanos enfrentavam a mesma dificuldade.

Há casos, citados pelo pesquisador Antonio Amaury, em que os grupos ficavam frente a frente sem se hostilizar. O interesse por Lampião na cidade superou até divergências político-partidárias. O juiz aposentado e vereador pelo PSB Ruy Patu compõe, junto com a primeira-dama Lúcia Mello, do PFL, o também juiz Assis Timóteo e a geógrafa Diana Rodrigues, o grupo dos "lampiônicos", que se reúne uma vez por semana, usando roupas típicas, para estudar o cangaço.

Na terra natal do cangaceiro, dominada pelo deputado federal Inocêncio de Oliveira, pesquisa recentemente conduzida pelo Centro Cultural Cabras de Lampião concluiu que 79% da população aprova as homenagens ao filho famoso. Na Fazenda São Miguel, vizinha do antigo sítio Passagem das Pedras, onde nasceu Lampião, o que resta de uma casa, toda esburacada por tiros, atesta a violência dos combates do cangaço.

Preservada por descendentes de Zé Saturnino, primeiro grande inimigo do bandoleiro, a casa (foto), onde brotam, despreocupadamente, facheiros e mandacarus, plantas típicas do sertão, foi palco de uma grande luta entre o bando de Lampião e Saturnino, parentes e empregados. Como não conseguiu liquidar o rival, o bandoleiro matou parte do gado e destruiu cercas e casas, causando-lhe grande prejuízo. Segundo Anildomá Willamés de Souza, presidente da Fundação Cabras de Lampião, uma ONG voltada à divulgação do cangaço, a prefeitura da cidade pretende comprar a área para transformá-la numa espécie de sítio histórico.

O local onde nasceu e viveu o cangaceiro famoso, nos dias de hoje, é uma das mais violentas do país. Com população aproximada de 28 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o semi-árido nordestino detinha, há dois anos, quando foi feito o censo econômico, renda per capita de R$ 2,5 mil, contra R$ 4,7 mil no Brasil como um todo. O índice de analfabetismo na área chega a ser o dobro do nacional. Conhecida como polígono da maconha, a região de Serra Talhada, especificamente, é muito perigosa, e poucos motoristas se aventuram a viajar à noite nas mal policiadas estradas.

Até o banditismo, que nos tempos do cangaceiro ainda mantinha uma certa ética, perdeu totalmente o caráter. Com toda a polêmica sobre sua trajetória, talvez o cangaceiro seja aquilo que afirmava, com seus versos sertanejos, o cantador Ezechias da Rocha, o Zabelê: "Era brabo, era marvado,/ Virgulino, o Lampião,/ mas era, pra que negar,/ nas fibras do coração,/ o mais perfeito retrato/ das caatingas do sertão".

Fonte: Sescsp.org.br

Nenhum comentário: