20 maio, 2006

Inquietação e Mudança - Entrevista com o empreendedor social Rui Mesquita

Inquietação e Mudança

O Nordeste é uma região bonita e desafiadora, com grande tradição de iniciativas e movimentos de participação. A inquietação pode e deve levar a mudanças. A inquietação é mais natural nos jovens. Por isso, Rui Mesquita, cearense radicado há quase 10 anos em Pernambuco, ex-militante estudantil, formado em Administração, criou junto com outros jovens, a Academia de Desenvolvimento Social – uma organização que valoriza a indignação e fortalece a capacidade de ação social de jovens do Grande Recife.Para possibilitar aos internautas um olhar nordestino sobre o Nordeste, um olhar jovem sobre a questão da juventude e um olhar de militante quase veterano sobre a questão social, sem nenhuma mediação, o Portal do Voluntário entrevistou em Recife o empreendedor social Rui Mesquita. Leia e confira.

Portal do Voluntário - O enunciado da missão da Academia de Desenvolvimento Social é diferenciado: “Canalizar inquietações humanas para gerar mudanças sociais”. O que isto quer dizer?

Rui Mesquita - Acreditamos muito que as mudanças sociais não acontecem à toa, mas sim porque alguém, geralmente em grupo, idealiza e viabiliza espaços e ações, movimentos e organizações, propostas e políticas para influenciar o nosso dia-a-dia e provocar mudanças na sociedade, a partir de suas inquietações frente ao mundo e à sociedade. Acreditamos que é o sentimento de inquietação que provoca ações empreendedoras no campo da mudança social. Daí a nossa missão expressar essa crença. Também acreditamos na capacidade inata de todos os seres humanos de se inquietarem e a partir daí agirem. Porém reconhecemos que é na juventude onde tais sentimentos de inquietação se expressam com mais intensidade e naturalidade. Isso faz com que a Academia, que é uma organização formada por um grupo de jovens militantes dos movimentos sociais juvenis, esteja também naturalmente voltada para apoiar outros grupos juvenis a provocar mudanças sociais, a partir das suas inquietações.

Portal do Voluntário - O que é e o que faz a Academia? Como começou? Quais são suas principais atividades?

Rui Mesquita - Tudo começa numa série de inquietações de dois jovens estudantes, um cearense (esse sou eu) e outro piauiense (o Romel Pinheiro), que por alguns anos e por diferentes caminhos tiveram grande militância no movimento estudantil brasileiro, a partir de Pernambuco, e justamente por isso ganharam um novo horizonte do panorama social do Brasil e da juventude, e seus desafios. As primeiras discussões sobre a Academia acontecem entre 1998 e 1999, no Recife, sobre como poderíamos institucionalizar uma iniciativa que pudesse estimular o desenvolvimento social, através da participação de novos protagonistas, de jovens, como nós mesmos. Foi aí que, após alguns meses de discussão, veio a idéia de criarmos uma ONG, a Academia de Desenvolvimento Social. Percebemos na época que teríamos que começar pequenos e devagar. Montamos então uma estratégia de intervenção para a Academia, de suporte a grupos juvenis para provocarem mudanças na sociedade a partir dos problemas que mais os inquietam. Essa estratégia era baseada em três grandes pilares: Informação, Formação e Intervenção. Começamos criando projetos para provocar a circulação e a discussão de informações sobre os movimentos sociais, políticas públicas e os principais desafios do campo social, para em seguida iniciarmos um programa de formação instrumental em gestão social, e por fim iniciarmos um programa de intervenção, que possibilitasse apoio direto a grupo juvenis com propostas de intervenção social. Primeiramente iniciamos alguns projetos que não precisassem de recursos que não dispúnhamos, como estrutura física e recursos financeiros. Atualmente a Academia leva a cabo cinco projetos. Dentro do pilar de informação são três: o nosso website (www.academiasocial.org.br), o Clipping Terceiro Setor e o Ponto de Encontro. No pilar de formação realizamos periodicamente vários cursos de gestão social (planejamento de projetos, marketing social, captação de recursos, dentre outros). E no pilar de intervenção, a nossa mais recente e mais desafiadora iniciativa, a Incubadora Social para Ação Jovem.

Portal do Voluntário - Outra característica que chama a atenção é o foco no empreendedorismo social e não em boas ações, como é mais freqüente. Por que empreendedorismo?

Rui Mesquita - Primeiramente costumo sempre ressaltar que essa palavra, empreendedorismo, geralmente é associada àquelas pessoas que empreendem no campo dos negócios, das empresas. Mas esta seria no mínimo uma forma pobre de se aplicar esse termo. Na língua francesa, onde o termo "empreendedor" surgiu, por volta dos séculos XVII e XVIII, significa: aquele que se compromete com um trabalho ou uma atividade específica e significante. Desde então o termo tem sido basicamente utilizado através de um olhar meramente economicista, com forte viés de uso para a exploração das oportunidades de mercado. O seu uso no campo social pode ser novo, mas o fenômeno não. Existem muitos empreendedores sociais na nossa história, que se comprometeram com muitos trabalhos e atividades significantes para a nossa sociedade e que criaram muitas das organizações e iniciativas sociais que hoje temos como referência. São empreendedores com uma missão social, que têm o papel de agentes de mudanças na sociedade, motivados e impulsionados não por uma oportunidade ou por uma chance de fazer uma boa ação, mas sim por uma inquietação interna e um bom senso de liderança que os levam inclusive a mobilizar outras pessoas em prol de uma causa comum, central e explícita. Por isso o nosso foco e a nossa aposta no empreendedorismo social como uma grande alavanca impulsionadora do desenvolvimento. Mas não basta o empreendedorismo sozinho. Os empreendedores sociais têm que se conhecer e reconhecer, para poderem atuar em conjunto, em rede, unindo cada vez mais esforços e forças para a mudança social. Este foco também não deixa de ser um reflexo da nossa própria atuação na Academia, que consideramos possuir uma boa pitada de empreendedorismo social.

Portal do Voluntário - É verdade que a organização foi criada e é dirigida por jovens recém-formados? Que diferença isso faz? Vocês sentem reservas ou resistências por causa disso?

Rui Mesquita - Sim, a iniciativa partiu de dois jovens, eu e o Romel, entre 1998 e 1999 quando ainda cursávamos o último ano de graduação em Administração na Universidade de Pernambuco (UPE). Não queríamos simplesmente virar “administradores” e trabalhar em alguma empresa privada. Não que haja algo de errado nisso, muito pelo contrário, mas havia algo que nos fazia caminhar em outra direção, usando a bagagem instrumental e teórica do curso de Administração munida de uma outra lógica e de outros valores. Na época eu tinha 22 anos. Atualmente tenho 26. Ao longo do tempo outros jovens ingressaram na Academia. Hoje somos cinco. O mais velho tem 31 anos e o mais novo 25. Estamos “crescendo”, é verdade, mais carregamos no nosso bojo a essência de sermos uma organização juvenil. E naturalmente algumas resistências ocorreram sim, devido ao choque de alguns pela nossa idade, mas sempre foi algo que conseguimos reverter com certa tranqüilidade. Creio que ainda existe muita gente que não está acostumada a trabalhar com jovens de igual para igual, o que é natural por uma série de questões históricas, mas que aos poucos a tendência está se revertendo.

Portal do Voluntário - Qual foi o papel da Federação Nacional dos Estudantes de Administração (FENEAD) na sua formação como empreendedor social e na criação da Academia de Desenvolvimento Social? A FENEAD é parceira da Academia?

Rui Mesquita - A FENEAD foi uma grande escola, sem sombra de dúvida! Devo muito das minhas experiências e valores a ela e aos que dela fizeram parte junto comigo. Meu primeiro contato com a FENEAD foi em 1995. Nela exerci várias funções, como a de Diretor Regional para os estados de Pernambuco e Alagoas, entre 1996 e 1997, e o de Presidente da Diretoria Nacional, entre 1997 e 1998. Também participei da criação e organização do I EREAD Nordeste (Encontro Regional dos Estudantes de Administração do Nordeste), ocorrido em maio de 1997 no Recife. A FENEAD surgiu em janeiro de 1995, levantando a bandeira de uma “nova cara para o movimento estudantil”, sem nenhum vínculo partidário e mais antenado com as questões sociais do país. Em 1996 surgiu o Prêmio FENEAD, hoje uma grande “ação nacional de estudantes universitários para soluções sociais”. Em seguida surgiram algumas outras iniciativas mais propositivas, como, por exemplo, o Trote Cidadão, que fizeram da FENEAD uma nova proposta de ação civil estudantil, muito mais próxima dos movimentos sociais e da sociedade civil como um todo. Uma forma diferente e inovadora de fazer política, sem o envolvimento dos partidos políticos. Atualmente a Academia é parceira do Prêmio FENEAD, um dos projetos da Federação. Além de outros tipos de trocas e apoios, juntos organizamos um projeto em comum, o Ponto de Encontro por um Novo Mundo, que ocorre mensalmente no Recife, também em parceria com a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

Portal do Voluntário - Como está hoje a FENEAD? Ela é uma organização estudantil política? Quais são suas principais atividades?

Rui Mesquita - Meu contato tem sido mais forte com o Prêmio FENEAD, uma vez que sua coordenação nacional 2002/2003 está sediada no Recife, e não com a FENEAD como um todo, que tem sua atual sede em São Paulo. Por isso não tenho tanta segurança para falar de como está a Federação como um todo atualmente, mas de certo ela sempre foi e continuará sendo uma organização política, porém não sei se atualmente está tendo relações partidárias ou de “politicagem”. Sei que nenhuma dessas duas coisas ocorre com o Prêmio FENEAD. Sei também que na minha época de FENEAD sua diferença estava baseada justamente em fazer política social, sem fazer política partidária. Sei também que muita gente boa saiu da FENEAD daquela época, que hoje se destacam nas suas áreas de militância social, acadêmica e/ou governamental, como por exemplo o Edson Sadao (SP), a Paulinha Schomer (RS/BA), o Alexandre Nicolini (RJ/BA), o Edgilson Tavares (PB/DF/SP), a Karla Bertocco (SP), a Patrícia Kanashiro (SP), o Evandro Biancarelli (SP), o Euler Darlan (MG) e tantos outros grandes e bons amigos feitos…

Portal do Voluntário - Chama a atenção no site a capacidade de articulação e trabalho em parceria da Academia, tanto com o chamado Terceiro Setor como com empresas e órgãos públicos. Vocês decididamente não estão no bloco do eu sozinho. Esta atitude explica o sucesso obtido até agora?

Rui Mesquita - Não sei se explica completamente, mas sem dúvida contribui e muito. Lembro-me como se fosse hoje que assim que terminamos de fazer a versão 1.0 do primeiro projeto da Academia, no final de 1998, o publicamos automaticamente na Internet (em uma dessas hospedagens gratuitas de site), e o divulgamos para a maior quantidade de pessoas possíveis com as quais mantínhamos contatos. E recebemos muitos e bons comentários sobre a idéia original, sem ligar para alguns que insistiam em dizer que se realmente continuássemos divulgando o projeto dessa maneira, pela Internet, pessoas mal intencionadas poderiam simplesmente copiar a idéia e pô-la em prática na nossa frente. Mas que bom se outras Academia tivessem surgido também. E o que ocorreu é que algumas pessoas se identificaram conosco e com nossa causa e essa reação em cadeia faz com que hoje tenhamos tantos e bons parceiros. Temos a consciência de que sozinhos não iremos a lugar nenhum. Sobre sermos um sucesso, penso que muitas coisas boas estão sendo alcançadas, mas também penso que existem muitas pedras no caminho e muitos tropeços também, além de muitas mancadas e muitos erros de nossa parte, que procuramos sempre observar, sentir e com eles aprender, continuando a seguir em frente. É um aprendizado contínuo e temos total consciência de que ainda há muito para ser feito. Estamos apenas no começo de uma longa, difícil, mas gostosa, caminhada.

Portal do Voluntário - A Academia de Desenvolvimento Social, em meio a um setor que reclama da falta de investidores, conseguiu parcerias como o SEBRAE e a Fundação Kellogg. Como isto foi possível a uma organização nova, dirigida por jovens, focada no fortalecimento de iniciativas e organizações de jovens? Qual foi caminho percorrido até este sucesso?

Rui Mesquita - Na verdade não existe nenhuma receita de bolo, mas sim uma grande confluência de missões e objetivos, regados com uma boa dose de confiança mútua, capacidade institucional e risco. A Fundação Kellogg já mantinha certo contato com a Academia fazia algum tempo, desde 2000, no início por algumas coincidências, depois por afinidades de causa e missão, especialmente dizendo respeito às questões juvenis. O SEBRAE também se aproxima muito do nosso trabalho por sua visão empreendedora, e com a Academia levantando essa bandeira do empreendedorismo social jovem, então nada mais natural foi nossa aproximação, em 2002. Ambas instituições são muito importantes para a Academia, especialmente para a Incubadora Social para Ação Jovem, nosso principal programa. A Fundação Kellogg e o SEBRAE estão literalmente incubando a Incubadora Social.

Portal do Voluntário - Como está o Terceiro Setor no Nordeste? Na área social, a região é prioridade de investidores sociais nacionais e estrangeiros, de organizações de todos os setores. No entanto, pouco se conhece dos avanços da cidadania e do protagonismo da sociedade no Nordeste. Por que?

Rui Mesquita - O Nordeste é, sem sombra de dúvidas, uma grande, bela e desafiadora região, que infelizmente ainda possui muitos mitos, imagens e estereótipos do resto do país. E infelizmente não é a única região do nosso país com esse tipo de problema, o Norte, e de alguma forma também parte do Centro-Oeste, sofre do mesmo problema. Diria também que não existe apenas um único Nordeste, como muitos que não são daqui costumeiramente pensam, mas sim vários Nordestes, com sotaques diferentes, realidades geográficas, políticas, econômicas e sociais muito diferenciadas. Eu mesmo sou cearense, e há mais de nove anos vivo em Pernambuco, o que me faz conhecer um pouquinho esse pedaço do país. Há uma grande diferença entre as capitais estaduais e os demais municípios do interior, por exemplo, tanto na realidade sócio-econômica como na realidade cultural. Há também uma grande diferença entre as cinco grandes regiões internas do Nordeste: o Meio Norte, o Litoral Norte, o Semi-Árido, o Agreste e a Zona da Mata. E ainda são nove estados, cada um com suas particularidades, potenciais e problemas. E dentre estes nove estados uma coisa é falar em Ceará, Pernambuco e Bahia, os três “ricos” da região, outra coisa é falar em Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Sergipe. O movimento social sempre foi muito forte por aqui. Há uma forte tradição associativista e de participação política nas maiores cidades, especialmente em Recife, Salvador e Fortaleza, onde muitas ONGs surgiram ainda no período da ditadura militar. Havia um grande ativismo político de resistência à ditadura no Nordeste, o que fez com que muitos nordestinos fossem exilados no exterior, e alguns deles, ao retornar ao país criaram muitas organizações sociais. Quem nunca ouviu falar do protagonismo de Josué de Castro (e a Geografia da Fome), de Paulo Freire (e a Pedagogia do Oprimido), de Luís Freire, Dom Helder Câmara e Tânia Bacelar? Isso para não falar em tantos outros Joãos, Marias e Severinos da nossa região que fazem nossa história se erguer. Infelizmente os meios de comunicação brasileiros, e nordestinos, exaltam muito mais o centro-sul do país em detrimento das demais regiões, o que cria tudo um imaginário popular e um grande estereótipo, que nem sempre é sadio e verdadeiro, das diferentes regiões do país. Talvez o que falte para se conhecer melhor os avanços e o protagonismo do Nordeste é deixar de lado toda e qualquer imagem de terceiros sobre a região e vir até aqui para construir sua própria imagem. Existem grandes iniciativas de desenvolvimento local no interior da região sendo levadas a cabo no momento, no Baixo Sul da Bahia, na região de Xingó (SE/AL/BA/PE), na Bacia de Glória do Goitá (PE), no Cariri Paraibano, na Zona Oeste de Natal (RN), no Médio Jaguaribe (CE), no Litoral Leste Cearense, na Baixada Maranhense (MA) e em tantos outros locais. Existem também várias iniciativas de economia solidária na região, de micro-crédito, de construção de cisternas etc. No início de outubro de 2003 vai acontecer em Natal o I Fórum Social Potiguar, desdobramento do Fórum Social Mundial. E já se escuta até mesmo falar na criação de um Fórum Social Nordestino. Enfim, como se diz por aqui: no Nordeste, tudo o que se planta dá. Mas ainda temos um longo processo pela frente de superação da pobreza, da miséria, e de alguns “currais políticos” que ainda teimam em persistir em alguns locais da região. Além do desafio de criarmos uma base institucional mais sólida na região.

Portal do Voluntário - A juventude, como preocupação e público, esteve sempre presente na sua carreira como empreendedor social. Por quê?

Rui Mesquita - Creio que de alguma maneira sim, só que talvez no início de forma nem tanto consciente. Tenho atualmente 26 anos, e há cerca de nove ou dez milito de diferente formas no movimento social juvenil. Apesar de estar crescendo, ainda me considero muito jovem. E por ver muitos amigos também militantes sociais e jovens, a iniciarem grupos, projetos e iniciativas diversas, veio crescendo em mim uma inquietação de passar a trabalhar diretamente apoiando os movimentos de juventude, com formas alternativas de apoio em relação aos apoios que já existem.

Portal do Voluntário - Como está hoje, na sua visão, a juventude brasileira? O que ela oferece, o que pede?

Rui Mesquita - Não tenho lá tanta representatividade para falar em nome da juventude brasileira, muito menos para tentar defini-la, mas acho que existem alguns pontos, ou provocações, que gostaria de trazer. Há muitos anos existe uma grande luta para garantir direitos e políticas públicas para a juventude em todo o mundo. Poderia dizer que em relação a outros países o Brasil ainda está muito atrasado neste assunto. Muitas vezes se confunde jovens com estudantes no nosso país, talvez porque a política de juventude existente no Brasil era feita pela e para a classe média, e não para os excluídos, exatamente pelo fato de ter sido a classe média quem protagonizou a política no Brasil ao longo do século XX. O que fez também que a classe média estivesse sempre à frente do movimento juvenil organizado, como por exemplo, o movimento estudantil. Também se confunde muito jovem com criança e adolescente. Há mais de dez anos conseguimos um avanço tremendo no campo das políticas públicas e garantia dos diretos para a infância e a adolescência, com a aprovação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Mas hoje o que acontece é que após os 18 anos as pessoas perdem toda a garantia que tinham com o ECA, por exemplo, e nenhum tipo de política mais existe para jovens maiores de idade. Por exemplo, nessa faixa etária a maioria absoluta dos jovens não consegue se manter estudando, pois têm que ingressar muito cedo no mundo do trabalho, para garantir sua sobrevivência, e mesmo que assim não fosse, não haveria vagas suficientes para toda essa massa juvenil nas universidades e em cursos técnicos, e mesmo assim somente aqueles poucos que conseguem se manter nos estudos têm garantidos direitos como de meia entrada em eventos culturais e cinemas e meia passagem nos transportes urbanos, o que é de alguma forma um contradição. E ainda há quem diga que a juventude possui excesso de direitos e de proteção, especialmente por parte daqueles que vêem os jovens como problema, e até mesmo como delinqüentes, e por isso, por exemplo, trazem a tona discussões como a redução da maioridade penal. Outra questão é sobre algo que parece ter virado moda atualmente, o protagonismo juvenil. Seria o protagonismo juvenil um fim em si mesmo? Se não, o que vem depois? E como criar e manter programas de apoio a jovens já considerados protagonistas, geralmente (mas não necessariamente) maiores de 18 anos, para que não virarem, por exemplo, "empacotadores de supermercados"? O jovem deve ser considerado como um sujeito, e a juventude não deve ser considerada apenas como uma fase de transição entre a infância e a fase adulta. O debate sobre jovens como sujeitos de direito tem sido insuficiente. Não existe uma só infância e uma só juventude, mas sim infâncias e juventudes. Os setores rurais e urbanos excluídos são os que mais sofrem.

Portal do Voluntário - Neste contexto, qual a importância da Incubadora Social para Ação Jovem, da Academia? Como ela está agora?

Rui Mesquita - A Incubadora Social é um programa que veio justamente como um contraponto para alguns desses desafios enfrentados por parte da juventude, principalmente por grupos de jovens que já alcançaram a maioridade e que tenham propostas concretas de intervenção na sociedade, ou seja, grupos de jovens empreendedores sociais. O apoio que a Incubadora Social é de justamente trabalhar com o que pode vir após o protagonismo juvenil, como por exemplo, o empreendedorismo juvenil. Este ano de 2003 está sendo o primeiro ano desse programa, que ainda é um piloto. São cerca de 15 grupos juvenis incubados atualmente aqui conosco, todos da Região Metropolitana do Recife. A Incubadora Social para Ação Jovem visa apoiar jovens empreendedores sociais que buscam transformar a sociedade. Em janeiro de 2003 foram incubados os primeiros 16 projetos neste sentido. Cada um deles com um projeto ou social, ou cultural ou ambiental. A incubação completa dos projetos dura até três anos, então neste momento eles estão ainda em seu primeiro ano, buscando ainda consolidar seus grupos, sua missão e suas estratégias de intervenção. Neste modelo de incubação, grupos juvenis têm a chance de iniciar ou expandir suas propostas de intervenção social, cultural ou ambiental construídas a partir de uma base de legitimidade com o público alvo, e que não tenham caráter competitivo ou de fins lucrativos. O suporte oferecido a estes grupos vai desde um escritório completamente equipado para uso, por tempo determinado e compartilhado, do projeto, até um sistema de apadrinhamento, que envolve assessoria, acompanhamento e avaliação, passando capacitações em gestão social e estímulo à formação de rede. Tudo direcionado para que os projetos ou organizações incubados possam canalizar seus esforços na busca de provocar ciclos de mudanças sociais locais, se possível integrados numa proposta maior de desenvolvimento local sustentável, como uma verdadeira rede multidisciplinar. Mas a verdade é que tudo ainda está muito embrionário. Inclusive a discussão sobre o conceito de incubadora social. Como dito inicialmente, o próprio termo pode ter muitas e distintas interpretações. E talvez o melhor a ser feito no momento seja uma ampla e vasta discussão sobre o conceito, a partir de diferentes atores da sociedade, como as próprias incubadoras já existentes (independente da sua natureza), as ONGs, os movimentos sociais, as universidades, os governos e outros, pois elas podem vir a ser um verdadeiro instrumento impulsor e catalisador do desenvolvimento social, tanto no Brasil como em outros países.

Portal do Voluntário - Como ex-coordenador do Centro de Voluntários do Recife, qual sua visão do voluntariado em Pernambuco e no Nordeste? Qual foi o impacto do Ano Internacional do Voluntário na região? Qual o conceito e qual a prática de trabalho voluntário mais comuns na cultura do Nordeste? Como está o diálogo entre os voluntários ditos modernos (o pessoal das grandes causas) e os voluntários ditos tradicionais (o pessoal da assistência social)?

Rui Mesquita - Minha visão de voluntariado é bastante ampla. A militância social, por exemplo, é um grande exemplo de voluntariado, na minha opinião. O empreendedorismo social é outra. Acreditar numa causa e não ver obstáculos para persegui-la é sem dúvida uma grande ação voluntária. Mas ainda assim há muitas pessoas que por causa de toda a sensibilização provocada pelos meios de comunicação em massa acabam também se tornando voluntárias, mesmo sem terem necessariamente uma causa maior que as movam. Isso às vezes chega a causar alguns problemas, não só para as organizações que recebem os voluntários, mas principalmente para o público que é muitas vezes diretamente atendido por esses voluntários. De qualquer forma é sempre válida a iniciativa e a ação voluntária, até mesmo porque através dela muitas pessoas se encontram na vida. O Ano Internacional do Voluntário teve grande repercussão no Nordeste. Até mesmo um foguete chegou a ser lançado do Centro de Lançamentos da Barreira do Inferno, da Força Aérea Brasileira, no Rio Grande do Norte, com mensagens para o espaço de estímulo e apoio ao voluntariado. Muitas empresas começaram também a praticar o chamado voluntariado empresarial, o que estimulou a responsabilidade social empresarial pelo Nordeste. Mas ainda faltam muitos espaços de participação social e política para a população em geral. Várias práticas não governamentais e governamentais, como, por exemplo, o orçamento participativo, começam a criar em alguns municípios do Nordeste um interesse maior nas pessoas pelas questões coletivas e publicas. Isso é muito importante e deve ser fomentado e estimulado. Também se percebe uma crescente participação juvenil voluntária em ações e causas de interesse público, o que é muito interessante.

Para conhecer com mais detalhes a Academia de Desenvolvimento Social e suas atividades, visite o site www.academiasocial.org.br .

Fonte: Portaldovoluntario.org.br

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